sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

E lá vamos nós ... mais uma vez.

"Eu tenho tanto pra lhe falar ..."



nossas primeiras fotos no Rio

Eu tenho muito, muito mesmo para escrever. Tanto que nem sei por onde começar.  Com a correria da mudança, faltou tempo para colocar as idéias em ordem. Em cada momento com olhar de despedida, desde que confirmamos nossa partida, foi surgindo na minha mente muitas idéias e histórias para contar. Incrível como tudo nesta vida é questão de ponto de vista. Basta olharmos para as coisas com outros olhos que tudo muda. Mas minhas idéias e histórias destas últimas semanas  ficarão para um outro momento. Não tive tempo de fazer uma postagem de despedida à altura e lamento muito por isso.


Desde o dia 01 de março de 2012, dia em que chegamos no Rio de Janeiro, sabíamos que, cedo ou tarde, o dia de nossa despedida da Cidade Maravilhosa iria chegar.

Não havia um prazo certo de "validade" pra gente aqui, mas nos nossos planos, talvez uns 5 anos, no máximo. Pouco a pouco fomos relaxando, deixando de ver as belezas da cidade com olhos de turistas e passando a viver o dia-a-dia, a rotina, o lado bom e ruim como "quase nativos", faltando apenas o "chiado" típico do Carioca. Que pena que meu Pequeno não levará consigo o sotaque carioquêix, que eu acho muito maneiro.



Por quantas vezes, andando pelo bairro que escolhemos e que amamos - Botafogo - cruzei o meu olhar com o do Cristo. Ele lá em cima, se exibindo para quem quisesse vê-lo, todo poderoso, abençoando a cidade com seus braços bem abertos. Quantos papos mentais bati com Ele, quantas vezes reconheci a saudade antecipada que sentiria daquela paisagem, cruzar com Ele todos os dias e, vez que outra, quando alguma nuvem ousada atrapalhasse nosso contato, me resignava porque sabia que "Ele estava lá". Quantas vezes briguei com Ele, com raiva, porque dentro do meu desespero achava que Ele não estava nem aí pra mim, aquela mania que a gente tem de colocar a culpa no Universo por tudo de ruim que acontece. Quanta pena e raiva senti de mim  por não me permitir aceitar e viver de uma maneira mais leve tudo o de bom e lindo que tínhamos aqui. Se tem uma imagem que levarei pra sempre na minha retina e no meu coração é a Dele.



Não estou levando na mala mágoa, ressentimento ou tristeza. Pelo contrário. Eu fui tão feliz aqui, mas tão feliz que meu coração transborda de bons sentimentos sobretudo, o maior deles, gratidão. Aqui será sempre nossa segunda casa. Voltarei sempre ao Sul, óbvio,  porque lá tenho o que é mais valioso pra mim (minha família), mas sempre que der retornaremos ao Rio porque aqui é o nosso segundo lar, daqui meu filho levará as maiores lembranças de sua infância, daqui meu marido vai levar a experiência por ter vivido algo bem diferente do que estava acostumado: aqui ele não foi sugado pela rotina estressante de uma cidade caótica e pode participar de todos os momentos da vida do filho. Aqui eu fui livre, leve e solta (no bom sentido da palavra, mal pensados!). Morando fora, vez que outra precisava da ajuda do marido para algo, solucionar algum pepino, me levar para algum lugar, traduzir algo ... de alguma maneira, mais ou menos intensa, mais ou menos importante, era dependente dele. Aqui foi justamente o contrário. Eu assumi esse papel meio de superproteção, afinal, o gringo era ele. Só quem mora fora e passa por algum perrengue sabe o quão valioso é esse sentimento de "liberdade".



Eu não quero e não irei falar neste momento sobre o lado ruim (violência, corrupção, custo de vida elevado para pouco retorno, miséria, falta de oportunidade, etc, etc, etc) que, preciso ser sincera, também influenciou no momento de decidirmos ir embora, mas não foram os principais motivos. Decidimos ir embora por um cúmulo de situações, somados a esse espírito cigano que temos. Havia uma necessidade de mudar, somando isso a que estávamos quase acostumando a acordar com tiroteios, somando a questão financeira (cada vez mais pesado pagar escola, curso do Pequeno), cada vez mais difícil ir pra Europa uma vez por ano pra visitar minha sogra ... soma tudo e se chega ao resultado final: surgiu uma nova oportunidade ... Papai do Céu escutou nossos pedidos ... simbora outra vez! Mas, como disse, os motivos ruins não nos fazem ir embora tristes, amargurados, temerosos, raivosos ou decepcionados. Pelo contrário. Estou indo com o coração meio partido. Na verdade, ainda nem fui e, agora mesmo, neste exato momento em que vos escrevo, brotam dos meus olhos lágrimas que se misturam a sentimentos de tristeza mas também de alegria e agradecimento por tudo o que vivemos.




Chegamos cheios de expectativas que, muitas, não se concretizaram. Desejos que não realizamos. Planos que não foram como esperávamos. Mas sabíamos que tudo isso faria parte. Afinal, nem sempre as coisas são como desejamos. Por isso, sempre digo, precisamos sempre ter um plano A, B, C ... H ... quantos façam falta. Nossas experiências de vida nos ensinaram isso.


Tivemos uma vida leve, fizemos de nosso bairro nossa pequena cidade, nos acostumamos a andar de bermuda e camiseta quase todos os dias do ano e quando o termômetro marcava uns 20ºC sorríamos com o "frio" que o Pequeno sentia. Nosso menino tropical vai sofrer com o frio da Europa. E eu vou sofrer sem o boteco com a minha caipirinha preferida. O marido vai sofrer sem a caldereta de chopp. Não vai ter frango à passarinho, nem feijoada, nem a farofa com ovo que Pequeno tanto ama.



Mas, acho, o que mais sentiremos falta, será das pessoas mesmo. Essa simpatia carioca, essa coisa de bater papo na rua, de marcar encontros que nunca irão acontecer, mas a gente sempre acabava o papo com um "vamos marcar sim". A simpatia espontânea das pessoas no metrô. Das histórias repetidas centenas de vezes por minhas vizinhas senhorinhas idosas, todos os abraços, beijos e presentes que Pequeno recebeu delas.



Nossas últimas semanas foram de despedidas, muitas. E de muita gratidão. Tenho repetido muito esta palavra porque é a que melhor traduz o que sentimos. Gratidão por tudo o que vivemos, tudo o que conhecemos e por todas as pessoas que fizeram parte de nossa história de vida aqui. À todas, absolutamente todas, vai o nosso muito obrigado! Estamos vivendo coisas tão boas, sentimentos tão bons nessas últimas semanas que chegam a emocionar. Emocionaram até meu marido que "é duro na queda", mas até do olho dele rolou alguma que outra lágrima.



Cada amigo que fizemos, cada presente e demonstração de carinho que recebemos, cada desejo e promessa de que aqui voltaremos e seguiremos mantendo contato com nossos amigos nos faz ter a sensação de que realmente valeu à pena. Obrigado, Universo!

Por nossas experiências, nossas mudanças, nossa vida cigana, morando longe de nossos entes queridos, aprendemos que, muitas vezes, os amigos são parte da nossa família. Neles recorremos quando precisamos de ajuda, quando celebramos momentos importantes  ou até mesmo quando "não temos o que fazer". Tudo a gente divide com eles. Eu vou sentir muita falta das amizades que fizemos aqui. Minha vida de cigana também me ensinou que leva-se tempo para restabelecer elos de confiança.



Como pais, não podemos deixar de agradecer imensamente todo o carinho que nosso Pequeno recebeu. Absolutamente mérito dele, pelas amizades que fez, que construiu, que manteve.

Agora, pela primeira vez, ele vive a experiência de partir. Ele já mudou algumas vezes, mas é a primeira vez que ele vive o desapego (não fizemos mudança, tivemos que deixar pra trás muitas coisas - e diga-se de passagem, ele se saiu muito bem nisso), já está sentindo a dorzinha no coração por se despedir de amigos e vive na angústia do "novo", me perguntando a todo momento: "como será minha vida lá?". Eu sou bem sincera e respondo: "não sei!". E não sei mesmo. Não sei nem como será minha vida ... quanto mais a vida dos outros. Mas procuro transmitir pra ele o lado bom desse "friozinho na barriga", essa ansiedade boa pela descoberta do novo, de uma nova vida, um novo lugar, um novo idioma. Já estou preparada psicologicamente para as choradeiras dele, os dramas, as saudades, as faltas e os medos. Eu também terei meus momentos assim. Mas a gente sabe que vai dar tudo certo (ao menos isso é o que a gente espera!).

Daqui a pouco estamos partindo, com a vida em 9 malas e algumas mochilas. Talvez essa tenha sido a "pior" de nossas mudanças (ou vai ver, com a idade a gente vai cansando mesmo). Ainda teremos um longo caminho até encontrarmos casa e colocarmos a vida em ordem. Mas a gente respira fundo, pega fôlego e vai matando um leão por vez.

O de agora é dar conta de faturar toda essa bagagem, aguentar a dor no peito e as lágrimas dos olhos.



Faltou tempo para dedicar melhores parágrafos para esta despedida. Mas, o importante, o que queria mesmo, era deixar registrado aqui o meu MUITO OBRIGADA por tudo o que vivemos! Fui muito feliz nesta cidade, tão feliz que tamanho sentimento transborda do meu peito. Se voltasse atrás no tempo, escolheria morar aqui novamente.

Sobre o futuro? Ah, meu amigo ... só Ele sabe!


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Sobre Desapegos.

Estamos indo embora. Já começo assim pela notícia principal, sem suspenses nem enigmas. Até porque todas as pessoas próximas, creio, já sabem da "novidade".

Nosso tempo de validade no Rio de Janeiro chegou ao final. Mas sobre isso escreverei detalhadamente um pouco mais adiante. Ainda estou interagindo com a ideia e com toda a ambiguidade que ela representa.



Estamos em pleno furacão de uma mudança. Na verdade, mudança mesmo vai haver bem pouca. Estamos nos desfazendo de quase tudo o que temos: móveis, roupas, utensílios de casa, cama, mesa, banho e cacarecos afins. Tudo. E quando digo tudo é tudo mesmo. Vamos levar conosco o estritamente necessário ... e o estritamente necessário que couber em nossas malas.

Para muitas pessoas isso é uma pena. Queria poder gravar o olhar das pessoas quando começo a listar tudo o que irei deixar pra trás. Todo mundo faz a mesma cara: piedade. E logo mudam o semblante para estranheza, quando digo: "não se preocupa, não ... não estou sofrendo!". Na verdade, se sou bem sincera, dá até um alívio.

Minha mãe sofreu porque vendi a minha mesa. "Ai, que pena! Aquela tua mesa tão linda!". Era só uma mesa. Fez parte da nossa história. Aliás, foi minha primeira mesa, da minha primeira casa. Quando fomos embora de Madri para Roma a vendi. Em Roma caí na asneira de comprar a mesma mesa. Veio conosco de Roma para o Rio e agora se foi, para todo sempre. Prometi não comprar a mesma mesa novamente.

- "Mãe! Era "só" uma mesa. Sem sofrimento."

Ela me deu um puxão de orelhas via telefone e logo, finalizou a conversa dizendo que tinha certeza que numa outra vida devo de ter sido cigana.

Vai ver puxei a minha avó (materna). Lembro de umas histórias que minha mãe contava de que minha vó quando mais nova tentou fugir com ciganos. Genética fujona, só pode ser.

Mas, enfim ... tivemos que selecionar o que queremos e, dentro do que queremos, o que poderemos levar. Não deu pra ficar com tudo. E nessa função, incluí ao Pequeno. Foi preciso selecionar roupas, calçados, livros e brinquedos que seriam doados e os que levaria com ele para uma nova casa e uma nova vida.

E é com o coração cheio de orgulho e de felicidade (e alívio também) que digo que esta foi uma das melhores etapas. Ele não sofreu. Não se rebelou. Não chorou. Não se importou. Desapegou totalmente. Isso sim, analisou cada brinquedo, lembrou das brincadeiras feitas, de quem havia dado (ele lembra de quem e de quando ganhou cada coisa) e ciente de que aquele brinquedo seria útil e faria feliz a uma outra criança, foi separando tudo em suas devidas sacolas.

Influenciou positivamente o fato de que escolhemos duas amigas para efetuar as doações. Duas amigas queridas e que sabemos que darão um bom destino para tudo, com muito carinho e generosidade.

Alguns brinquedos especiais ele distribuiu para alguns amigos próximos. Escreveu cartinhas para dar junto com os brinquedos. Uma maneira que ele achou de deixar um pedacinho dele com os amigos. Me emocionei com a atitude dele e com as palavras sucintas mas cheias de significado que ele escreveu em cada cartinha.

E dentre os poucos objetos que ele ficou, um em especial chamou minha atenção pelo significado e pela importância:


Esse ursinho foi o nosso primeiro "presente" para Pequeno. No dia em que descobrimos o sexo do bebê que esperávamos, fomos até uma loja e compramos um par de meias azul e junto na embalagem vinha este urso.

Ele está velhinho, gasto, sujo ... mas não tem jeito. O urso foi de Madri para Roma. Lá mudou para duas casas conosco. Veio para o Rio, mudando novamente duas vezes. E agora, ao que tudo indica, tá indo pra Milão.

Não está sendo fácil encaixar tudo o que queremos levar dentro de caixas e malas. Enrolar objetos pessoais em jornais ou plástico bolha e ficar preocupado com a incerteza de se chegará inteiro ou não. 

Mas se tem uma coisa que tá bem difícil de encaixar é com a saudade que sentiremos de todas as pessoas que queremos bem. Ainda bem que o coração não cobra excesso de peso.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Mais uma vez ninho.

Não me considero uma pessoa supersticiosa.

Deixo bolsa no chão (dizem que afasta dinheiro), deixo sapato virado (dizem que atrai azar), passo sem nenhum problema por baixo de escada, adoro gatos pretos ... e sexta-feira 13, pra mim, é um dia bem legal. Isso sim: bato três vezes na madeira quando alguém me diz pra ter outro filho.

O fato é que crendices não me afetam tanto, apenas o suficiente para não me tornar escrava de ritos e manias. Acredito muito nas coisas que são para o bem. Se pular sete ondas no Ano Novo atrai sorte, vou lá e pulo. Mas cansei de passar Ano Novo na Europa de preto e não tive azar durante o ano. (mas "deuzolivre!" de passar Ano Novo com roupa preta aqui no Brasil ... sai pra lá!)

Porém, existem situações que eu gosto (e muito) de vê-las como sinais. Uno situações que já aconteceram com possibilidades que talvez-quem-sabe-pode-ser que aconteçam (talvez seja para meu autoconvencimento mesmo, reconheço).

Pois bem ... hoje escrevo sobre isso. Porque deu vontade e porque tive um desses déjà vus particulares, só meus. Quem me acompanha a bastante tempo talvez até lembre ... já já você vai entender. Senta aí. 

Na nossa última casa da Espanha (que foi a segunda casa - mudamos para um apartamento maior logo que fiquei grávida do Pequeno), de repente, apareceu um ninho em nossa janela. Morávamos no quinto andar, de um prédio todinho de tijolo à vista. Ao redor, naquela zona, haviam muitos parques, muitas zonas verdes e muitas árvores lindas. Porém, o passarinho resolveu fazer ninho ali na nossa janela. Nós o deixamos e o respeitamos. Vez que outra a gente dava uma bisbilhotada, escutava pequenos passarinhos barulhentos e víamos a mamãe (ou papai) sair vez que outra para buscar comida.

Quando fomos embora daquela casa, fiquei com muita raiva do moço da imobiliária que disse que "mandaria tirar aquele ninho" da janela. Nosso ninho. Havia virado até ponto de referência: nossa casa é aquela da janela que tem um ninho. Provavelmente foi pelos ares. Pessoas insensíveis.

Então, na Itália, na nossa segunda casa, tínhamos uma terraça (sacada). Minha paixão pela sacada foi amor à primeira vista. O apartamento em si não era lá grandes coisas (era bonzinho, mas pequeno), mas quando vi a sacada que tinha e, sobretudo, a vista que ela me proporcionava, quase me agarrei nas paredes implorando para que aquela fosse a minha casa. E foi. A nossa casa, por dois anos.

Pouco a pouco fomos arrumando a sacadinha, de maneira que se tornasse agradável. Compramos uma mesa legal onde fizemos algumas poucas refeições. Compramos flores que embelezavam a sacada na temporada de primavera/verão e que secavam e desapareciam na temporada de outono/inverno. Ali, inclusive, cultivei temperos e, pela primeira e última vez, fiz minha própria salsa al pesto (acabei com meu pé de manjericão, mas fiz - e ficou uma delícia!).

Um dos poucos objetos de decoração que comprei foi uma casinha pequena, de madeira e adornada com palha para enfeitar a parede.

Passado algum tempo, descobri que aquela casinha havia sido escolhida por algum passarinho para ser o abrigo do seu ninho. Levei um susto quando um dia, parada ao lado da casinha, vejo um passarinho bem na porta dela, piando desafiador. Juro que até fiquei com medo do passarinho!

Com o tempo, descobri que ali havia um ninho com uns 3 passarinhos pequeníssimos. Entendi a brabeza do passarinho e evitava ao máximo chegar perto da casa. Só bisbilhotava quando ele (ou ela) saía para buscar alimento (e quase sempre nem precisava ir muito longe. O tirava de minhas floreiras mesmo). Fiquei emocionada. Na minha sacada e na minha casa havia vida, amor e dedicação. (eu sou sensível, do tipo que até chora por conta disso ... fazer o quê?!).





Quando fizemos nossa mudança, não trouxe a casinha. Ela ficou lá na sacada. Ali era o lugar dela. A deixei com a esperança de que os novos inquilinos a preservassem e respeitassem. Quem sabe para uma próxima ninhada o passarinho resolvesse fazer ninho ali de novo e levasse encantamento para o casalzinho de idosos que estava indo morar ali?

Então viemos para o Rio de Janeiro. Passaram-se os anos e estamos na nossa segunda casa.

Em frente a minha casa existe uma árvore grande. Um pé de manga que não tá dando mais tanto fruto. Cortaram a árvore de uma maneira estranha (podaram somente a parte dos galhos internos ao edifício) e acho que foi por isso que ela ficou "triste" e resolveu não dar mais frutos. Mas ela segue grande, verde e, vez que outra, nela recebo visitas. Já apareceram tucanos e passarinhos de variedades mil. Muitos cantam tão lindo que até me emocionam (sou sensível, falei!). Um em especial encanta meu coração. Já até gravei um áudio dele no meu celular, só para ouvi-lo quando der vontade.



Tudo bem que da árvore também vem sujeira em dia de vento e, dependendo da temporada, aparecem bichinhos que, segundo o Google são "carrapatos de árvore" (se criam em pequenos ovinhos, logo nascem todos juntos - são uns 6/8 bichinhos ao mesmo tempo - e não vivem muito tempo). Reconheço que não sou tão bondosa assim com eles: os mato, logo, de imediato. E quando os pego ainda em ovinhos, boto fogo na bicharada e eles estalam feito bombinha de São João. (desculpa, Papai do Céu!).

Então, dia desses, enquanto organizava o quarto do Pequeno algo me chamou a atenção naquela árvore (a árvore dá para a sala e para o quarto dele). Me aproximei da janela e vi um ninho. Provavelmente vários ninhos devem de ter surgido ali durante todo o tempo que moramos neste apartamento (uns 4 anos), mas aquele me chamou a atenção especialmente. Era grande, lindo, bem organizado e muito próximo da janela do quarto.

Naquele mesmo instante veio um flash back dos outros ninhos (e das outras casas) e todo o significado especial que esta história tem pra mim.

Sempre na segunda casa. Sempre um ninho.

Alguns dias depois ele sumiu. Não sei se foi o vento que o derrubou, se os passarinhos debandaram. Mas eu o vi. Ele estava ali.

Eu não sou nada supersticiosa. Mas eu amo, prezo e respeito esses sinais que a vida me dá.


Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho, 
Eles passarão… 
Eu passarinho! 
Mario Quintana )

P.S.: quem ainda não leu a história dos outros ninhos, basta clicar aqui e aqui

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Das coisas que "eu tenho que aguentar": Pequenices.

Pequeno ficou dias fazendo contagem regressiva: "faltam "X" dias para o meu aniversário". Ele sempre amou fazer aniversário, sempre ficou ansioso, cheio de planos, desejos e pedidos de presente. Mas, neste ano, ele se superou. Não pelo pedido de presente (que foi bem simplesinho), nem pelos planos e sim pela ansiedade mesmo.

- "Pra quê tanta ansiedade, menino?"

- "Mãe! Eu vou abandonar a minha infância e vou entrar na adolescência."

Quem foi que falou isso pra ele?

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No dia seguinte ao aniversário, acordou triste:

- "Mãe! Que coisa!"

- "Que foi, filho?"

- "Tô decepcionado."

- " Por quê?"

- "Mãe! Segue tudo exatamente igual há quando eu tinha 10 anos ..."

Mal sabe ele que vai chegar um dia em que vai dormir com 20 anos e, quando perceber, vai estar com 40 ... e não vai seguir tudo igual. Não vai mesmo.

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Ele sabe que 'entrar na adolescência' também significa entrar na puberdade (aprendeu na matéria de Ciências e o que não havia aprendido em sala de aula a sua pediatra se encarregou de explicar).

Assim que, de vez em quando, tenho que aguentar coisas do tipo:

- "Manhê! Olha aí se tem pelinho no meu sovaco!"

- "Sai fora, guri! Não vou ficar olhando o sovaco de ninguém."

- "Mãe, olha aí ... já deve de ter porque já tô chegando na puberdade ..."

Mereço.

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Contei pra ele, de brincadeira, que só abandonaria o pai dele por um único homem nesse mundo: George Clooney. Paixão antiga, assim como a que tinha pelo Rick Martin. Mas, o Rick saiu da lista e só ficou o George.

Pequeno, desconfiado e ciumento, fez cara de "nem tô dando bola", mas ficou se remoendo e insistindo: "tá brincando, tá brincando, tá brincando".

- "Tá bom! Então reza pra eu nunca cruzar com ele, senão ..."

Passaram-se alguns dias, de repente, ele me pergunta:

- "Manhê! Aquela história de que tu abandonaria meu pai pra ficar com aquele ator velho do café, era brincadeira, né?! Eu sei que tu jamais faria isso ..."

- "Ah, garoto ... nunca diga nunca."

- "Ow, manhêeeee ... faça-me o favor! Tu iria gostar se meu pai te abandonasse pela 'não sei o que Clooney'? Era brincadeira, né mãe?!"

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Ele aparece do nada e me diz:

- "A senhora está sempre bonita!"

Vendo que fiquei sem palavras, segue:

- "Eu tô falando 'senhora' no sentido de 'mulher casada', não 'senhora' no sentido de 'mulher idosa', tá?

Ufa!

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Vendo uma reportagem sobre os 70 anos da Coréia do Norte, Pequeno exclama perplexo:

- "Como assim, Coréia do Norte fazendo 70 anos? Eu já sabia que meu avô era mais velho que muita gente, mas agora descubro que ele é mais velho que um país? Uau!"

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Quando junta os genes gaúchos tricolores com os italianos, dá nisso:




terça-feira, 4 de setembro de 2018

Feliz Aniversário, nosso menino!

Então chegou o dia mais esperado. Você sempre gostou de fazer aniversário, sempre fez contagem regressiva, planos, pedidos e desejos - inclusive de presentes e de onde celebrar. Mas neste ano sua ansiedade parecia não ter fim. Tinha uma certa pitada de nostalgia misturada com um punhado de expectativa.

Nem foi tanta ansiedade por conta do presente. Neste ano você foi bem "bonzinho" com nosso bolso. Generoso, seria o adjetivo correto. Também nem teve muitos planos de comemoração: quem sabe, se desse, comer um hamburguersinho no seu restaurante preferido. O que importava realmente era que seu dia chegasse. E ele chegou. Finalmente chegou  a tão esperada pré-adolescência.

Há dias tenho lhe ouvido dizer coisas do tipo: "que saudade sentirei de minha infância!" ou   "a etapa mais feliz de minha vida".

Também fui quase obrigada a escutar coisas do tipo:

- "Olha aqui no meu sovaco, vê se tá crescendo cabelinho.  Sou pré-adolescente, ué?!"

Quem te conhece sabe que esse tipo de coisa é típico seu.

Você é uma figura, meu filho! E que bom que você, apesar da fase típica de vergonhas dessa idade, ainda mantém esse seu jeito leve, simples, sarcástico e alegre de viver o dia-a-dia.

Feliz Aniversário, meu filho!

Hoje meu coração se enche de orgulho, de alegria, de felicidade, de agradecimento e de desejos. Muitos desejos. Os melhores desejos.

Que você siga sendo esse menino que esbanja alegria, felicidade, bom humor. Que mantenha sempre esse seu sarcasmo peculiar, sua malemolência para lidar com minhas fúrias. Só você sabe como tirar um sorriso de meu rosto, mesmo quando ele está meio carrancudo.

Que seu coração siga sendo bondoso, amoroso. Que o perdão siga fazendo parte de sua vida. Que você siga refletindo sobre sua existência, sua história e seu futuro como só você sabe fazer. Quanto aprendemos sobre a Vida com você!

Que seus olhinhos sigam transmitindo olhares cheios de amor e afeto e que eu consiga lhe dar todos os motivos para que sua boca siga pronunciando as palavras mais importantes para mim: "você é a melhor mãe do mundo".

Que você siga perdoando e esquecendo nossas grandes broncas e que elas sejam infinitamente menores do que nossos momentos de felicidade e farra plenas. Que a gente siga tendo idéias malucas de fantasias, que a gente siga dançando pela casa em nossas festas particulares, que nossas refeições sigam sendo acompanhadas de boas conversas, boas histórias e muitas gargalhadas.

Que Papai do Céu te abençoe com muita saúde para que possas realizar todos os teus planos, sonhos e desejos. Seja ser jogador de futebol, militar, geólogo, artista ou seja lá o que você quiser ser. Para mim e para seu pai o que de verdade vai importar é que você seja feliz, independentemente de qual caminho você desejar escolher.

Que sua vida seja repleta de pessoas do bem, muitos amigos e que jamais se esqueça de que suas famílias, a do Brasil e da Itália, serão sempre seu porto seguro e o principal ponto de referência para quando, se preciso, você tenha ciência de onde veio e de quem você realmente é.

Que o amor, a vontade, o bom propósito sejam sempre seus guias e que nos momentos de dificuldade (acredite, existirá coisa bem pior do que tirar nota baixa na escola ...) você seja persistente e lute, lute muito, buscando o seu objetivo. Lembre-se que resultados ruins ou, ao menos, não previstos, fazem parte da vida da gente. Mas precisamos persistir.

E como diz uma parte de uma música que ultimamente andamos escutando muito - e que você faz sempre questão de frisar essa parte - tenha certeza de que:


"If you do it right, you'll love where you are

Just know, wherever you go
You can always come home"

                                (93 Million Milles, Jason Mraz)



Sinceramente espero que esse "cabelinho do sovaco" demore um pouco para crescer. Você já terá tempo para se preocupar com ele. Por enquanto, aproveite cada segundo da sua linda idade. Não sinta vergonha de correr na rua, brincar de coisas "de criança" e nem tente parecer um menino jovem. Cada coisa tem seu tempo e cada fase tem sua beleza. Se tem algo que você não precisa ter agora é pressa.

Parabéns, meu menino!

Que você tenha a certeza de que sempre, sempre mesmo, eu e seu pai te amaremos gigante, um amor imenso, enorme, do tamanho do Universo.

Feliz 11 anos!