quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma Mão Cheia.

Hoje completamos 5 anos morando no Rio. 5 anos. Uma mão cheia.

Alguns dirão: "?" ... mas a verdade é que temos a sensação de que estamos aqui "uma vida inteira".

Viemos meio que "na aventura", para tentar ver "como vai ser", com planos de ficar por aqui, quem sabe, uns 3 anos.

E 5 anos depois, posso dizer que realmente foi uma grande aventura. Foi como havíamos pensado? Por vezes sim, por vezes não. Pra bom e pra pior. E os 3 anos, até o momento, se transformaram em cinco.



Eu gosto daqui. Gosto bastante. Amo o clima. Andar de bermuda e camiseta praticamente todo o ano, pra mim, não tem preço. Esse estilo informal de vida, esse clima de praia, sair pela rua e ver gente caminhando em traje de banho como se fosse a coisa mais normal do mundo (e por aqui é), chinelos como se fosse uma segunda pele. Reconheço que, no início, achava a coisa mais feia do mundo. Aonde já se viu andar de chinelo pela rua? Mas já saí por aí, várias vezes, de Hawaianas e bolsa (e me senti super chique!).

A praia. Ah, a praia! Esse lugar que reúne todo mundo, o lugar mais diplomático do universo. Essa facilidade que se tem aqui de "se não tiver nada pra fazer, vamos pra praia?". Também não somos "ratos de praia", não é que estejamos lá todos os finais de semana, na verdade a gente vai até bem menos do que gostaria. Mas só saber que ela está lá pra quando a gente quiser já dá um certo conforto. Aluga uma cadeira, uma barraca (guarda-sol), pega uma cerveja e ... pronto! Pode até acabar o mundo, que a gente vai seguir lá.






E por que não falar do "jeitinho carioca"? Fazer as coisas com calma, sem pressa, uma malemolência que só vi por aqui. Essa coisa de falar alto, puxar o R como niguém, escorregar no S ... o "vamos marcar um encontro, um churrasco, um passeio, um chopp" ... e nunca marcar nada. O churrasquinho na rua, o suco da esquina, os FlaxFlu's da vida, o chopp do boteco. Ah, os botecos! Ir pra lá e se sentir "em casa", conhecer os garçons, que já sabem que prefiro caipirinha de cachaça e limão mesmo, se esbaldar comendo frituras, mesmo sabendo que terei dor de estômago de madrugada.




Aqui nós vivemos momentos históricos: a vinda do Papa (e nosso Pequeno foi abençoado bem de pertinho), a trágica Copa do Mundo (até hoje pequeno sofre com os 7x1), Olimpíada (Pequeno sortudo ganhou a bola de vôlei). Apesar de não ter participado tanto quanto gostaríamos, vivemos tudo isso de perto e foi uma experiência muito legal.







Eu vim pra cá cheia de planos. E pra resumir esse parágrafo, não realizei muitos deles. Faz parte. Muitas vezes, mesmo planejando muito, temos desvios de percurso. E aí é preciso ir pro plano B, C ou quantos forem necessários. Sem estresse. E realmente é assim que vivo ... quase sem estresse.



Meu Pequeno, que chegou falando com um sotaquezinho de gringo coisa mais fofa do mundo, 5 anos depois está super adaptado à vida do País Tropical, à vida da Cidade Maravilhosa. Infelizmente só não pegou o sotaque daqui. Eu tinha esperanças de ter um filho falando "siniXtro, puRRRquê, maiX". Mas não deu. Assim como eu perdi meu sotaque, ele tem sotaque de lugar nenhum.



Também preciso ser sincera e dizer que durante estes 5 anos bateu um certo arrependimento por ter abandonado o Velho Mundo. Muitas vezes sentimos vontade de ir embora (sinceramente, o marido mais do que eu). Muita coisa que não funciona, muita coisa que desespera, pagamos um preço muito alto por coisas básicas, como educação, moradia, saúde, segurança. Perdemos dinheiro, perdemos estabilidade, perdemos mordomias. Que droga, hein?! Então, por que vieram?



Viemos para viver uma nova aventura, para conhecer coisas novas, abrir nossos horizontes (principalmente do nosso Pequeno) e, talvez o mais importante: para estarmos mais próximos da família. Não contávamos que os preços das passagens, por vezes, seriam absurdos e impossibilitariam o encontro. Mas, durante estes cinco anos, meus pais ficaram doentes, primeiro minha mãe logo, meu pai. Estar mais próximo deles foi um alívio. Mesmo não estando junto nos momentos difíceis tanto quanto gostaria. Mas, aguentar doenças graves com um oceano nos separando, teria sido muito mais difícil.



Porém, sofremos com a saudade das pessoas que ficaram lá do outro lado do imenso oceano. Ganhar em Reais com o Euro valendo quase 4 vezes mais, não facilita a nossa vida e nem possibilita a visita sempre que queremos. Faz mais de um ano que não vemos a nonna. E a saudade dói, a distância machuca. Os sobrinhos que crescem, Pequeno que cresce ... e tudo isso perdemos com a distância.

Mas, como costumo dizer, nossa vida vai ser sempre assim: independentemente de aonde estejamos, sempre sentiremos saudades. Isso é que dá ter família globalizada.

Saudade, aliás, palavra que nos acompanha constantemente: saudades dos lugares que moramos, das pessoas que conhecemos, dos amigos que deixamos, das histórias que vivemos. Acredite se quiser, sinto saudade, já, até mesmo do Rio de Janeiro. Maluca, né?

Talvez por essa incerteza do futuro, talvez por essa falta de se "enraizar" em algum lugar, talvez por ter sempre esse plano de morar num lugar, no máximo, uns 3 anos, talvez pela certeza da partida, talvez por isso, assim, como quando escrevi o nosso relato de 1 ano no Rio, a cada dia que vejo o Cristo, o marrom das pedras do Pão de Açucar, sigo respirando fundo e mentalizando a saudade que algum dia sentirei deles. E sentirei mesmo.




















Mas eu não vou sentir saudades das ruas sujas, que inundam a cada chuvinha. Não vou sentir saudades dos fios soltos nas calçadas. Dos assaltos e arrastões, de sair na rua agarrada na bolsa, sem brincos nem colares (perdi minha vaidade aqui), nem celular muito exposto. Não vou sentir saudades de ver pessoas nas filas de atendimentos médicos, morrendo à espera de exames. Não vou sentir saudade da falta de investimento em educação, de ter que pagar bem caro por algo que meu filho tinha de graça: um ensino de qualidade. Não vou sentir saudades dos tiroteios, das balas perdidas, da guerra de traficantes.



Essa cidade tinha tudo para ser realmente Maravilhosa. Mas não é. Mas não existe lugar perfeito também. Assim como todos os outros lugares por onde passei e por onde morei, todos tem seu lado bom e ruim. Mas, apesar e com pesar de todas as questões negativas, ainda assim, aqui vivemos uma vida tranquila. 

Meu marido vai a pé para o trabalho, participa ativamente na rotina do filho, é um pai presente, presente de verdade, busca o filho na escola, algumas vezes conseguimos almoçar juntos. Apesar de vivermos numa cidade grande, não sofremos com a rotina típica dela: estresses de trânsito, correria típica do dia-a-dia. Costumamos dizer que temos uma rotina de cidade pequena dentro da cidade grande. E brincamos que Botafogo, nosso bairro, é a nossa mini cidade. Isso também não tem preço.

Pequeno já é conhecido de toda a vizinhança, parece mesmo que ele está há uma vida inteira por aqui. Ele se diverte com o tucano que vem nos visitar vez que outra, com os miquinhos correndo pelos fios. 






5 anos já. Uma mão cheia. Temos a sorte de morar bem aos pés do Cristo Redentor. Todos os dias de braços abertos pra gente. Que ele siga nos abençoando, protegendo e fazendo parte da nossa rotina. Que sortudos que somos!


5 anos já. Parece que foi ontem ... que mentira! Parece que faz uma vida inteira.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Nosso 4° Carnaval no Rio.

Sinceramente não somos muito fãs de carnaval. Há 4 carnavais temos vontade de desfrutar do carnaval da Sapucaí: assistir aos desfiles, curtir o colorido e a energia do sambódromo. Mas sempre nos enrolamos, perdemos tempo e quando a gente finalmente decide ou não tem ingressos disponíveis ou, se tem, é muito caro.

Mas o carnaval do Rio não é somente aquele famoso das escolas de samba. Aqui também tem blocos de rua, muitos, de todos os tipos, gêneros e para todas as idades.

Mas não somos muito de bloquinhos também (que "sem graça" que somos!). No nosso primeiro carnaval curtimos um pouquinho, mas não muito. Mas já de cara nos chamou mais a atenção as coisas negativas (os bêbados sem noção, a sujeira pela rua, o povo fazendo xixi em qualquer lugar) do que os pontos positivos.

Já o segundo carnaval foi mais intenso. Apesar de não muito motivado, neste ano fomos em mais blocos. Alguns legais e outros que juramos não voltar nunca mais.

No terceiro juramos que seria o último, que no próximo viajaríamos.

Mas não foi isso que aconteceu. Este foi nosso quarto carnaval na Cidade Maravilhosa. E, neste ano, foi totalmente voltado para o Pequeno. Todos os blocos que fomos foram blocos infantis. Resumindo: pra mim foi um saco. Bloquinhos bem sem graça, sem música, cheio de criança correndo, jogando confetes e serpentinas e se inundando com as malditas espumas em spray. Sem contar, os rebentos pedindo coisa para beber, coisa para comer, ir no pula-pula, comprar balão, brinquedos, etc. Que saudade dos bloquinhos com as típicas marchinhas de carnaval!

Mas, Pequeno se divertiu. E, no final, isso era o mais importante.

A primeira festa foi na sexta-feira pré- carnaval, na escola.

Pequeno já havia decidido a fantasia: pirata. Deu aquele alívio tremendo, já que era uma fantasia que ele tinha, "de outros carnavais". Mas, como alegria de pobre dura pouco ... logo a invenção que faltava:

- "Aonde já se viu um pirata sem barco?"

- "Barco?"

- "É mãe! Um barco! Daí eu enfio assim em cima, entro nele e pronto. É fácil."

Fá-cil. Aham. Momento, então, da mãe rezar para os anjinhos protetores das mães sem dotes artísticos e esperar por uma luz divina.

Fiz o que pude, dentro das minhas poucas habilidades e com os materiais que tinha disponível:

- 3 folhas de papel cartão preto
- cola
- tesoura
- 2m de fitilho
- giz de cera branco
- 4 adesivos que tinha por casa de caveirinhas
- fita adesiva
- bandeira de pirata que Pequeno já tinha em casa
- pedaço de madeira para sustentar a bandeira
- ajuda da prima que estava em casa para curtir o carnaval






Se ficou bom não sei, mas ele amou. Isso é o que importa.

Para fechar o dia com chave de ouro, ele voltou da escola pra casa com uma medalha e um prêmio (uma bola)  de primeiro lugar no concurso de fantasias. Se "achou o máximo" e me agradeceu por ter feito o barco pra ele pois, segundo ele, se não fosse o barco, ele não teria vencido. Transbordei de felicidade! Valeu o esforço, o estresse e até mesmo ter colado os dedos com Bonder.

No sábado de carnaval fomos passear por Copacabana, pra ver o clima da rua. Muita gente, muitos blocos e muita alegria.



À noite, aproveitando o clima de carnaval, ele resolveu sair mascarado para irmos ao "boteco nosso de cada dia".


No domingo de manhã foi dia de ir para o bloco com os amigos. A família toda entrou no clima:
















No domingo a tarde, hora de descanso. Só que não!  Fomos para outro bloco, curtir o carnaval dos pequenos e encontrar minha amiga de infância que estava aqui pelo Rio.

Mas Pequeno, do bloquinho, não curtiu quase nada. Logo que chegamos ele avistou uma meninada num campinho de futebol que havia na pracinha aonde estava o bloco e foi correndo pra lá.





Já na segunda, marido se deu de baixa da animação do carnaval e eu e Pequeno fomos solitos para o bloco infantil do dia.

Mas, acho, ele estava tão cansado das folias dos dias anteriores que não aguentou muito tempo e logo voltamos pra casa.







Na terça ficamos de ressaca e saímos somente a tardinha. Uma caminhadinha por Copacabana novamente, algum que outro bloquinho visto desde longe. Pequeno aproveitou para jogar um futebolzinho na praia e, assim que deu, pegamos o bonde da preguiça e voltamos para casa.


Eu não sei como esse povo aguenta, mas a verdade é que estou de ressaca, com sono, cansada. Ainda bem que aqui, com a desculpa do carnaval, as escolas enforcam a semana inteira. Pequeno retorna somente na segunda.

O problema é que o carnaval ainda não terminou por aqui.

Domingo tem o bloquinho do nosso bairro. E a coisa promete ... espero que estejamos mais animados para curtir a folia. Será?