quinta-feira, 29 de junho de 2017

Pequenices ... never end.

- "Já decidi! Eu quero ser Tenente quando eu crescer."

- "Pensa alto, menino! Que Tenente, o quê! Tem que pensar, no mínimo, em ser General."

- "Mãe! Ninguém começa sendo General ... pra ser General, primeiro tem que ser Tenente."

Bofetada bem dada na minha cara.

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- "Tava pensando aqui num lugar pra gente ir agora nas férias, quando estivermos na Itália."

- "Hummmm ..."

- "Sabe aquele país?"

- "Difícil, hein?!"

- "Aquele país, tranquilo, onde tudo é perfeito ... fica na Europa mesmo."

- "Ixi ... não sei não ..."

- "Suiça, lembrei. Quero ir na Suiça."

Então tá, né?!

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- "Na noite passada eu sonhei que tinha ido te visitar no hospital. Cheguei lá com o pai, todo assustado, perguntei o que tinha acontecido, se tu tava bem, eu não tava entendendo nada. Daí, tu me olhou com uma cara toda sorridente e disse: "olha pro lado, filho". Então, ali do teu lado,  tava a coisa mais linda do mundo: meu irmãozinho. Pena que foi só um sonho, né?"

- "."

- "E sabe o que mais?"

- "Hummm?"

- "O pai gastou um dinheirão de Uber. Porque o hospital era bem longe."

Uber até nos sonhos ...

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Concurso literário na escola. Eles precisavam inventar um pseudônimo. Depois de tanto pensar, pensar e pensar, ele escolheu o pseudônimo de: "Churrasco Vermelho".

- "Nicola! Que coisa mais feia. Tanto nome pra inventar e escolher, foi logo esse?"

- "Ai, mãe!"

- "Gente! Não tem nada a ver ..."

- "Mãe! Tem sim. Eu sou meio gaúcho ... assim ... não de nascimento, mas minha família é gaúcha ... então eu também sou. Gaúcho gosta de churrasco."

- "Ah, Nicola, faça-me o favor  ..."

- "Mãe, carne é vermelha ... churrasco mal passado ... Churrasco Vermelho. Eu gostei. Tem tudo a ver ..."

O médico disse pra não contrariar ...



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Lembrança das Boas.

De vez em quando recebo notificações no celular relembrando fotos que publiquei em algum lugar da Internet há algum tempo.

Estava esperando Pequeno no curso de Inglês quando recebi uma notificação para relembrar fotos de 31 de maio de 2009.

Há 8 anos, estávamos na região da Toscana curtindo umas férias em família. Pequeno, com menos de dois aninhos, naquela fasezinha boa, engraçadinha. Apareceu até uma foto nossa no momento da amamentação  (ele ainda mamava no peito naquela época). Me deu até saudade. Lembro que nessa fase já estava exausta de dar o peito a ele, mas senti saudades daquele momento só nosso.

Mas entre tantas fotos de um momento especial, fotos de paisagens lindas, fotos do Pequeno correndo por Florença ou do marido "mochilando" com uma mamadeira aparente na mochila, duas fotos me emocionaram em especial, pela lembrança e pela história.

Estávamos em Florença, passeando próximos à Piazza Della Signoria indo em direção à Ponte Vecchio. Naquela região,  além de muitos vendedores ambulantes (sobretudo de bolsas), ficam também artistas de rua, desenhistas e caricaturistas.

Então,  marido lembrou de alguns muitos anos atrás,  da época em que ele prestava serviço militar. Lembrou que num dia de folga foi passear em Florença  (Firenze pra ele). Marido gosta de desenhar e, disse, ficou um tempão observando os desenhistas e caricaturistas trabalhando. Um em especial chamou sua atenção. Lembrava até do nome dele: Marcello. Disse que ficou com vontade de que Marcello fizesse um desenho seu. Mas, na época,  não tinha dinheiro para pagá-lo. Relembrando esses momentos de outrora disse, então,  que se reencontrasse com ele, pediria para que fizesse um desenho do seu filho,  nosso Pequeno.

Calculando assim pelo alto, havia passado uns 18/19 anos daquele primeiro encontro com o Marcello.

Estávamos ali passeando ... sabe como é turista, tem tempo de sobra ... por que não dar uma olhada ao redor? E se o Marcello seguisse ali encantando mais pessoas com sua arte?

Não precisamos rodar muito. E não é que encontramos o Marcello? Para emoção nossa.





Pequeno se divertiu enquanto Marcello desenhava seus traços.  Papai realizava um sonho. E eu me emocionei pra caramba. Visualizei meu marido jovenzinho, sentado ali pelo chão, admirando o trabalho do artista, sonhando em ter seu rosto desenhado, mas sem grana pra realizar o sonho. Anos depois estávamos ali, nós três. Eu tentando acalmar ao Pequeno para que ficasse quieto e, assim, Marcello pudesse realizar o seu trabalho. Marido realizado, vendo que pouco a pouco, naqueles traços bem feitos do artista, aparecia o rostinho do seu filhote.

Um desses momentos que a gente não esquece nunca. E, se esquece, tem um bendito de um aplicativo que chega assim do nada e toca fundo na lembrança guardada à sete chaves.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Pequenices ... sempre elas.

- "Ow, mãe! Sobe essa corda aqui que eu não consigo", disse ele, querendo subir o varal de teto. Realmente ele não alcançava. A "cordinha" para puxar estava no alto, distante uns 60cm das pequenas mãozinhas dele.

Bem maldosa que sou, disse:

- "Sai daí, nanico! Isso não é tarefa pra gente do teu tamanho."

Ele, mais maldoso ainda, responde:

- "Óbvio, né?! Sou teu filho e filho do pai. Minha textura é de gente baixa mesmo."

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Meu Pequeno hipocondríaco estava com dor de cabeça. Não estava com febre. Havia um nariz fungando o que, na minha previsão, se trataria de uma gripezinha chegando. Então, ele me pediu um remédio pra dor de cabeça.

- "Não tem remédio só pra dor de cabeça."

- "Não?", perguntou surpreso.

- "Não."

- "Gente! Que casa é essa que não tem remédio só pra dor de cabeça?"

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Assistíamos a tv. Passava uma reportagem sobre depressão. Ele, então, me diz:

- "Mãe! Olha só! Não é o meu caso, não precisa te preocupar. Mas, me diz uma coisa. Criança tem depressão?"

- "Pode ter sim, filho."

Silêncio.

Então, perguntei:

- "Por que tu quer saber?"

- "Nada, não. Assim ... não sei ... é que se um dia acontecer do meu vô morrer, acho que eu vou entrar em depressão."

Então, tive que explicar pra ele a diferença entre ficar triste e entrar em depressão.

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Revisando os deveres, vi que ele separou a palavra "característica" de forma errada. Ele havia separado "ca-ra-cte-rís-ti-ca". Então, enfatizei o som da palavra, e fiquei falando repetidamente "carac - carac - carac".

Saí do quarto e ele, logo, começou a cantar:

- "Caraca, muleque ... caraca, muleque, caraca muleque que dia, que é isso, põe um pagodinho, só pra relaxar ... carac, carac, carac muleque ..."

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A dor de cabeça seguiu. Apareceu, também, uma febrezinha. Havíamos acordado cedo para ir pro curso de Inglês, mas achei melhor deixá-lo em casa.

Então, ele pediu se podia ficar no sofá assistindo tv. Disse que, talvez, não fosse uma boa idéia, já que ele estava com dor de cabeça. Era melhor ficar em silêncio, tranquilinho, relaxado.

- "Tenho uma idéia pra tv não me dar mais dor de cabeça. Fica tranquila, mãe."

Quando voltei de preparar o café na cozinha, encontro a criatura assistindo tv  assim:


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Mas eu Me Mordo de Ciúmes.

Voltávamos do curso de Inglês do Pequeno. Como sempre, ele cheio de assunto, falando pelos cotovelos, contando mil e uma histórias (ele sempre tem assunto pra caramba!).

Em determinado momento do nosso trajeto, cruzamos com um personal trainer que trabalha na academia onde malho.

- "Oi! Tudo bem?"

- "Oi! Tudo tranquilo."

Uma saudação normal e rápida, como acontece quando encontramos alguém conhecido pela rua.

Senti, então, que a mão do Pequeno apertou bem forte a minha. Olhei para o lado e ele estava vermelho, quase roxo, com uma cara que misturava encabulamento, vergonha e raiva, tudo assim misturado, e brotavam tímidas lágrimas dos seus olhinhos.

- "O que foi, filho?", perguntei um pouco assustada.

Inclusive olhei para trás para ver se ele havia pisado em algo, sei lá, demorei para entender o que havia acontecido. Até que minha ficha caiu: ele havia ficado com ciúmes por ter cumprimentado o moço.

- "Nicola?"

Ele, então, parou de caminhar, me abraçou e começou a chorar.

Confesso que meu primeiro pensamento foi achar a coisa mais amada do mundo aquele ciúmes ingênuo e espontâneo. Mas, logo, o sentimento de "mãe que precisa educar e levar para o futuro um ser humano bom e melhor" falou mais alto do que meu ego. Aproveitei que já havíamos parado de caminhar e conversei com ele.

Perguntei por que daquela reação, já que havia simplesmente dado 'oi'  para uma pessoa conhecida. Ele respondeu que ele não conhecia aquele homem. Expliquei, então, que ele não conhece e nem tem porque conhecer todas as pessoas que eu conheço, assim como quando ando pela rua e as pessoas o cumprimentam e eu nem sei quem são.

Expliquei que não havia nenhum motivo para aquele choro. Ele disse que era "algo" que ele estava sentindo e que, embora tivesse tentado controlar, não deu.

Disse, então, que não era legal ser uma pessoa ciumenta. Que é muito fácil do ciúmes possessivo e excessivo passar a ser algo ruim e doentio. Expliquei pra ele que por ciúmes, ele poderia perder amigos, criar situações constrangedoras sem necessidade e, que quando crescesse e tivesse ciúmes de uma namorada, por exemplo, não seria algo legal, que provavelmente ele ficaria sozinho. Disse até - porque gosto de explicar as coisas muito claramente - que existiam casais que brigavam feio por ciúmes e que existem casos aonde um companheiro mata ao outro por ciúmes, por posse, por obsessão.

Falei que não é legal sentir ciúmes assim dessa maneira. Até porque, nunca ninguém iria me "roubar dele": mãe, pai, filho, filha, são para toda uma vida. Mas, pode acontecer de casais se separarem, pelo motivo que seja. Pode existir ex namorado, ex marido, ex mulher ... mas não existe ex filho. Ele disse, então, que sabia que eu e o pai dele nunca seríamos ex um do outro.

Dar 'oi' para um homem conhecido era apenas um ato de educação e tratava-se exatamente da mesma coisa que dar 'oi' para uma mulher conhecida. Só isso. Mais nada.

- "Hoje pela manhã falei com a vizinha. Tu ficou com ciúmes dela?"

- "Não."

 - "Pois, então ... é a mesma situação, com pessoas conhecidas de diferentes lugares. Só isso."

Ele disse que havia entendido. Eu também entendo a reação dele. Não contei pra ele que quando era pequena morria de ciúmes do meu pai. Que havia uma amiga dos meus pais, em especial, que me tirava do sério, a Nelma. Não podia ver a Nelma que saía dando chutes nas canelas da mulher (garanto que você está pensando: Pequeno tem a quem puxar! Pois é ...). Não contei pra ele  que morria de raiva quando meu pai falava com alguma mulher pela rua. Não contei. Não menti. Só omiti. Preciso educar um ser humano melhor, lembram? Quase que um mantra.

Quando o pai dele ligou, contei a história e logo ele pediu para conversar com Pequeno. Provavelmente meu marido - que não é nada, nadica, ciumento - deve de ter iniciado um discurso também, pois logo Pequeno respondeu:

- "Já sei disso. A mãe já conversou comigo."

Agora pra vocês eu vou contar uma coisa: achei sim a coisa mais amada do mundo o ciúmes dele por mim. Me senti toda-toda. Poxa! Nunca ninguém sentiu ciúmes por mim ... deixa eu aproveitar. Mas, ó ... isso só cá entre em nós. Que Pequeno não nos leia.

sábado, 13 de maio de 2017

Quem tem superpoderes?

- "Manhê! Eu não tô achando o meu perfume.", gritou ele do banheiro.

O perfume estava lá, dentro do armário. Eu sabia que estava lá.

- "Procura que tu acha!", disse da sala.

Algum tempo depois, ele grita já estressado que iria se atrasar pro passeio da escola:

- "Manhê! Ele sumiu!"

Então disse aquela frase clichê que 98,9% das mães dizem alguma vez na vida:

- "Se eu for aí e achar esse negócio ..."

Cheguei no banheiro, me agachei diante do armário e a primeira coisa que apareceu na frente do meu olho foi ... o perfume.

Ele arregalou um olhão e disse:

- "Nossa! Isso não é possível! Tu tem que ter superpoderes ..."

Elementar, caro Pequeno Nicola. Todas as mães nascem com superpoderes. Elas fazem aparecer coisas assim do nada, aliviam dores, descobrem segredos, fazem premonições como ninguém. Dizem, até, que tem algumas que são meio bruxas. É.

A minha era e é assim também.

- "Se eu achar a tua meia branca com bolinha lilás dentro da gaveta vou esfregar ela na tua cara!", dizia assim "carinhosamente".

E era só ela entrar no meu quarto que ... pimba! A meia branca com bolinha lilás parecia saltar da gaveta direto nas mãos dela.

A melhor e mais poderosa água com açúcar era dela. Aliviava dor de cabeça, dor de barriga e dor de mentira.

- "Que houve que tu tá com essa cara? O quê tu tá escondendo Tatiana?"

Como ela descobria, eu não sei. Bom, hoje eu sei:  ela jogava verde pra colher maduro. O mesmo que faço hoje brilhantemente com meu Pequeno.

- "Não te mete com essa guria que ela não presta!"

Eu ficava de mal com ela (com a mãe, não com a guria). A achava a pessoa mais implicante do mundo. Na verdade, a achava "um saco". Mas a mãe segue até hoje ... e a guria, no final das contas, não prestava mesmo.

Óbvio que as mães, como qualquer ser humano, não estão isentas de erros, alguns até graves. Aliás, estão sempre errando. Mas a desculpa é boa: erram tentando acertar. Vai entender esses seres complicados!

Já fiquei de coração partido por ter castigado meu Pequeno. Já fiquei esperando ele cair no sono profundo pra passar pelo quarto e dar um beijo de boa noite. Sofro demais fazendo papel de durona. Já me equivoquei algumas vezes com ele. Em algumas pedi desculpas, em outras não fui capaz.

Me peguei inúmeras vezes dando as mesmas desculpas esfarrapadas que recebi. Contando histórias sem sentido só pra assustar (tipo, cuidado com o velho do saco, não conversa com estranhos - coisa bem difícil do Pequeno obedecer - não pega doce de ninguém na rua que pode estar envenenado, não toma leite com manga, não come melancia de noite). Enfim ... essas neuroses de mães.

Já me peguei respondendo "porque sim", "porque não", "porque eu quem tô dizendo". Na minha versão de filha detestava essas respostas sem sentido. Mas na minha versão mãe elas me economizam várias explicações que não sou capaz de dar.

Lembrando de todos os momentos difíceis de discussões, implicâncias e diferenças que tive com minha mãe na minha fase de adolescente, me dá um medo antecipado que não cabe dentro do meu peito (exagero de mãe, sabe como é!) só de pensar que a adolescência do Pequeno está logo ali na esquina.

Lembro das vezes em que discutíamos porque chegava das festas de madrugada e ela estava lá acordada. Eu achava um saco aquele controle. Aonde já se viu a pessoa fazer questão de ficar acordada só pra torrar a paciência? Hoje eu sei que ela não fazia questão ... é que de preocupação ela não dormia mesmo. Não quero nem pensar quando chegar a época do meu Pequeno sair por aí com os amigos.

Até hoje eu não sei mentir pra minha mãe. Não dá. Não consigo. É mais forte do que eu. Mesmo morando longe, as vezes quando não estou bem (doente ou com problemas da vida mesmo) prefiro nem ligar, porque a primeira pergunta que ela sempre me faz é : "Como é que tu tá?". E se eu não estou bem e digo que estou, mesmo via telefone, dá um nó na garganta. Pequeno, por enquanto, é assim também. Ele não sabe mentir. E não sabe nem disfarçar, tadinho.

Hoje, dia 13, véspera de Dia das Mães, faz 4 anos que minha mãe operou o coração. Um momento difícil, complicado. O momento aonde mais tive medo, onde ficou bem claro pra mim que  a vida é um sopro. Que de repente tudo pode escorrer pelas mãos.

Hoje, para ela e para nós, restam algumas histórias que viraram anedótadas mas que no dia foram difíceis de suportar. Meu irmão, todo durão, dando mil e uma recomendações para minha irmã e pra mim, exigindo que fôssemos fortes, caiu em lágrimas feito criança (o beicinho de choro mais fofo que vi em toda minha vida!). A angústia na sala de espera e,  quando percebi,  estava na capelinha do hospital chorando rios de lágrimas e rezando com uma fé que não sei de onde saiu (na verdade sei sim!). Minha mãe dando ataque de histerismo na UTI, queria os óculos, queria sair dali, não aguentava mais o apito das máquinas. A irritação dela por precisar receber sangue. A força e a resistência que ela teve. Sempre a achei forte, guerreira, mais até do que ela mesmo acreditasse, mas vendo-a ali, literalmente de peito aberto, me fez ter mais orgulho ainda (se cabia) da minha mãe. Ainda hoje a vejo superpoderosa. Eu não sei se numa situação parecida conseguirei dar conta do recado tão bem quanto ela deu.

Eu e ela já percorremos um caminho de vida enorme. Tomara que eu consiga trilhar esse mesmo caminho com o meu Pequeno e que ele sinta por mim todas as coisas boas que eu sinto pela minha mãe.

Eu bem que queria ter superpoderes sim. Queria poder aliviar dores, sanar problemas, desviar caminhos tortuosos, apagar momentos difíceis, desaparecer com falsos e invejosos que cruzassem o caminho dele. Mas, infelizmente não dá. Por enquanto, só consigo fazer aparecer perfumes dentro dos armários. Aprendi com minha mãe, que fazia surgir meias brancas com bolinhas lilás de dentro das gavetas.