Questão de "costume".

- "Mas pra você não vai ser um problema ... você já está acostumada", me diziam as pessoas enquanto organizava mais uma mudança.

- "Você já morou lá, não será um problema ... já está acostumada".

Temos essa mania (disse temos, por isso também me incluo) de definir costume como algo bom, aliviador, prático e resignado.

Mudar não foi um problema realmente. Passamos por momentos de estresse, perdemos noites de sono, nos enrolamos com um monte de coisa, mas não doeu. Talvez, porque estivéssemos "acostumados". Embora me atreva a dizer que você pode mudar trezentas e setenta e oito vezes, todas serão diferentes. A gente vai adquirindo experiência, vai aprendendo a selecionar melhor tudo e vai priorizando o que é fundamental e importante. Mas sempre será diferente. E sempre vai rolar um estresse, mesmo que mínimo.

Sobre "acostumada a morar fora". Não se trata de costume. Se trata de uma bagagem de experiências que a gente vai adquirindo. Mas, acredite, é sempre uma primeira vez.

"Você já morou lá". É. E não é.



Eu já morei na Itália. Após 7 anos na Espanha, tivemos o prazer de morarmos em Roma por 3 anos. O prazer e o desprazer, sejamos sinceros. Se você me acompanha por aqui há algum tempo, sabe muito bem minha relação de amor x ódio com aquela cidade. Passados os anos e as saudades, reconheço que hoje prevalece muito mais o amor. Porque já passei pelo estresse, já vivi, já tive meu momento de adaptação e, uma vez compreendida a bagunça, o caos e o caráter dos romanos, passei a me sentir em casa. E daí peguei minhas malas e fui embora ...

Engana-se quem pensa que chegar no meu país foi aliviador.

Eu nunca havia vivido no Rio de Janeiro. Foi tudo novidade pra mim. Eu não conhecia a cidade, eu não tinha idéia de onde morar. Não conhecia ninguém. Não foi fácil organizar a vida. Demoramos uns dois meses para achar casa e os trâmites burocráticos só não foram péssimos porque tinhamos uma empresa terceirizada (paga pela empresa do marido) que se encarregou de tudo. 

Pulei etapas com a questão do idioma, mas tive que aprender (e uma vez aprendido acabei amando) o carioquêixxxxx. Não. Eu não estava acostumada a viver no Brasil. E quando eu já arranhava vez que outra para falar algum "erre", quando já conhecia metade do bairro, me sentia em casa e sentia que aquele lugar me pertencia ... pegamos as malas e viemos embora. Já estávamos acostumados a fazer isso.

Família, amigos e leitores ... não. Eu não estava acostumada a morar aqui. Nunca morei aqui. E acredite Milão, Monza e Roma são cidades bem diferentes, com pessoas, jeitos e costumes diferentes. Óbvio que não aterrizamos aqui como marcianos que chegam ao planeta Terra, mas quase. Brincadeiras à parte ... até para o marido tudo foi novidade (e ainda está sendo, não estamos acostumados).

A Itália de agora não é a mesma que deixei 7 anos atrás. Os trâmites burocráticos que fiz há 7 anos não são os mesmos de agora. Agora me pareceu tudo mais lento, mais difícil, mais complicado (eu ainda não tenho o Permesso di Soggiorno que é o documento que me permite morar e trabalhar aqui). Não estou ilegal, já dei entrada no pedido. É que, como de costume, as coisas demoram. E estão demorando como nunca. Lembro que da outra vez obtivemos a carteira de identidade no mesmo dia. Dessa vez, tivemos que esperar 3 meses para obtê-la.

- "Tati, você não tem a cidadania?". Não gente. Não tenho. Poderia ter pedido a cidadania espanhola, poderia ter solicitado a italiana, mas não pedi nenhuma das duas. Por quê? Não senti necessidade. Estando casada com meu marido tenho o direito de morar e trabalhar aqui por essas bandas. Nunca senti falta de ter uma dupla cidadania. Enfim ... papo para outro post. Como este já está ficando meio longo, deixa para outro momento.

- "Mas você já está acostumada com o idioma". Realmente não foi difícil como quando morei em Roma. Naquela época não sabia nada além do básico. Precisava do meu marido para traduções simultâneas praticamente todo o momento, sobretudo porque não entendia bulhufas. Passei por alguns momentos de aperto e senti uma raiva danada cada vez que queria mandar alguém para longe e a boca trancava - e isso acontecia praticamente todos os dias. Dessa vez não. Embora com o italiano meio enferrujado e com a mania insistente que tenho de querer falar como uma nativa (e por isso me cobro e exijo mais do que o normal - já estou acostumada), tenho me virado bastante bem. E, caso queiram saber, embora fosse totalmente capaz, ainda não discuti com ninguém. Vim preparada para isso, mas não estava acostumada com tanta educação e cordialidade, mesmo que muitas vezes cínica.

- "Vocês já estão acostumados a viver longe da família". E estamos realmente. Porque mesmo quando moramos em Roma e mesmo no Rio de Janeiro, estávamos longe dos nossos e não os víamos com a frequência que gostaríamos.

Realmente, nisso eu concordo, a gente acostuma com a saudade. Mas acostumar-se com a saudade não significa que a gente a controle ou que ela desapareça. Ela sempre está aí. Tem dias que mais forte, chega avassaladora, faz com que a gente viaje em lembranças antigas, sinta nostalgia até de momentos que pareciam sem importância. A gente fica triste por não compartilhar os bons e se cobra por não estar junto nos maus momentos. Tem outros dias que a gente simplesmente se resigna, reconhece que a opção pela distância também foi nossa e encara a saudade de frente. Fazer o quê?

A gente acostuma a viver sem os sabores. Minhas experiências de antes me provaram que não vou morrer se não beber guaraná, comer açaí, farofa e me ensinaram que posso adaptar o arroz e o feijão com o que encontro aqui. Já não sinto saudade de gostos ... tá bom! Apenas da caipirinha do boteco. Mas nem isso está doendo: meu lugar preferido do supermercado é a sessão dos vinhos. Não me leva pra comprar bolsa nem sapato, me leva para comprar vinho :) Depois de pagar muitos reais por uma garrafa de vinho que aqui custa poucos euros, a gente acostuma com essa facilidade (e felicidade).


Acostumar-se. Pois bem, eu não acho que seja questão de costume. Tudo é novo, é novidade, é diferente, é sempre uma primeira vez. Os lugares não são os mesmos, as pessoas não são as mesmas, os costumes - embora parecidos - são diferentes, nossas realidades mudam e, principalmente, nem nós somos os mesmos. Talvez o encanto esteja mesmo nisso.

Não é questão de costume. Se pudesse definir em uma só palavra (e isso para mim é bem difícil), eu diria que é apenas questão de coragem.



Pequeno foi descoberto.

Recebemos em casa, pelo correio, uma cartinha da  "Direção de Serviços Territoriais de Vacinação", um departamento da secretaria de saúde daqui de Monza, "convidando" os pais do menor Nicola a apresentarem perante este departamento a carteira de vacinação do Nicola, com a finalidade de  verificarem se ele estava em dia com suas respectivas vacinas.

Aqui, como no mundo todo (creio), gira uma polêmica muito grande com respeito à vacinas. De um lado os pais que optam por vacinar seus filhos e, de outro, os pais que tem optado por não vacinar as crianças. Não vou entrar em discussão à respeito, até porque me faltariam argumentos e conhecimento de ambos os lados para debater. Desde sempre optei por dar todas as vacinas necessárias ao Pequeno. Opção nossa como pais, sempre respeitando as demais opiniões, mas sempre atuando de acordo com nosso pensamento.

Pois bem ... por sempre "ter dado todas as vacinas necessárias" acabou que a carteira de vacinação do Pequeno virou uma bagunça. Explico melhor nos parágrafos seguintes.

A primeira caderneta de vacinação do Pequeno foi a espanhola. Quando ele nasceu, recebeu no hospital um livrinho onde constava todos os dados pessoais dele e dos pais, assim como todos os dados a respeito do seu parto. Ali, também, havia um espaço para anotação das vacinas. 



Quando viemos a primeira vez para a Itália, em Roma, fizeram uma nova caderneta para ele (que de caderneta não tinha nada, era uma simples folha), onde organizaram as vacinas já dadas na Espanha e adicionaram conforme os anos correspondentes as vacinas que ele foi recebendo aqui na Itália. A "caderneta" de vacinação era esteticamente feia de se ver (gostava tanto do livrinho!), mas estava organizada e em dia de acordo com o calendário de vacinas da Itália.

Quando chegamos ao Brasil, Pequeno precisou tomar uma vacina que pelo calendário do Brasil deveria tê-la tomado ainda bebê, mas que havia sido abolida há muito tempo nos calendários de vacinação aqui da Europa. Comentei sobre isso nesse post aqui.  Pois bem, depois disso, o calendário de vacinas dele seguiu em dia e foi tomando as vacinas correspondentes de cada ano e cada fase.

Antes de virmos embora novamente para a Itália, aproveitei para dar algumas vacinas que não eram dadas no posto público, mas que nosso plano cobria. A única vacina que ficou faltando e que optei por não dar  foi a vacina contra hpv. Resolvi esperar para ver como funcionava aqui, se era ou não recomendada.



Então que, nuns dois dias após receber a cartinha, resolvi ir no posto daqui, levando Pequeno junto. Caso precisasse colocar algo em dia, seria mais fácil.

Pequeno não foi muito contente. Aliás, já saiu reclamando desde casa (quando era bebê nunca reclamava. Foi só virar pré-adolescente e, pronto ... chatice mode on):

- "Por que a gente tem que ir nesse lugar? Eu não vou tomar vacina nenhuma!"

- "A gente tem que ir porque nos chamaram. E se tiver que tomar alguma vacina, vai tomar sim."

- "Poxa!"

Chegamos e esperamos bons minutos. Pequeno com cara de poucos amigos. Me olhava e dizia baixinho:

- "Eu não quero tomar vacina."

Na trigésima vez que ele resmungou a mesma frase, disse que parasse de "torrar a paciência", que tinha quase certeza de que ele não precisava de vacina nenhuma, apenas tínhamos que apresentar os papéis para que eles vissem que estava tudo ok.

Quando finalmente fomos chamados, entramos os dois para conversarmos com as enfermeiras. Mostrei a cartinha que havia recebido e dei as respectivas cadernetas e folhas de vacinação. Pedi desculpas pela bagunça e expliquei a situação. A princípio estava tudo ok, mas pediram para fotocopiar as cadernetas para, mais tarde, verificarem tudo com calma. Naquele momento estavam com problema no sistema interno e não podiam fazer tais verificações. Pediram e-mail e telefone, me disseram que se tudo estivesse ok enviariam um certificado por e-mail e que se precisasse atualizar alguma vacina, eles avisariam.

Pequeno, já com cara de aliviado, estava se despedindo educadamente das duas enfermeiras que nos atenderam, quando uma delas disse:

- "Ah! Vamos ligar também para marcar um dia para ele vir tomar a vacina contra hpv, pois estamos marcando para todos nascidos em 2007."

Eu deveria ter filmado a cara dele. Me olhou de canto de olho e, quando saímos da sala, me disse:

- "Eu falei! Não era pra ter vindo!"

Dois dias depois recebi o e-mail com a confirmação de que estava tudo ok com seu calendário de vacinação e, no mesmo dia, me ligaram para marcar a data e horário para a vacina.

Tem coisas que eu detesto da burocracia italiana. Mas tem outras que eu adoro. Pequeno, bom ... ele nem tanto ...

O Blog de 1978.

Semana passada, arrumando algumas coisas nos armários (sim! Eu ainda não estou com tudo organizado - e nem é por preguiça, é porque ainda não compramos todos os móveis mesmo. A casa é grande e o dinheiro é curto ... fazer o quê?!), mexendo na última mala que - ainda - estava fechada, encontrei algumas coisas perdidas (algumas literalmente e outras nem tanto). Encontrei coisas que trouxe e, a verdade, depois de dois meses nem senti falta (ou seja: nem precisavam ter vindo) e, outras, que não lembrava e tive uma feliz surpresa ao encontrá-las.

Ainda no Rio de Janeiro, quando estava me desfazendo de quase tudo de material que tínhamos e vivendo aquela fase tensa do momento de escolher e selecionar o estritamente necessário, decidi conservar algumas cartas, cartões e bilhetes antigos. Cartas de quando fui morar na Espanha e muita gente me escreveu, cartões de aniversários das amizades que fiz por lá, os primeiros cartões e cartinhas de amor do/para meu Nick Sênior, cartões de casamento das famílias da Itália e do Brasil. Era muita coisa. Muita mesmo! E, como o espaço físico estava curto, resolvi guardar a grande maioria num espaço com armazenamento infinito: no coração. Reli tudo, tudo mesmo. Me custou tempo, me tirou sorrisos e me fez derramar algumas lágrimas. Porém, algumas poucas cartas e cartões vieram comigo. Coloquei tudo numa sacola azul e enfiei de qualquer jeito em meio as tralhas, prometendo que organizaria tudo quando chegasse o momento aqui.

Pois bem. Quando peguei a sacola azul onde havia colocado tudo junto, encontrei em meio a cartas e cartões um álbum que nem o havia aberto no Rio. Mas, mesmo assim, tinha a certeza de que ele deveria seguir viagem comigo: era meu "Diário de Bebê". O blog de hoje, só que lá em 1978. Foi uma feliz e grata surpresa.

Assim como fiz lá no Rio com as cartas, larguei tudo o que estava fazendo, deixei a mala cheia de bagunça e os armários com as portas abertas, sentei na cama e fui me aventurando em cada uma de suas poucas páginas. Infelizmente não tinha nenhuma foto. Na verdade, fotos de bebê tenho poucas e ficaram no Brasil, na casa da minha mãe, junto com outras fotos e alguns livros.

Logo na primeira página me deparei com a letra inconfundível da minha madrinha. Em outras, reconheci a letra da minha irmã.




Muitas coisas ficaram em branco, sem ser registradas. Acho que dei tanto trabalho que o povo não teve tempo de ficar escrevendo.


Nasci mais gordinha que Pequeno, porém mais baixa (aliás, 40 anos depois segue tudo igual ...).


Me peguei sorrindo e curiosa logo quando li a página acima. O papai tinha razão, embora hoje seja muito mais parecida com minha mãe, tenho os olhões da família do pai. O nariz é dele também. Fiquei curiosa para saber com qual dos 3 manos me pareço (embora pense que tenha um pouco de cada um deles comigo - os olhos do Beto, as bochechas do Renato, a boca do Miguel). Faltou uma observação ali embaixo da minha irmã dizendo:

"OBS.: sai fora todo mundo! Ela é a minha cara!"

Se somos parecidas eu não sei. A voz é igual :) 

Logo, me vi refletindo sobre a loucura que foi a minha chegada. Não queria estar na pele da minha mãe. 4 filhos criados, 2 no final da adolescência e outros dois já entrando na fase adulta. Meu irmão mais velho já fora de casa, de repente ... grávida. Agora eu entendo quando minha mãe dizia que chorava ... eu teria fugido :)

Fico imaginando o que, também, deve de ter se passado na cabeça dos meus irmãos. Acho que tudo o que menos esperavam naquele momento era ter uma chata chorando por casa. Todos, inclusive o Pelé, meu irmão do coração. Lembrei dele (que anda por aí pelo mundo e só aparece de vez em quando) e fiquei com o coração apertado. De todos os irmãos foi o que mais viveu comigo na mesma casa. Foi meu protetor, meu cuidador, minha companhia e me livrou de muitas broncas. Me chamava de "Chatiana" ou "pintorzinho de rodapé". Me comprava sempre os melhores chocolates, me dava bronca quando me via pela rua andando de bicicleta com saia. "Já pra casa botar um shorts", parece que estou ouvindo ele dizer isso em tom brabo, mas de brabo não tinha nada. Foi meu guarda-costas nas primeiras festinhas. E olha que era dos bons: mesmo que tentasse fugir dele, quando menos esperava lá estava o Pelé atrás de mim. Encarei boas discussões quando duvidavam que ele era meu irmão. E como via que o povo não entendia era nada, sempre resumia dizendo: "ele nasceu de noite, ué!". Pelé sempre foi meu irmão. Tenho 4 de sangue e um de coração.

E quando estava quase derramando uma lágrima, ao virar uma nova página levei um susto:


Meus cabelos! Meus cabelinhos! Peguei um fiozinho dali desse emaranhado de cabelinhos que vocês estão vendo e fiz uma comparação com os dias atuais. Acreditem: segue tudo igual. Sim! Meu cabelo segue da mesma cor (tirando os brancos que já habitam minha cabeça) e, o que mais me impressionou - e decepcionou -, segue fino igual. Não mentia quando afirmava quase sem querer que meu cabelo era fino como de bebê. Agora quem duvidar vai se dar mal, pois tenho até prova.


Minha mãozinha não foi muito bem desenhada. Vai ver não parei quieta. Coisa muito provável.

E foi só ir para a página seguinte, para as lembranças apertarem o peito novamente:


Quanta saudade do meu padrinho! Meu dindo e minha dinda sempre foram muito presentes em minha vida. Tenho lembranças maravilhosas da minha infância com eles, dos passeios, da minha prima Izabel me fazendo de cobaia para suas invenções de moda, das visitas na casa deles, do Nescau que minha dinda fazia e da bondade do meu dindo. Lembrei que, já adulta, fui dormir na casa dos meus padrinhos para, no dia seguinte, fazer prova para um concurso. O concurso era cedo e, mesmo sem necessidade, meu padrinho - que naquela época já estava doentinho - acordou cedo e fez questão de me acompanhar até o local das provas. Eu não passei no concurso e, quando saiu o resultado, chorei de raiva. Queria ter passado, sobretudo, para poder agradecê-lo de alguma maneira. Se eu viver 100 anos, não vou conhecer pessoa mais bondosa nesse mundo do que ele. Comentei muitas vezes com meu Nicola Sênior que ele se daria muito bem com meu dindo, os corações bondosos deles se reconheceriam. E quando a lágrima já embaçava o olho, foi momento de virar a página mais uma vez.


E, fazendo jus a bipolaridade do momento, caí na gargalhada ao constatar que, atualmente, algumas coisas se inverteram:

apetite: demais
digestão: boa
sono: ótimo
observações:  deveria sorrir mais.


Me espantei quando cheguei na página acima. "O caráter" da criatura aqui em branco ... isso seria bom ou ruim?

Mas aí virei a página e logo em seguida descobri que foi bem melhor deixar em branco mesmo ...


Outra coisa que segue igual: adoro uma bagunça. Só não adoro tanto porque agora além de bagunçar tenho que arrumar. E em dose dupla, pois meu Nicola Jr é tão bagunceiro quanto sua progenitora.


- "Ohhhhhh!", foi o que pensei :)


Então, eu que pensei que já havia gasto todo o estoque de lágrimas daquele dia, me debulhei novamente lendo a página da primeira saída. Quanta saudade dos meus avós! Minha vozinha Amélia e meu vô Clóvis. Na verdade, nem sei se é saudade, pois tenho pouquíssimas lembranças, já que ambos partiram quando ainda era muito pequena. É, creio, uma dorzinha misturada com nostalgia, uma tristeza profunda por não ter podido aproveitar mais dos dois. Eu tinha tantas coisas para perguntar pra minha avó, queria escutar tantas histórias dela, queria tê-la visto sem estar doente. A única vaga lembrança que tenho dela é de em um momento estar sentada em seu colo, ela já doente,  com o curativo da traqueostomia, tadinha, e a pirralha aqui pulando em seu colo, com meu vô sentado ao seu lado. Meu vô que, dizem, era duro na queda, teria muitas histórias, também, pra contar pro meu Pequeno. Das coisas do destino, foi o primeiro Nicola da minha vida ... se chamava Clóvis Nicolau. Quando faleceu, na divisão de bens, minha mãe, com a parte que lhe correspondeu, realizou um sonho do meu avô: me comprou uma bicicleta. A bicicleta mais linda que tive em toda a minha vida: azul, como sempre quis e sonhei.


Voltei à Terra na página seguinte. Me vi peladona no hospital com uma platéia enorme assistindo ao meu banho. Imaginei minha irmã querendo bater na enfermeira por eu ter me machucado. Até hoje tenho arranhões que nem sei de onde surgem. Estabanada desde sempre.

Encontrei mais algumas páginas escritas, com informações que, no momento, não vem ao caso.

Senti uma felicidade enorme por cada coisa que li. Agradeço imensamente à minha madrinha e à minha irmã por terem registrado esses momentos. Talvez elas nem imaginem o quanto significaram pra mim hoje, aos 40 anos, mais uma vez longe, descobrir essa etapa tão boa.

Fiquei pensando como será daqui a 30, 40 anos quando Pequeno, sem querer, encontre muito de si nas linhas e histórias que escrevo. Das lembranças que ele vai ter, das saudades, das faltas, das memórias ... por quais motivos serão seus risos e por quais serão seus choros.

No meu livro de bebê não tinha espaço para comentários. Mas aqui tem. Então, pra você que fez parte daquela época, escreve aqui o que você lembra. Pode ser até sobre aquela faceta de mimada, mal educada, chata, resmungona, brigona ... não tem problema ... tudo faz parte.

E, pra terminar esse post cheio de bons sentimentos, traduzo em apenas uma palavra o que representou minha infância, tanto das lembranças que tenho como das que nem imaginava. Eu,  Tatiana, ariana geniosa, nascida em 18 de Abril de 1978, de parto cesárea realizado pelo Dr. Antônio Claudio (dele tenho vagas lembranças de quando acompanhava já maiorzinha minha mãe nas consultas), no hospital Ernesto Dorneles. Filha da Laura e do Valdemir. Irmã do Roberto, da Rosangela, do Renato, do Miguel e do Pelé, registro, afirmo e assino embaixo, que fui a criança mais feliz desse mundo. Pronto. Tá aí a palavra que traduz todo esse parágrafo: felicidade.

Esse mundo é mesmo uma caixinha de surpresas. Eu, que tanto orgulho tenho do blog do Pequeno, mal sabia que tinha o meu blog, escondidinho e guardadinho, feito tesouro.


Sobre sorte, sobre micos, sobre homens e carros.

Sexta-feira retornamos à nossa rotina de "ir buscar o marido no trabalho". Passou a ser rotina quando morávamos no Rio de Janeiro, sobretudo porque de casa até o trabalho do marido não demorávamos 15 minutos (a pé). Desde que mudamos para nossa casa aqui em Monza não havíamos feito mais isso. Até porque, agora, precisamos pegar trem e metrô. O trajeto não é longo. Mas junta a preguiça (até porque ficamos bem mal acostumados) com o tempo frio, pronto. Acaba que sempre preferimos esperá-lo em casa. Pois bem, na sexta passada, aproveitando que estava fazendo um dia lindo de sol e "até calorzinho" (saímos de casa com 11ºC) e fomos bandear por Milão.

Encontramos com o Nicola Sênior e saímos sem destino pelas ruas da bella Milano. Muita gente, final de tarde super agradável, com um céu lindo e nós 3 sem destino. Passamos pelo Teatro Scala, para apresentá-lo ao Pequeno. Logo, sem querer, adentramos na zona fashion de Milão. Quando vimos, estávamos vendo vitrines do quadrilatero della moda

Quem me conhece sabe que não dou bola para nenhuma daquelas vitrines. Preferiria estar em algum bar bebendo um bom vinho do que ali vendo aquele monte de coisa cara. Pessoas elegantes, bonitas e algumas estranhas. Alguns turistas e muitos somente fazendo nada como nós. De repente, cruzamos com uma Ferrari pela rua, para alegria dos meus Nicola's, sobretudo do Nicola Junior. Primeira vez que vi uma Ferrari cinza. Dei a ela a mesma importância que estava dando para as vitrines: zero.

Porém, Pequeno ficou eufórico. Desde que chegamos aqui ele tem exteriorizado com mais ênfase seu gosto por "carrões". Talvez porque antes ele não visse com tanta frequência esses carrões pela rua. Com muita facilidade cruzamos por aqui com Porsche's, Lamborghini's e Ferrari's da vida. Aliás, dia desses, o menino foi descer o lixo (uma das tarefas dele aqui em casa) e ficou encantado ao se deparar com um Porsche amarelo grudadinho  nos cubos de lixo dos papéis. Ele não sabia se jogava o lixo fora, se olhava para o carro ou o que fazia.

- "Um Porsche aqui em casa?"

Provavelmente de alguma visita aqui do edifício, pois nunca o havíamos visto antes.

Voltando à Ferrari ... ela passou por nós, os Nicola's de olho nela e eu praticamente perguntando se eles não tinham nada mais útil que fazer.

- "Mãe! É uma Ferrari! Posso tirar foto?"

- "Não! Faz de conta que tu estás acostumado a ver Ferrari's e que tu nem dá bola pra elas. Pronto".

- "Poxa!"

Sim. Sou bem estraga prazeres.

Então, o Nicola Sênior disse:

- "Uau! Tem outra Ferrari ali na frente estacionada."

Achei que fosse brincadeira. Mas tinha mesmo. A "tradicional", daquelas vermelhonas, bem estacionada em frente a uma dessas lojas de marca caras pra dedéu.

- "Ah, mãe! Dessa eu posso tirar foto, né?"

Já tinha gente em volta da Ferrari tirando foto. Assim que, dessa vez, disse que poderia. Fui em frente, fiz de conta de que o filho nem era meu. Vamos combinar: tanto mico pra pagar, não queria pagar um por causa de uma Ferrari. Nem gosto daquele treco!



O menino ficou emocionadíssimo tirando foto da vermelhona. O brilho no olho dele estava tão bonitinho que resolvi tirar uma foto dele tirando foto. Pequeno na parte da frente da Ferrari e eu na parte de trás.

Quando posiciono o meu celular, vejo que vem em direção ao Pequeno um moço, muito bem arrumado, com pinta de quem era o dono do carrão. Fiz aquele movimento patético tentando disfarçar que nem tava querendo tirar foto do carro dele (e nem tava mesmo, queria era tirar foto do meu filho). Logo, ele acionou o botãozinho para abrir o carro e as luzes laterais da Ferrari se acenderam.

Pequeno, que não havia visto o moço, com um olhão agora de assustado me diz:

- "Gente! Não fui eu! Não fiz nada!"

Caí na gargalhada.

Olhamos para o moço com aquele sorriso amarelo de vergonha. 

Então, muito simpaticamente, o moço disse ao Pequeno:

- "Quer ligar o carro?"

Pequeno com um sorrisinho de canto de boca, disse "não, obrigado!" num tom de "ah, se pudesse!".

O moço então retrucou:

- "Eu tô falando sério! Você quer ligar o carro?"

Nesse momento Pequeno levitou, marido quase chorou de emoção e minhas pernas tremeram: já estava vendo o menino arrancando o carro, batendo na placa em frente aonde estava estacionada a Ferrari e tendo que vender todos meus órgãos para pagar o estrago. Jesus! Ele aceitou!

Foi tudo tão rápido e tão tenso que quase nem consegui clicar novamente no botãozinho da câmera do celular.

O moço explicou para o Pequeno o que ele tinha que fazer, aonde tinha que apertar e colocar o pé e ... vrummmmmmm ... a criatura botou a Ferrari em marcha. Logo eu que não gosto da dita cuja, achei o ronco mais fantástico desse mundo! Ô bicho barulhento!


Que gurizinho de sorte!

Pequeno e o moço trocaram mais algumas palavras rápidas, logo Pequeno agradeceu. Eu e marido também o agradecemos. Ele havia sido simpático e gentil. Afinal de contas poderia nem ter dado bola pra gente. Eu, bem da verdade, ainda seguia envergonhada pelo mico de ser pega no flagra tirando foto dos carros alheios e,  depois, morri de vergonha com todas as pessoas que ficaram olhando pra gente enquanto Pequeno testava o carro. Marido seguia quase levitando ... como bom italiano doc ele adora Ferrari's e, ao contrário do Pequeno, nunca havia tido a oportunidade de estar tão perto de uma.

Nos despedimos do moço, agradecendo mais uma vez a gentileza.

Já estávamos dando alguns passos tentando absorver a emoção do momento quando escutamos o moço dizer:

- "Ei, mas por acaso você deixou a chave aqui dentro?"

E Pequeno, assustado, responde:

- "Ops! Não. Tá aqui comigo!"

Meu olhão arregalou:

- "Como assim, rapaz? Tá roubando a chave da Ferrari do moço?"

Sorrimos mais amarelados que antes. Moço sorriu também. Pedimos desculpas e agradecemos mais uma vez. 

- "Nicola! Quer me matar de vergonha?"

- "Mãe! Era emoção demais ... nem lembrei da chave!"

Eu falei: um carro como qualquer outro ... nem funciona sem chave  :)



Histórias que se repetem.

Não faz nem um mês que a criatura começou na escola. Caiu de paraquedas em meio ao calendário de avaliações. Não escapou de nenhuma. Isso sim, alguns professores tiveram em conta que o menino acabara de chegar e, apesar de um bom nível de italiano, vinha de um país estrangeiro, com outro idioma, outra rotina e acostumado a outros métodos de avaliações.

Aqui, ao contrário do Brasil, não tem teste e as avaliações são de dois tipos: escrita e oral. Óbvio que Pequeno nas avaliações orais se deu bem - não poderia ser diferente para um menino tagarela como ele. Ele tem o dom da oratória e sabe tirar proveito da "enrolation" ... nesse caso, "enrolazione" (não existe essa palavra em italiano, acabei de inventar, viu gente?!). Algumas notas satisfatórias, outras nem tanto ... mas tendo em conta de que o menino chegou quase 4 meses após o início das aulas ... até que ele se deu bem. Embora nossa briga seja a mesma de sempre: um pouco mais de esforço e atenção. Mas, enfim ... tudo faz parte do processo. Já esperávamos por isso.

O que não mudou em nada, comparado com sua rotina de estudos no Brasil, é o fato de que aqui também tem muitos deveres. E, pra ser bem sincera, acho que aqui ainda tem mais deveres do que no Brasil. O menino praticamente passa as tardes estudando. Um pouco por que é lento e disperso e não sabe se organizar com os estudos. Mas, por outro lado, tem dever que não acaba mais. Preciso reconhecer.

Eu e o pai dele temos tentado ajudar, na medida do possível. Porém, faço questão de que ele pegue as rédeas de suas responsabilidades. Se já "é grande" para ir sozinho para a escola, também precisar ser grande para dar conta do resto de suas responsabilidades escolares.

Enfim ...

Ontem, mais uma vez, chegou da escola cheio de coisas para estudar. Dentre os muitos deveres de matemática, geometria, inglês, etc, havia um dever de italiano em especial que estava tirando seu sossego.

Precisava decorar para o dia seguinte (ou seja, hoje) parte de um poema. Era curto. A princípio, olhando o livro de longe, achei que fosse exagero dele. Porém, quando fui ler o bendito poema, entendi o desespero da criatura. Era difícil pra caramba! Era difícil até para um italiano nascido, crescido e estudado aqui ... imagina para o meu italianinho fake.

«Cantami, o Diva, del pelide Achille

l'ira funesta che infiniti addusse 
lutti agli Achei, molte anzi tempo all'Orco
generose travolse alme d'eroi,
e di cani e d'augelli orrido pasto
lor salme abbandonò (così di Giove
l'alto consiglio s'adempìa), da quando
primamente disgiunse aspra contesa
il re de' prodi Atride e il divo Achille.»

(Proemio dell'Iliade nella traduzione di Vincenzo Monti)

Passou boa parte da tarde falando sozinho no quarto. Logo, me pediu ajuda e pesquisei na internet alguns vídeos, a fim de que pudesse ser um incentivo para o processo. Nada. A primeira parte decorou logo. Mas o resto ... nem com reza braba.

Para ajudar, a professora marcou no texto a nota que tirariam ... se decorar até tal parte tira 6; até tal parte 7; até tal parte 8; até tal parte 9. Se decorar tudo, claro, 10. E ele até o momento só poderia tirar 6. Desespero total!

Durante o jantar, conversando a respeito (sim, porque o assunto se estendeu) lembrei, então, que quando tinha mais ou menos a idade dele, tivemos que decorar um poema para um trabalho de escola. Me gabei dizendo que o meu poema era bem maior que o dele e que havia decorado de tal maneira que lembrava dos versos até  hoje. Pequeno, curioso, pediu que o declamasse. Assim que, em meio ao jantar, declamei para os Nicola's o Soneto de Fidelidade. "De tudo, ao meu amor serei atento ...". Declamei todinho (morrendo de medo de esquecer de alguma parte - já estava preparada para alguma "enrolazione"). Pequeno achou o máximo. E disse:

- "Nossa! É grande mesmo! Como é que tu ainda lembra?"

Perguntou, então, para o pai dele se alguma vez na escola teve que decorar algum poema. Claro que sim! Quem escapa dessa tortura?

Marido, então, declamou o seu. Pequeno talvez nem tenha notado, mas eu notei que teve sim um pouco de "enrolation" ... danadinho do papai!

Pequeno achou o máximo de novo.

Pronto. Foi a gota d'água para o menino se esforçar para decorar o seu poema. Se o pai e a mãe foram capazes e até hoje lembram, por que ele não seria? Recebeu os exemplos quase como um desafio: se eles podem, também posso.

Voltou para o quarto, dessa vez com o pai que o ajudou a entender melhor o sentido do poema. Minutos depois foi para o banho e, debaixo do chuveiro, super animado, seguiu declamando. Vez que outra o marido batia na porta para corrigir alguma pronúncia ou alertar de algum esquecimento.

Eu fui dormir e o menino seguiu no quarto, falando sozinho. 

Hoje pela manhã, quando fui acordá-lo para ir para a escola, tadinho, nem abriu direito os olhos e já começou a declamar os versos, ainda debaixo das cobertas. Tomando café, entre um gole e outro, repetia orgulhoso de si as frases difíceis já decoradas.

- "Eu já sei! Eu já sei!", repetia.

- "Fica tranquilo, filho! Vai dar tudo certo. Se esquecer alguma coisa ou outra não tem problema."

- "Não vou esquecer nada, eu já sei!".

Ao sair de casa, escutei que ele foi falando no elevador. Já o imaginei o caminho inteiro falando sozinho pela rua.

Judiaria! Saiu de casa com -2ºC, mas super empolgado. Fiquei espiando pela janela. Ele me acenou, como todos os dias, mandando beijinhos. E, enquanto meu menino ia desaparecendo na paisagem, declamei para mim:

"Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."
(Vinicius de Moraes)

P.S.: Pequeno voltou feliz e sorridente. Tirou 9. E, como ele mesmo disse: "Só não tirei dez porque enfiei um acento no lugar errado ..."

Questão de "costume".

- " Mas pra você não vai ser um problema ... você já está acostumada ", me diziam as pessoas enquanto organizava mais uma mudança...