Quarentena de quantos dias?

Na primeira semana foi aquela sensação de feriado prolongado. Não imaginávamos o que viria pela frente e achávamos que "logo" tudo voltaria ao normal. Foi a semana do pijama, de longas horas no sofá, de curtir a casa como se todos os dias fossem domingo. A real expressão do "não tínhamos noção" era praticada diariamente.

Não que estivéssemos alienados do mundo. Mas dentro daquele egoísmo natural do ser humano, quando assistíamos pela tv toda a situação da China lá em janeiro, a gente até que ficava impressionado, parecia algo surreal e por vezes um exagero. Mas logo virávamos as costas e nossa vida por aqui seguia igual.

Quando chegou a nossa vez, a sensação do primeiro instante foi incredulidade. Aquilo não poderia estar acontecendo aqui  conosco, bem debaixo dos nossos olhos.

As aulas do Pequeno não retornaram logo após o feriado de carnaval (iniciamos a quarentena no dia 24 de fevereiro). O marido passou a trabalhar desde casa. Tivemos que habilitar no que até então era o famoso "quarto da bagunça" um escritório meio improvisado. As aulas do meu curso também não retornaram. Não deu pra fazer a sobrancelha na sexta-feira e o café com a amiga ficaria para a semana seguinte.

E a semana seguinte chegou, a segunda semana da quarentena. Preciso reconhecer que até achava  engraçado ouvir o povo falar de quarentena que, em teoria, seria de 14 dias.

- "Pfuuu, quarentena de 14 dias ... não seriam 40?", insistia em questionar de maneira irônica.

Nessas alturas os supermercados, que haviam ficado quase vazios, já estavam repostos.

Começou a bater o cansaço de ficar em casa. Apesar de ter todo o tempo do mundo para fazer todas aquelas coisas que a gente não faz justamente por falta dele, desapareceu a vontade de ler, de assistir filmes. Limpar a casa todos os dias passou a ser quase como uma penitência.

São Pedro resolveu sacanear e passou a mandar dias lindos de quase primavera aqui pra gente. Algumas pessoas insistiam em sair pra rua e muitas vezes me perguntei porquê não saia de casa também. Mas os noticiários nos lembravam que justamente a região onde moramos (Lombardia) era a mais atingida,  onde os números de contágios se multiplicavam e o número de mortes começava a assustar.

Foi nessa semana que me inscrevi em alguns cursos online, pra fazer o tempo passar ou tentar aproveitá-lo da melhor maneira possível. A sensação de "estar perdendo tempo" era evidente.

Começou a me dar agonia usar pijama todo o dia ou no máximo a 'roupa velha de ficar por casa',  mas a verdade é que tinha zero vontade de me arrumar. Pra quê?

Marido já tinha um ritmo absurdo de trabalho, quase não nos cruzávamos por casa durante o dia. Pequeno passou a ter aulas online e os professores exageraram na quantidade de deveres.

Minha sobrancelha (que já estava grande desde a outra semana) começou a me irritar. Pra ajudar, o bigode também resolveu aparecer, se contrapondo aos fios de cabelos que iniciaram a cair mais do que o normal. O estresse começava a causar danos aparentes e eu era consciente disso.

No final dessa semana mais do que o cansaço físico, começou a bater o cansaço mental.

E então chegamos na terceira semana. Eu diria que foi a semana em que a ficha realmente caiu. Onde nos demos conta do real nível de problema que estávamos enfrentando. Já não era mais uma tragédia do outro continente vista desde a comodidade dos nossos sofás. O sofá seguia o mesmo, só que agora era tudo bem diante dos nossos olhos.

O vai e vem de ambulâncias passou a dar agonia. Os contágios saltaram absurdamente, o número de mortes já era impressionante e agora, além da nossa região, toda Itália estava em quarentena (a nossa já havia passado dos 14 dias). Aquelas mesmas pessoas que diziam que era para mantermos a calma, que aparentemente estavam atuando com cautela e que tinham controle da situação basicamente entoaram um "deu ruim" e mudaram de planos.

Foi nessa semana que saímos da nuvenzinha do egoísmo e nos demos conta de que não estávamos nem blindados e nem imunes e o que era  pior: os nossos também não. A imagem que chocou o mundo inteiro com os caminhões do exército levando corpos da cidade de Bergamo para serem cremados em outras cidades (porque já não tinha mais lugar pra tanto morto) estava acontecendo a 30 km da minha casa.

Descobrimos que aquela história de "grupo de risco" era balela. Descobrimos que jovens e pessoas sem outros tipos de patologias também estavam não somente ficando doentes mas, inclusive,  morrendo. E foi aí que me bateu o desespero.

E se acontecesse algo comigo? Ou com meu marido? Ou com nós dois? O que seria do meu filho? A família do meu marido, que mora a uns 700km daqui onde moramos também estava isolada. A minha família estava no Brasil. O que esse menino faria sozinho?

Foi nessa semana que vimos alguns depoimentos de médicos que basicamente diziam que estavam enfrentando, talvez, o pior momento profissional e pessoal de suas vidas. Que a morte por essa doença era a pior de todas. Primeiro porque ela é sofrida, porque falta ar e alguns até choravam enquanto lembravam dos olhares dos pacientes ao partirem. Segundo porque as vítimas partem em total solidão e mesmo depois de partir as famílias não tinham o direito do último adeus. Médicos com 25, 30 anos de experiência, que trataram SARS, ebola, abaixavam a cabeça resignados. Pois a questão não era somente ter leitos disponíveis para a população doente (isso tinha). A questão é que começavam a faltar bombas de oxigênio (no melhor dos casos) e respiradores mecânicos (no pior deles).

Foi nessa semana também que passei a ter dores no peito, passei a sentir uma agonia gigante que eu ainda nem consigo explicar. Fiz um esforço para tirar o pijama e colocar "roupa de sair" para ficar em casa. Fazia esse esforço também para aparentar calma, tranquilidade e normalidade todas as manhãs quando minha mãe me ligava. Aliás, levantar da cama todas as manhãs tinha um sentido justamente por isso: esperá-la para a video chamada sem o rosto estar inchado, respirar fundo um segundo antes de conectar, colocar um sorriso no rosto e tentar fazer de conta de que tudo estava bem.

Na quarta semana eu já não tinha mais azulejo para limpar nem gaveta para organizar. Também não tinha mais paciência para seguir com os cursos online. Descobri que ter todo o tempo do mundo não era assim tão bom. Começou a faltar imaginação para os menús diários.  Comecei a acumular louças na pia e  perder a noção do tempo sem saber direito que dia da semana era assustou um pouco.

Numa das noites dessa semana sonhei que estava caminhando na rua. Aqui no centro de Monza, fazendo o caminho de volta pra casa desde o pub que sempre vamos. A rua estava linda, cheia de flores e de gente caminhando pra lá e pra cá. Acordei com pena de mim. Eu há muito tempo havia perdido a liberdade de nem sequer chegar no portão do prédio.

Só por rebeldia, nesse dia coloquei roupa "de sair", me maquiei e passei perfume. Coloquei luvas e com toda a coragem do mundo desci para levar o lixo (as latas de lixo ficam nos fundos do prédio). Uma grande aventura depois de tanto tempo. Mais aventuroso foi entrar em casa de volta e me desinfetar todinha cumprindo com todos os protocolos que passaram a fazer parte da nossa rotina.

No final dessa semana percebi que já estávamos resilientes e com uma grande tristeza no coração admiti que essa já era a nossa rotina: já havíamos acostumado a ver o mundo desde a janela; pegar um solzinho na sacada era quase o melhor momento do dia; a sirene das ambulâncias seguiam nos deixando apreensivos mas muitas vezes não sabíamos se estávamos escutando realmente ou se já era um som presente e constante no nosso cérebro.

Os caminhões do exército seguiam em Bergamo. Os hospitais já estavam colapsados. Os números de doentes e mortos ainda aumentavam. Nessa semana as músicas nas sacadas e janelas vizinhas pararam. Não era só eu que me sentia exausta.




Os politicos 'baixaram as armas'. Deixaram para depois as divergências. Poucos, pouquíssimos são os que ainda tentam tirar proveito político de uma situação que é caótica e já não são bem vistos dentro dos seus próprios círculos. Demorou algum tempinho mas, creio, entraram em consonância e sabem da importância da consciência que estamos todos no mesmo barco. Não é momento para discutir quem tem razão. Eles sabem que atuaram tarde tentando salvar algo que para eles, naquele momento, era mais importante. Logo perceberam que o mais importante mesmo era outra coisa. Infelizmente para muita gente foi tarde demais.

Parecia mentira, mas era real: havíamos chegado na quinta semana. Foi nessa semana que algo mudou. A sensação de cansaço foi dando lugar à resiliência. Foi nessa semana que caí aos prantos e não foi ruim: eu precisava disso para aliviar o meu peito que insistia em doer quase todas as noites. Foi muita tensão e muita angústia acumulada. Muitas dúvidas e muitos medos. A sensação do "parece mentira" foi ultrapassada pela consciência de que era real.

Fiquei decepcionada com um monte de coisa que vi por aí. Enchi meu saco com tanta besteira que li no Facebook. Incrível como todo mundo deu pitaco de coisas absurdas e me senti impotente diante de tanta ignorância e desinformação disfarçada de algo verídico de procedências bastante duvidosas. Parecia que todo mundo tinha mensagem de fonte segura para encaminhar livremente, solução para todos os problemas, respostas e confirmações científicas enviadas pelo primo do parente do amigo do vizinho que estudava em Oxford e havia feito escala em Montreal. Santa paciência!

Me doeu muitas vezes ouvir e ler das pessoas que "era exagero" ou "não era pra tanto". Aquilo me doeu quase como uma ofensa pessoal. Uma sensação estranha de se sentir desamparado ou a certeza de que não havia ali o mínimo de consideração que fosse nem pela situação que estávamos vivendo, nem por mim ou minha família. Como se estivesse presa em casa por vontade própria. Com a vida inteira parada simplesmente "porque sim". Não conseguia mais rir de piadinhas sobre o tema. Pra mim não tinha absolutamente graça. Rir de algo que me fazia chorar durante a noite era meio incoerente.

Mas logo lembrei de quando eu tinha essa mesma percepção ignorante quando aconteceu tudo isso na China. Fiquei aliviada por não ter vomitado besteira por aí. Não conseguiria me perdoar por isso, sobretudo depois de ver de perto que o buraco era bem mais embaixo do que o meu próprio umbigo.

Olha que eu aguentei até campanha política no Brasil sem desfazer nenhuma amizade no Face :)  Mas se tem uma coisa positiva que esse momento de isolamento me deu foi justamente selecionar aquilo que me incomoda e machuca e simplesmente isolá-lo (nunca melhor dito) da minha vida. Não significa alienação mas simplesmente proteção. E, afinal de contas, eu decido o que me faz bem e o que não. A necessidade de limpeza era também interna e isso me levou à fazer uma limpa até mesmo na rede social que não tinha mais sentido pra mim.

Estou acabando a quinta semana em paz  com minha mente e com meu corpo: começamos a treinar em casa. No meio dessa turbulência toda fui inventar de subir na balança e descobri que além de tudo havia ganho 2 kgs de brinde. Enquanto vejo pessoas fazendo grandes planos para quando acabe a quarentena fico pensando e até sorrio com o meu humilde desejo: me contento com simplesmente voltar a rotina de fazer caminhadas e corridas no parque daqui de Monza.

Mesmo sem combinar estabeleci quase um pacto entre amigos com aqueles que entendiam pelo que estava passando: amigos daqui, da Espanha, de Portugal. Mensagens de ânimo, trocas de experiências, planos para o futuro, livros e revistas para ler, links de coisas legais pra ver e fazer na internet, receitas. Encontramos uma maneira bacana de nos aproximarmos e simplesmente dizermos "você não está sozinho".

Pequeno segue tendo aulas online. Na semana que vem terá até prova oral. O marido segue trabalhando num ritmo frenético mas acho que até já pegou carinho às quatro paredes do quarto que ele agora chama de "meu escritório" (que também é o quarto onde sigo acumulando pilhas e pilhas de roupa pra passar). Minha sobrancelha bem horrorosa porque fui inventar de mexer nela. O bigode foi pro espaço com algumas boas puxadas de pinça e o emocional segue oscilando à cada dia. Ah! Os cabelos seguem caindo ... e demais pro meu gosto. Mas, nem vou me estressar com o estresse. As prioridades nesse momento  são outras.

Não temos a menor ideia de quando a vida voltará ao "normal". Ontem tivemos o pior dia de todos com relação ao número de mortos (quase mil). A única coisa que sabemos é que o "normal" de antes não será o "normal" de depois.

Não sabemos quando o marido voltará a trabalhar no escritório.

Pequeno tem grandes chances de nem voltar às aulas nesse ano escolar (teoricamente aqui as aulas iriam até início de junho).  Ficou pra depois o início do curso de teatro do Pequeno. A aula de natação ficou pra depois. O passeio da escola também não teve e provavelmente a viagem com o grupo da igreja que seria em maio ficará para depois. 

Ficou pra depois iniciar a autoescola. Também não sei se meu curso recomeçará. Acredito que não. Pra depois ficou fazer o meu exame de controle da anemia severa que estou tratando. A infiltração no braço também vai ter que esperar. Transferir o título de eleitor pra cá também vai ficar pra depois. Assim como a minha viagem de férias para o Brasil (que seria agora em abril). Vai ficar pra depois dar um abraço na minha sogra. Os cafés com as amigas também, sabe-se lá quando serão. 

O ânimo para escrever aqui estava quase tão intenso quanto o ânimo para passar minha pilha de roupas (que está quase como o Everest). Mas hoje deu vontade. Até mesmo para deixar registrado aqui para o Pequeno esses dias que tem sido tão intensos e ao mesmo tempo tão entediantes. Sensações minhas que,  muitas vezes para preservá-lo o máximo que posso,  não compartilho com ele.

Lembram que eu ri da quarentena de 14 dias? Pois é ... 

É um pesadelo! E ao que tudo indica passarei meu aniversário em casa, numa quarentena que, parece, vai durar mais de 40 dias. Bem feito pra mim ... 

Tudo vai ficar bem.



Nessa noite sonhei com meu pai.

Sonhei que era criança, mais ou menos da idade do Pequeno e que havia chegado em casa com o boletim escolar. Era a mesma casa de uns 30 anos atrás, o mesmo boletim daquela época e era meu pai mais jovem.

Entreguei o boletim pra ele, na cozinha de casa. Ele estava sentado à mesa. Abriu o boletim, olhou detalhadamente. Meus olhos fixavam os dele. Logo apareceu um brilho naquele olhar, o mesmo brilho que havia há 30 anos. Esboçou um sorriso, me olhou e disse: 

- "Muito bem! Parabéns, minha filha! Tô muito orgulhoso de ti!"

Eu senti (juro que senti no sonho) a mesma felicidade que sentiria  há uns 30 anos. A felicidade pelo boletim e também  a felicidade pelo orgulho do meu pai.

Logo acordei.

E como eu gosto de tentar entender sonhos, fiquei algumas horas pensando e tentando decifrá-lo.

Acho que já sei porque sonhei isso.

Estamos vivendo dias duros. Pra quem não sabe, faz 3 semanas que estamos recluídos em casa por conta da triste realidade que a Itália enfrenta com esta, agora, pandemia de coronavirus. Faz 3 semanas que não vou para meu curso. Três semanas que não tomo café com as amigas. Três semanas que meu marido está trabalhando em casa. Três semanas que o Pequeno não vai para a escola, nem pra piscina, nem para o oratório encontrar os amigos. Faz 3 semanas que deixei pra fazer a sobrancelha depois e sabe-se lá quando o depois será.

A cada dia um novo decreto que limita ainda mais a nossa vida. Neste exato momento não podemos sair de casa (somente para o estritamente necessário). Antes era somente a Lombardia, região que moramos, que estava isolada do mundo. Mas desde ontem é toda Itália.

Uma situação atípica. Surreal. Diferente. Estranha. E triste. Muito triste!

É triste ver um país inteiro parar. É triste a incerteza do futuro, com a economia cada vez mais em declive, negócios fechados. É triste ver os hospitais colapsados, o trabalho dos médicos, enfermeiros e todo o pessoal sanitário em turnos pesados e esgotantes. É triste ver os médicos pedindo "pelo amor de Deus" para as pessoas ficarem em casa ou a entrevista de um diretor de hospital chorando na tv preocupado em não dar conta de atender a todos os doentes. É triste ver que muita gente não deu bola. Muita gente achou que "essa história" era muito distante da nossa realidade. Tadinhos! Egoísmo inconsequente. Agora está todo mundo no mesmo barco: todo mundo isolado em casa. E é isolado mesmo!

Eu tenho sofrido muito por toda essa história. Pelo medo, pela angústia, pelo isolamento. E olha que me considero muito caseira (adoro ficar em casa) mas desta vez Papai do Céu exagerou ...

Estou sofrendo pela tristeza em ver minha viagem ao Brasil agora em Abril indo por água abaixo (e só de pensar me dá vontade de chorar!). Todas as viagens ao Brasil são especiais. Mas esta seria mais especial ainda.

E tenho sofrido, também, pelo meu Pequeno, por toda essa situação de reclusão. Pela vida cheia de planos interrompidos, pela incerteza do futuro. Sofro também pela quantidade de deveres diários que ele recebe. As escolas estão fechadas mas não significa que eles não tenham aula. Sofro em vê-lo muitas vezes "sem ter o que fazer" ou quando ele fica na janela olhando pra rua.

Nesses dias sentei pra conversar com ele e divido aqui com vocês o que conversamos.

Eu estou muito, muito, mas muito orgulhosa mesmo do meu filho. De como ele está enfrentando este momento bem complicado. Da paciência que ele está tendo, da resignação. Sinto muito orgulho da positividade dele, da boa energia que ele emana e da confiança no futuro. Orgulhosa  por ele colaborar conosco, por fazer nossos dias de clausura serem  menos agoniantes.

Orgulhosa dos olhares cheios de carinho, orgulhosa de quando ele me diz "tudo vai ficar bem" quando percebe que estou estressada.

Orgulhosa do esforço que ele faz pra dizer palhaçadas e tentar descontrair. Orgulhosa por ele não se queixar, não exigir, não esbravejar.

Se fosse eu passando por isso na idade dele, tenho certeza, não teria sido capaz de enfrentar essa barra da maneira como ele está enfrentando e teria deixado a vida dos meus pais ainda mais difícil.

Já falei isso pra ele e deixo registrado para que quando, num futuro, ele releia isso aqui pelo blog lembre também do bonito e importante que foi esse momento em família. E que lembre que assim como os olhos do meu pai brilharam de orgulho há mais ou menos uns 30 anos, o meu agora brilha também.

Vai sim, Pequeno! Tudo vai ficar bem!

PS.: pra quem ainda não viu, deixo aqui abaixo o vídeo que ele fez para seu canal no Youtube



Vivendo e aprendendo.

"Desde sempre" - do momento em que fui mãe - tenho a sensação constante de aprendizado, de viver o novo e de colher os bons frutos disso. E também a sensação constante de todo o frio no estômago que ele traz consigo, os medos e desafios.

Eu sou mãe de filho único, moro longe de todo mundo. Portanto, não tenho experiências anteriores e nem de pessoas próximas. Aprendi na marra a me virar como podia e como meus instintos me encaminhavam. Pequeno nasceu e no mesmo instante nasci também. Uma nova versão de mim. Para iniciar o que talvez seja a maior aventura e desafio da minha vida.

Com ele bebê aprendi tanta coisa, sobretudo o quanto somos responsáveis por alguém. Aprendi a cuidá-lo, a reconhecer seus choros e incentivar seus sorrisos. Os primeiros sons, as primeiras gargalhadas, as primeiras artes e os primeiros limites. Lembro até hoje de quando  dizia "não mexe aí, neném!" e ele fazia não com um dedinho de uma mão e com a outra mexia do mesmo jeito. Ou quando um pouco mais maiorzinho eu dizia "Ai, ai, ai!" num tom mais forte quando ele estava prestes a fazer algo que não deveria, se assustava e fazia "beicinho". O beicinho mais lindo que já vi em toda a minha vida!

Logo cresceu, aprendeu os primeiros passos, as primeiras palavras. Bem sacaninha, de vez em quando me chamava de "Tatchiiii" porque ouvia o pai dele me chamando assim. E eu dizia bem braba: "Não sou Tati! Sou mamãe!". Ele sorria e com carinha safada dizia: "Tatchiiii". A carinha safada mais linda desse mundo!

Cresceu mais um pouco, foi pra escola, fez amigos. Aprendeu a escrever, a ler, fez rabiscos com mais sentido. Caiu o primeiro dente, o segundo, o terceiro ... o primeiro tombo sério, o segundo  ... o vigésimo quarto.

E em todos esses momentos eu estava ali aprendendo e me reinventando. Me esforçando para fazer ao máximo o que eu achava que poderia. E eu juro que em muitos desses momentos tive a sensação de que poderia ter feito mais ... ou feito melhor. E não se trata de uma cobrança ou de um arrependimento. Era apenas a sensação de que o melhor de mim ainda não havia alcançado seu ápice.

E aí, meus queridos, chegamos na fase da pré adolescência. Cá estou eu, novamente, tendo que me reinventar, aprender e melhorar. Tipo Ave Fênix na versão maternidade: renascendo ... não sei se das cinzas, mas renascendo.

Agora eu tenho um menininho por casa, com os hormônios à mil, borbulhando dentro de si. Um menino que de vez em quando anda mal humorado, com pavio curto (aiiii de quem falar "igual a mãe"!), por vezes respondão e sem paciência. O respondão e sem paciência mais lindo desse mundo!

bem chatinha essa fase de transformação e, pela primeira vez, tenho tudo muito claro na minha cabeça (talvez porque tenha sido uma pré E adolescente chata?). Eu sei que nessa fase ele vai achar que os chatos somos nós (eu e seu pai), que sabe mais que a gente. Vai ter pouca paciência conosco e iremos nos desentender muitas vezes. Eu sei que pra ele será difícil, que é seu corpo e sua cabeça se transformando de uma maneira incrível. E eu sei que a palavra-chave para tudo isso é: PACIÊNCIA.

Logo eu ...

Pois é. Estou aqui, renascendo, me reinventando e aprendendo a ser uma pessoa melhor. Afinal, nunca fui mãe de adolescente. Apesar de não ser tudo novidade me sinto meio perdida. Na verdade, nem sei descrever direito a sensação que tenho. É como se soubesse como fazer, como reagir, como atuar, tudo perfeitamente esquematizado. Mas aí vem um imprevisto e todo o planejado vai por água abaixo. Se recomeça tudo de novo, se aprende com os erros e vai seguindo em frente.

Como é que se chama isso mesmo? Ah, lembrei. É VIDA.

A Bailarina.

Domingo passado, pela primeira vez, fui ao teatro assistir à uma apresentação de ballet. Fomos assistir  a companhia de ballet de São Petersburgo que veio a Monza para uma apresentação.

Cheguei a ficar ansiosa e até comprei roupa (e sapatos) novos para a ocasião (tá bom! Boa desculpa, eu sei ...). O evento pedia uma arrumadazinha no look com um pouco mais de elegância. Quer dizer, isso eu achava. Porque no final, teve de tudo um pouco. Desde gente elegantérrima com casacos de peles de todas as cores e estilos, até pessoas com um look mais normalzinho. 

Me arrependi de ter comprado o sapato de salto - e que salto! E antes mesmo de que começasse o segundo ato já havia aberto o zíper do sapato para dar uma aliviada no joanete. Na verdade desacostumei. Faz séculos que não sei o que é andar de salto.  Estaria mais comoda se tivesse ido com a minha bota baixa  'de sempre'. Para a próxima já sei.

Chegamos no horário. Logo entramos. Nosso lugar era super bom, bem próximo do palco. E eu, apesar da minha zero experiência em espetáculos de ballet, sabia que deveria ficar o mais próximo possível  para não perder os detalhes dos pés e das expressões dos bailarinos. E assim foi. Ficamos tão perto, mas tão perto que vez que outra, quando o tom da música baixava, escutava o "eco" das sapatilhas de ponta no chão do teatro. E até o "eco" era perfeito, em total sintonia.

Ah! Estava esquecendo de um importante detalhe: o espetáculo que fomos ver foi o Lago dos Cisnes.

Preciso dizer que amei tudo. Amei a apresentação, amei o teatro, os bailarinos da companhia e a primeira bailarina - que por sinal se chama Tatiana, ! - arrasou.

Em determinado momento da apresentação, não me pergunte o porquê, me transladei à minha infância.

Lembrei de quando era pequenininha, bem pequena mesmo, ainda morava em Porto Alegre e um dos meus passatempos preferidos quando estava dentro de casa era escapar para o quarto da minha mãe, subir na cama para alcançar na cômoda que ela tinha. Naquela cômoda, bem centralizada em cima de um guardanapo de crochê, ficava uma caixinha de música. Era retangular, de metal, com alguns detalhes em tons envelhecidos.

Eu amava - simplesmente amava - pegar a caixinha, dar corda e me deliciar vendo a bailarina rodopiando na pista em tons de vermelho, preto  e branco. Em dias de maior empolgação, bagunçava toda a cama dos meus pais repetindo (ou tentando repetir) os passos da bailarina, enquanto me espiava no espelho da cômoda. A cama parecia enorme, gigante (na verdade, eu que era muito pequena)  e dali me transladava com a imaginação para os maiores palcos do mundo. Gigante também eram as broncas que eu ganhava de minha mãe por conta da bagunça.

- "Tatiana! De novo bagunçando minha cama?"

A música me transmitia um pouco de tristeza mas a bailarina amenizava essa sensação com seus rodopios que eu demorei algum tempo para entender que eram todos programados.

Eu cresci e parei de rodopiar na cama dos meus pais. Mas a caixinha de música seguiu lá, funcionando, bem centralizada em cima da cômoda. Vez que outra, quando passava por ela, dava corda só para ver a bailarina girando, girando e girando.

Não sei o que aconteceu com a caixinha de música, nem sei se minha mãe ainda a tem. Se ainda tiver, vou pedir de herança :)

E então, enquanto aplaudia entusiasmada a excelente perfomance da bailarina no teatro, entre um ato e outro, viajava lá pra longe e na caixinha mais importante que temos - a das nossas recordações - lembrei de que um dia eu também havia sido a primeira bailarina - Tatiana -  da companhia de bagunça da cama da minha mãe. Aplausos.

imagem internet

Já faz 1 ano.

Hoje faz 1 ano que chegamos aqui na Itália. Fiz um post, que ficou gigante: muita coisa para contar e para relembrar.  Mas logo mudei de ideia e resolvi fazer um vídeo.

Tem duas pequenas, mas muito especiais, participações.

Espero que gostem!

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Quarentena de quantos dias?

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