Pequenices da Mamãe.

Faz algum tempinho que não apareço por aqui. Tinha um post preparado para o Dia das Mães, mas não deu para publicá-lo. Faltou ânimo, mais que nada. Logo vocês entenderão.

Senta que lá vem cagad* ... ops! Vamos manter a compostura: senta que lá vem história. E já começo avisando, não é do Pequeno. É da mãe dele, o pior de tudo (logo entenderão o porquê de  tanta negatividade). Vamos ao fatos.

Não me considero uma pessoa vaidosa (iniciando com as explicações). Pelo contrário. Costumo dizer que sou uma mulher 'atípica'. Não tenho o hábito de ir a salão de beleza (meus muitos fios de cabelos brancos que o digam). Nesses seis meses que moramos aqui fui uma única vez no cabeleireiro para cortar as madeixas. Não sou ligada em tendências de moda (o pouco que sei a respeito é fruto de acompanhar o Instagram da Thaisa, uma influencer nota 1000, lindona, queridona e mãe da Laurinha, amiga do Pequeno). Não tenho vários pares de sapatos, não tenho muitas bolsas, meu guarda-roupa tem prateleira sobrando. Quem me conhece sabe que troco passeio no shopping por jogo de futebol (se for do meu time - Grêmio - nem penso; se for de outro time penso 2 segundos e vou). Como sabiamente me define minha mãe: "Isso tinha que ter nascido homem". 'Isso', nesse caso, sou eu.

Mas nem tudo está perdido. Gosto de cuidar das minhas unhas (mas não vou em manicure, faço em casa mesmo), adoro bermuda e camiseta, gosto de calça larga, detesto roupas apertadas. Prezo pelo conforto, por me sentir bem. Não significa que não me sinta "feminina". Não saio de casa sem brincos, por exemplo. Porém, minhas maquiagens se resumem a um único rimel, um único pó (que uso raramente - e que comprei faz pouco tempo), base passei a usar faz pouco também, 2 batons (que ganhei da minha mãe), um lápis de olho e uma pequena paleta com sombras, que passo com o dedo mesmo. Não sei me maquiar. Na verdade, sou um desastre me maquiando.

Eu sofro com isso? Não. Não sofro. Sou infeliz assim? Exatamente o contrário. Na verdade, não tô nem aí, como diria a música. Mas, reconheço, vez que outra gosto de me arrumar. Gosto de receber elogios dos meninos da minha casa. Então, de vez em quando seco o cabelo e faço uma escova (em casa mesmo), de vez em quando me arrumo bonitinha, de vez em quando me maquio.

Não sinto o "peso da idade", mas a gente começa a perceber sim uma ruguinha que antes não tinha e agora tem, uma manchinha no rosto que antes não tinha e agora tem. E a verdade é que não exultamos de felicidade ao encontrar uma ruga bem no cantinho entre a bochecha e o nariz ou um novo pé de galinha. Linhas de expressão o caramba!

Bem ... com parte das explicações dadas, seguimos com o tema principal. 

Cheguei na Itália e, comparado com o Brasil, aqui é o 'paraíso' dos cosméticos: a gente encontra coisas muito boas, por exemplo, no supermercado. Coisas que no Brasil a gente paga uma fortuna, aqui são super em conta. Ao alcance dos olhos e do bolso. Quem resiste?

Então passei a consumir mais cremes do que antes. Antes comprava somente o hidratante para o rosto (possivelmente o mais barato) e pronto. Passei a comprar hidratantes diferentes, máscara esfoliante, creme de limpeza, toalhinha de limpeza, qualquer coisa de limpeza de pele que encontrasse por um bom preço no supermercado. Quem me segue no Instagram já até deve de ter visto algum que outro storie de palhaçada fazendo limpeza de pele.

Até então, em toda minha vida de mocinha, havia feito somente duas limpezas de pele "sérias" com uma profissional, minha esteticista preferida - a sobrinha Jéssica (pessoal do Sul, fica a dica, o contato da Jéssica está aqui).

Pois bem. Morando aqui em Monza, passei a frequentar um centro de estética. Vou a cada 15 dias, mais ou menos, para fazer duas únicas coisas importantes que realmente "me dou ao luxo" (assim entre aspas porque é mais por necessidade mesmo): depilar a sobrancelha e - o mais importante de tudo - o bigode. Sim, eu tenho bigode! E, como diz o refrão: "Mulher de bigode, nem o .... pode". 

Nessas minhas idas e vindas do centro estético, passei a conversar mais com o pessoal que trabalha lá, passei a me interessar pelos tratamentos (até para entender o que eram, principalmente para entender o significado em italiano), etc. Conversa vai, conversa vem ... um dos tratamentos me chamou a atenção. Tratamento com ácido glicólico.

Comentei para a esteticista que o que me incomodava mesmo no rosto eram 3 manchinhas que tinha do lado direito. Eu tinha uma espécie de "três Marias", só que em forma de manchas nas bochechas. A mulher me explicou que elas poderiam sumir (não me deu certeza), explicou mais ou menos como era o tratamento (o mais ou menos vocês entenderão a seguir), explicou que por ser um tratamento com ácido, a pele ressecaria, escamaria, mas que depois ficaria linda. Na verdade, eu não estava nem aí para a "pele linda". Eu queria era me livrar daquelas 3 benditas manchas.

Agendei o tratamento para a semana seguinte.

Comentei com o marido. Ele me olhou com cara de "tem certeza?". Eu tinha certeza. Quer dizer ... o que eu não sabia é que eu iria fazer o famoso peeling.

No dia marcado, fui bem feliz para o centro de estética. Dessa vez, quem me atendeu foi a proprietária do local. Muito atenciosa e simpática. Finalmente minhas 3 Marias iriam embora.

Pois bem. Fiz o tratamento. Senti ardência, coisa que era normal, segundo a esteticista. Logo um alívio quando ela passou uma segunda máscara. Tudo dentro do previsto. Acabei o tratamento, paguei e fiquei batendo papo com elas (a esteticista que havia me atendido e a outra funcionária, que me atende sempre quando vou "depilar o bigode"). Jogamos conversa fora até que em determinado momento a mulher me perguntou se estava sentindo calor.

- "Não. Por quê?"

- "Porque você está suando."

- "Eu?"

Do meu rosto saía um líquido tipo suor (mas muito suor - tipo quando suava muito após 45 minutos de spinning), mas não estava sentindo calor. Ou seja: não era suor. Nesse momento percebi que havia dado merd*... pois é.

Passei no supermercado, morrendo de vergonha, pois o rosto estava todo vermelho, brotando água e começando a inchar. Me escondi entre os óculos escuros e os cabelos estrategicamente atirados pelo rosto. Mal sabia que aquele seria o meu melhor rosto pelos próximos dias. A moça do caixa me olhou com uma cara estranha. Apenas sorri. Me sentia incomoda. Queria chegar em casa logo.

Fui para casa e durante o resto do dia as coisas só foram a pior. Meu rosto ficou ainda mais vermelho. Agora, além de arder e coçar também doía. E comecei a ficar ainda mais inchada. Meus olhos grandes e  fundos viraram duas bolinhas.

Para dormir foi um sacrifício. Na verdade, dormi muito mal. Acordava a todo momento com ardência, coceira e por conta do inchaço, a pele esticada doía bastante. O vermelho do rosto foi ficando marrom. Todo o rosto marrom.

Na tarde anterior, havia mandado mensagem para a esteticista, perguntando se todo aquele vermelhão e aquele início de inchaço era normal. Ela respondeu que era normal e que não me preocupasse. "Eles eram profissionais", respondeu. Em nenhum momento questionei a profissionalidade de ninguém. Apenas queria saber se era normal. Na verdade, meu sexto sentido já dizia que não mas como tenho fama de pessimista, melhor confirmar.

Na manhã seguinte, mandei foto do rosto, pedi desculpa pela insistência  mas que "achava" que aquela reação "não era normal". Ela não respondeu a mensagem. Me ligou diretamente.

- "O que você  passou nesse rosto?"

Ali já tinha a absoluta certeza de que havia dado merda mesmo. Perdão pelo linguajar, mas não tem outra palavra  que descreva melhor.

- "Vem assim que puder pra cá."

Saí voando. Morrendo de vergonha. Todo mundo na rua me olhava. Além do rosto todo - TODO - marrom estava super inchada. Tinha dificuldade até para enxergar e falar.  Nessas horas a gente agradece por morar num lugar aonde não conhece ninguém.

Cheguei no centro estético e a mulher me levou direto para uma sala (provavelmente para me esconder o antes possível do resto das clientes - a compreendo, eu teria feito o mesmo). Tentou argumentar que provavelmente a culpa era do creme que  EU havia passado depois.

Naquelas alturas, já sem muita paciência, respondi num tom bem sério:

- "Olha só! Eu  perguntei para você qual creme poderia passar. Você me respondeu "qualquer um hidratante". Falei a marca do creme que tinha em casa e você respondeu que tudo bem. Sem contar que ontem quando saí daqui estava saindo água, tipo suor do meu rosto, lembra? Ali já estava dando algum tipo de reação. Tanto que você ficou surpresa."

Logo chegou a outra funcionária e fiz questão de perguntar na frente dela:

- "Lembra que ontem quando saí daqui estava com o rosto parecendo suado, com água saindo? Vocês até me ofereceram lenço para secar o suor?"

A moça confirmou.

Fiquei umas 3 horas ali com as duas, que tentavam disfarçar  mas estavam um pouco preocupadas, dava para perceber. Me passaram um creme lenitivo que alivou a ardência. Me deram um pouco de creme para trazer para casa e também ganhei um outro creme hidratante para passar mais adiante, quando melhorasse.

Não saí tranquila de lá. Fui tratada super bem e, passados aqueles primeiros minutos de tensão, aonde a mulher queria tirar o peso das costas dela, conversamos numa boa. Eu não estava brava com ela. Só queria solucionar um problema que ela me havia causado, sobretudo pela falta de informação. A única certeza que tinha era a de que se ela  tivesse me alertado sobre os contras do tratamento, com certeza não teria feito. Seguia com coceira, com dor, inchaço e muito, muito incomodo.

Novamente o momento da vergonha, de sair para rua com aquela cara horrorosa. Sempre reclamei que aqui na Itália, muitas vezes, tinha a sensação de ser invisível, as pessoas nem olham pra gente. Esquece. Nunca mais vou afirmar isso. Todo mundo olhava pra mim. Que saco! O pior de tudo é que nem eu mesma me reconhecia quando olhava meu reflexo pelos vidros das vitrines.

Após mandar fotos e mensagens para o marido, ele me disse: "Por que não vai no médico?".

Quer saber? Já estava na rua mesmo, todo mundo estava olhando pra mim. Até havia tentando pesquisar alguns dermatos antes de sair de casa, mas não havia obtido êxito com consultas de última hora. Decidi ir direto para o hospital. Procurei um taxi e não achei. Descobri qual era a linha de ônibus que passava no hospital, comprei o bilhete (passagem) e como se nada estivesse acontecendo, entrei no ônibus lotado e não me importei com os olhares. Naquelas alturas já havia tirado o óculos e colocado o cabelo para trás (cada fiozinho dele que batia no rosto doía pra caramba).

Foi então que conheci o hospital de Monza. Uma super estrutura e tive uma grata experiência - se é que se pode classificar assim. Primeiro tentei ver se um especialista (dermatologista) poderia me atender,  mas eles atendem por consulta marcada. Não havia encaixe. Tinha que agendar. Mas, vendo minha cara horrorosa e de desespero, o moço disse que tentasse ir ao pronto socorro. Teria que sair, dar a volta no  prédio do hospital. Beleza! Sol lá fora, enfiei o capuz do casaco na cabeça e simbora para o pronto socorro.

Fui atendida super rápido e me mandaram direto para o especialista, que ainda estava atendendo. Quase chorei de felicidade. Demorei mais para retornar do pronto socorro ao hospital (onde foi a consulta) do que sendo atendida. Um senhor, meio sério mas muito profissional me atendeu. Expliquei pra ele o que havia acontecido. Me examinou e disse que não me preocupasse com manchas. Que aquele preto viraria casca, logo descascaria. Só não poderia tirar a casca, deveria deixá-las cair por conta própria. Me passou uma pomada-creme antibiótico e solução fisiológica. Me explicou que deveria ter muito cuidado com a pele nova que apareceria. Nada de sol e, quando melhorasse, protetor solar 100 sempre no rosto. Sempre. A última recomendação foi:

- "Nunca mais faça isso. Você teve uma reação alérgica. E, acredite, teve muita sorte."

Naquele momento o "teve muita sorte" pareceu até piada.

Saí da consulta mais aliviada. Embora ainda inchada e com a ardência voltando com tudo.

Antes de ir embora, precisava pagar o ticket da consulta. Como meu caso não foi classificado como  emergência, precisava pagar uma taxa pela consulta (e aí também levam em conta se você tem alguma espécie de desconto). O hospital é público, mas cada caso é um caso (leva-se em conta o tipo de emergência, até mesmo a renda familiar). O meu caso é que tinha que pagar 25 benditos Euros pela consulta. Quando chego no local para efetuar o pagamento, pego a senha e descubro que tem mais de 200 pessoas na minha frente. Quando entro na sala, enorme, praticamente na recepção do hospital, um bando de gente. E eu com aquela cara que, mesmo que não quisesse, chamava atenção pra caramba. Que vergonha! 

Mesmo não querendo, as pessoas olham. Algumas olham com cara de curiosidade, algumas com cara de pena e algumas malvadas, mal educadas olham com cara de nojo mesmo e nem disfarçam. Que sensação triste! Dava vontade de responder: minha cara feia em duas semanas estará boa, mas a sua cara antipática não melhora nem com cirurgia plástica. Ora bolas! Mas não estava em condições de bater boca com ninguém. Aliás, doía o rosto até para falar.

Fiquei exercitando algo que não tenho muito - paciência - e refletindo sobre o engraçada - até - que chega a ser a vida, inclusive nesses momentos. Fiquei feliz quando no monitor percebi que faltavam "apenas" 100 pessoas para serem atendidas antes de mim.

Tentando resumir a minha saga: passei dias horrorosos. O final de semana do Dia das Mães foi triste. Acordava todos os dias com aquele friozinho no estômago desejando que tudo se tratasse apenas de um terrível pesadelo, mas quando tocava no rosto sentia as feridas e percebia que não.

Não fiz videochamada com minha mãe, para desespero e angústia da minha véinha. Mas, se sem me ver comentou que "quase foi parar no hospital por preocupação comigo",  imagina se ela me visse com o rosto inchado e cheio de feridas?

Fiquei vários dias presa em casa. Nunca mais reclamo que não quero sair pra rua. Isso sim, Papai do Céu foi bem bondoso e o tempo ficou uma droga. Choveu, fez frio, dias perfeitos para ficar em casa mesmo.

Minha maior das angústias foi que no meio dessa tempestade toda, tinha agendamento para fazer (finalmente após 6 meses), minha documentação daqui. O permesso di soggiorno, que me dá direito a morar e trabalhar aqui. Esse documento é feito num departamento da polícia. Dentro das minhas neuroses, provavelmente o policial não iria aceitar fazer minha documentação. Eu não era a mesma pessoa da foto do passaporte. Por sorte (pouco a pouco fui entendendo a "sorte" que o dermato se referiu), no dia marcado para o documento meu rosto desinchou. Passei a celebrar cada pequena melhora. Ainda estava com o rosto cheio de feridas, mas ao menos já me reconhecia. Por sorte, também, a foto para o documento não é tirada na hora. Precisei tirar uma foto e levá-la. Havia feito  a foto logo que cheguei aqui na Itália. Fiquei olhando com nostalgia meu rosto ainda moreninho, recém chegado do Rio de Janeiro.

Este parágrafo quero dedicar especialmente ao meu amore que me cuidou como nunca, teve uma paciência gigante com meus desesperos, meus choros de arrependimento, meus medos. Me encheu de mimos, cuidou de mim, do filho, da casa, cozinhou direto para que não pegasse calor no rosto, me encheu de elogios e, mesmo não tendo muita certeza, dizia para ficar tranquila que tudo ficaria bem. Até brinquei com ele que se quisesse o divórcio eu entenderia. Minha autoestima foi lá para baixo. Tive medo, tive pânico, tive vergonha, raiva, tristeza e, acho, gastei meu estoque de lágrimas. Eu sei que também o deixei apavorado, mas em todo momento ele se preocupou 'apenas' com que me sentisse bem. Fez questão de ir comigo fazer o documento, mais que nada para me acompanhar. Obrigada, amore! Obrigada pela paciência, pelo amor, pelo cuidado, por estar comigo sempre. TI AMO!

Meu filho também, cheio de carinho, de conselhos e de palavras bonitas. Não se cansou de dizer:

- "Mãe! Mesmo com manchinha no rosto tu é linda ... não te preocupa."

Pouco a pouco fui me acostumando com as feridas no rosto. Quando o inchaço desapareceu me reconheci no espelho. As feridas foram secando e caindo, lentamente, mas foram desaparecendo, deixando uma pele nova, vermelhinha que precisa de muitos cuidados.

Perdia pele na cama, no chuveiro, caía pele dentro do prato quando comia, uma nojeira danada! Incrível como após o desespero a gente vai "se acostumando". Não me importava mais se ficaria com o rosto manchado ou não. Já sabia que era questão de tempo. Que tudo ficaria bem. E o ficar bem era algo bastante relativo.

as peles que caíam

A gente vai saindo da caixinha do egoísmo e percebe que temos problemas sim, mas que existem outros problemas bem mais sérios e bem mais importantes. Afinal, estava assim por um cúmulo de equívocos. Em primeiro lugar meu, por não ter me informado melhor, por não saber aonde estava me metendo. Pateta, só pedi conselho da sobrinha profissional quando já havia feito o tratamento. Poderia ter pedido opinião antes, mas não teria como saber que seria alérgica a esse tipo de coisa. Que eu soubesse, até o momento, não era alérgica a nada. Junta tudo isso com, também, equívoco por parte da esteticista por não ter me alertado o suficientemente bem sobre os prós e os contras. Quando retornei a uma segunda consulta com a dermato ela me alertou sobre todos os contras deste tratamento e, sobretudo, que ela como profissional não faria jamais esse tipo de tratamento no início da primavera, por exemplo. Além de toda a questão de exposição ao sol, nesse período as pessoas ficam mais propensas a reações alérgicas. Enfim ... acho que foi um cúmulo de circunstâncias e falta de informação (além de uma reação do próprio organismo) que contribuiram para que tudo isso acontecesse.

- "Nunca mais faça isso!", recomendou a segunda dermato.

Não precisava nem recomendar. Nunca mais, com certeza.

Ainda tenho muitos dias de tratamento pela frente. Daqui a uns  30 dias vou poder voltar a usar maquiagem. Prazo também que a segunda dermato estipulou para poder voltar a depilar o bigode (não dá risada, que o caso é sério). Precisarei ter muito cuidado com a pele novinha em folha que está aparecendo por aqui. Vou ficar por um bom tempo com o rosto sensível e preciso ter todo o cuidado com respeito ao sol, já que estamos em pleno período de primavera e, logo, verão.

Logo eu que só passava cremezinho de vez em quando, terei que ser adepta a cremes (bons), filtros solares, cuidados especiais. Quem mandou me meter nisso?

Ah! As 3 Marias não foram embora. Na verdade, duas ainda não consigo ver. Mas a primeira Maria tá aqui, firme e forte. Nem ácido foi capaz de acabar com ela. E, quer saber? Fiquei até feliz de reencontrá-la. Vai entender. Peguei carinho.

Agora, preciso contar pra vocês. O que acabou comigo mesmo, o maior soco no estômago que levei foi quando Pequeno, entre um conselho e outro, uma frasezinha de ânimo e de carinho, me disse:

- "Ai, mãe! Tu sempre me falando que tenho que pensar nas consequências ... tu não pensou nas tuas dessa vez, né?"

Literalmente me caiu a cara de vergonha. Bem feito pra mim.

Acreditem: vos poupei das piores fotos :) 



Da Janela do Trem.

Sentada na janela do trem. Enquanto ele se movimenta, vejo a paisagem. Passa tudo rápido demais. Não tenho tempo suficiente para perceber as imperfeições: as casas velhas, descuidadas, os lixos pelo caminho, as pontes quebradas ou a fábrica abandonada. Também passa rápido demais para perceber os detalhes das belezas: as construções antigas e bem cuidadas, as flores coloridas que desabrocham com a primavera, a conversa harmoniosa entre duas amigas no banco da estação ou simplesmente apreciar melhor o céu colorido do entardecer.


Assim me sinto neste momento com relação ao meu Pequeno Nicola. Uma mera expectadora do tempo que anda voando aqui do meu lado e não tenho como controlá-lo.

Para trás ficou meu bebê lindo, bochechudo, carequinha, sorridente e simpático. Dono de um olhar cativante. Lembro até hoje de quando fomos comer num chinês em Londres e a atendente fazia questão de voltar todas as vezes possíveis em nossa mesa para admirar e elogiar os olhos do Pequeno.


Com a sensação de um tempo muito longínquo, ficou também a lembrança do meu gringuinho falando com sotaque. Daquele menino cabeludinho, esperto, inteligente, comunicativo, que fazia questão de falar com todo mundo e que sempre fez questão de deixar bem claro seu ponto de vista e seus argumentos. Coisas que me ocasionaram, várias vezes, passar por cada saia justa digna de ficar escrita aqui no blog (e ficaram). 

Parece que foi ontem que me emocionei com seu coração generoso, sua bondade, com o bem querer e o respeito ao próximo. Coisas que sempre incentivamos nele, claro. Mas atitudes que partiam única, exclusiva e espontaneamente dele. Isso era exatamente o que emocionava.

E como quando um trem em alta velocidade entra num túnel e a gente perde a claridade, fica na penumbra esperando que passe logo, parece que foi ontem que o escutei pela primeira vez dizendo-se "desafortunado" por não ter tido a oportunidade de conhecer o nonno. "Essa vida é muito injusta! Por que ele precisava morrer 3 meses antes de eu nascer? Papai do Céu não podia ter esperado mais um pouquinho?", comentou ele com olhinhos tristes. Ou quando tive que explicar, da maneira que dava para uma criança daquela idade entender que a vó precisava fazer uma cirurgia delicada no coração. Ou quando, alguns meses depois, precisei contar que o vovô, a quem ele tanto amava com uma intensidade sem explicação, ficaria "diferente" e totalmente carequinha por conta do remédio que estava tomando para combater a doença chatinha que tinha. Quantas carícias na carequinha do meu pai Pequeno fez. E então câncer, o mesmo que levou seu nonno, não era mais sinônimo de tristeza, quimioterapia passou a ser sinônimo de salvação e o avô, como se não bastasse, passou a ser seu  herói. Em todas essas etapas, por ele precisei ser forte.

E já fora do túnel, com aquela claridade que chega a doer o olho, parece que foi ontem que o escutei falar pela primeira vez que "estava apaixonado" e que "tinha uma namorada". Quase com taquicardia, perguntei o que significava "namorar" para ele. Foi então que me respondeu que era brincar junto no recreio, sentar para conversar, dividir o lanche. Ufa! Meu menino não estava sendo precoce. Expliquei que aquilo era simplesmente "querer bem" e que em muitos momentos de sua vida encontraria pessoas assim. Que é normal a gente ter afinidade com algumas pessoas, querer passar mais tempo com elas do que com outras, conversar assuntos exclusivos que não somos capazes ou não queremos conversar com outros. Um pouco decepcionado (porque ele queria ter uma namorada), Pequeno entendeu que se tratava apenas de amizade.

De repente, durante a viagem, uma freada brusca. Quantos tombos, machucados e quantas foram as vezes que precisei levar meu Pequeno em hospitais. E ele sempre sorridente e simpático, mesmo doentinho. Lembro quando ainda era pequenino e, após vomitar a casa inteira e acabar com meu estoque de toalhas e lençóis, o levamos para a emergência em Roma. Passamos a madrugada inteira no hospital, dando-lhe soro. Lembro que na troca de plantão, ele ainda em observação, dava "buongiorno" para todos os enfermeiros que chegavam, sorridente e feliz, enquanto eu e o pai dele lutávamos para manter os olhos abertos, exaustos pela noitada que Pequeno nos havia dado. Ou quando fez sua primeira ecografia. Lembro até hoje do olhinho brilhando de felicidade. Meu Pequeno hipocondríaco! De todas as vezes em que ao fazer exame de sangue pedia a "borboletinha" porque senão não iria aguentar. Ele sempre aguentou. Até mesmo quando aos 6 meses precisou fazer seu primeiro exame. Isso sim: quem ficou aos prantos foi o dindo Nando.

Vez que outra, durante a viagem, é preciso levantar para alongar as pernas. Pegar fôlego para seguir adiante. Quantas ginásticas e idéias para inventar, quantas fantasias malucas precisei criar  e quantas vezes precisei me virar em mil para dar conta da agenda cheia de compromissos, dos eventos com os amigos. Em quantas festas fui sem vontade ou em quantos passeios gostaria de ter inventado uma desculpa esfarrapada para não ir. Mas, no final, ver seu sorriso e  sua felicidade amenizavam qualquer sensação de preguiça ou incômodo.

De vez em quando, alguns solavancos nos trilhos. Alguns momentos desagradáveis. Meus momentos de fúria e decepção mas, no final, sempre sabia que era uma criança e tinha todo o direito de atuar como tal. Aquela luta constante por ser um bom exemplo e de lutar entre o correto e o incorreto (e explicar o porquê de ser incorreto). Quantas pequenas mentiras descobertas. Quantas angústias por tentar fazê-lo entender que muitas vezes as coisas não são como deveriam ser. Que as pessoas não pensam da mesma maneira, não tem as mesmas prioridades, as mesmas condutas, o mesmo tipo de educação. Que muitas vezes existem pessoas que simplesmente não se importam. Não se importam se estão ferindo com um gesto, com uma palavra, com uma atitude. Mas o que mais me enchia de orgulho e felicidade era ver que Pequeno nunca sofreu com desfeitas, com falta de educação ou com pequenas maldades. Seguia dando bom dia para o vizinho que não respondia. Seguiu brincando com o amigo que não o convidou para o aniversário e se esforçou ao máximo para se aproximar de um colega que o bateu. Ele não revidou com a mesma moeda: ele revidou com carinho, com simpatia,  com inclusão, com amizade.

E o trem segue viagem, em velocidade máxima que, vez que outra, chega a dar friozinho na barriga. Da janela estou vendo meu Pequeno menino virando um jovem menino. As feições estão mudando, ele já conta os centímetros que faltam para alcançar minha altura (coisa não muito difícil). Já se fecha no quarto para escutar música e, feliz da vida, fica gritando pela casa que já tem pelinho em algumas partes do corpo, inclusive no bigode.


Numa velocidade de viagem frenética, adora discutir política com o pai, ou conversas longas, duradouras e sérias sobre história, guerras e o quanto este mundo anda complicado. Tem orgulho de "não ser de parte nenhuma": ele é do mundo inteiro. Faz planos para quando casar e tiver 2 ou 3 filhos e fica brabo quando digo que isso não deve ser o objetivo da vida dele. Dia desses me perguntou de onde gostaria que fosse minha nora (oi?) e que quando eu ficar velhinha e precisar usar fraldas ela vai cuidar de mim (mais sacana impossível esse menino!). Tem feito com que eu evolua, também, como mãe de um jovenzinho deixando-o sair com os amigos para um futebolzinho, cinema ou sorvete. E, ao contrário do marido, que fica nervoso e preocupado, eu fico aliviada por ele já estar totalmente integrado após poucos meses de mudança. Agradeço por estarmos morando num lugar que permita esse tipo de vida a ele. E meu coração explode de alegria cada vez que ele me conta um segredo, um medo, cada demonstração de confiança.

Eu queria mesmo é que esse trem andasse devagar. Sentir cada passagem pelos trilhos, apreciar com calma cada vista do trajeto. Logo eu que me encanto com o olhar, com o que vejo! Queria ter a sensação boa daquele calorzinho do sol que entra pela janela, do cochilo da viagem  ou até mesmo apreciar com calma a chuva que desce lá fora.

Como diz a canção "o trem que chega é o mesmo trem da partida". Se rápida ou longa, do único que tenho certeza é que, pelo menos até aqui, a viagem já valeu a pena.


P.S.: aqui no nosso blog, no canto superior esquerdo tem uma caixa de pesquisa, aonde você pode encontrar postagens antigas. Basta escrever uma palavra chave, pesquisar e, logo, aparecem os posts correspondentes. Por exemplo, todos os micos você pode reler ali :) 


Colóquio.

O significado tanto em italiano quanto em português é praticamente o mesmo:

"Reunião estabelecida por acordo mútuo entre duas pessoas (ou mais), para troca de idéias ou opiniões sobre questões de certa importância e principalmente de interesse comum; entrevista."

Pois bem. Semana passada tivemos colloquio, como se escreve em italiano,  com os professores na escola do Pequeno. Bem ...  colloqui, porque foi mais de um. Na verdade um colloquio com cada professor. E digo tivemos  porque o pai do Pequeno foi junto. Aqui em casa não tem essa história de se safar porque ele  trabalha fora e eu, supostamente, tenho mais tempo disponível. Se dá pra arrumar um tempinho e participar também, beleza. O filho também é dele, ora bolas! 

E, apenas usando essa brabeza como desculpa - e agora dando o real motivo -  me senti mais segura com a presença dele também. Ainda estou me acostumando com tudo, não tinha idéia de como funcionavam essas reuniões. E como muitas coisas aqui por essas bandas costumam ser tradicionais, provavelmente os 'colloquios' (P.S.1: misturando as duas línguas a livre arbítrio) seriam exatamente iguais que na época em que ele era estudante. E basicamente segue tudo igual mesmo. (P.S.2: não é uma queixa, trata-se apenas de uma observação).

Foram dois dias de reuniões: terça e quinta. Num horário estabelecido pela escola, fora do horário de aula dos alunos. Basicamente funcionou assim: cada professor numa sala, alguns recebiam por ordem de chegada e, outros poucos, por agendamento. Na terça chegamos basicamente na hora que iniciaram as reuniões e saímos da escola tarde, bem depois do horário estabelecido para o término. Na quinta, gozando da audácia de "pais de primeira viagem em reuniões na Itália", achamos que pelo tempo ruim não haveria muita gente e chegamos um pouco mais tarde. Equivocados total: saímos mais tarde ainda. E olha que em alguns momentos nos dividimos e fizemos fila de espera em separado - a vantagem de ir em dupla. Era muita gente, pois a maioria dos professores dá aula para várias turmas e várias séries.  No aviso dizia que seriam entrevistas "breves", mas de breve não teve foi nada. Na verdade, eu e o pai do Pequeno não demorávamos muito conversando com os profe's (ao menos essa foi a impressão que tivemos), mas o resto do povo, vou te contar ... não sei se era papo furado ou problemas a serem resolvidos, mas teve gente que quintuplicou o prazo máximo de 12 minutos estabelecidos.

Em resumo, o que nos disseram do Pequeno foi basicamente que estão muito felizes com ele, que ele tem aportado muitas coisas positivas à turma e à escola em geral. Que está super adaptado, apesar de ter chegado quase na metade do ano letivo. Tem conseguido acompanhar e tirado boas notas, algumas razoáveis (dentro da média), mas que os professores confiam que no próximo ano letivo ele irá além. Para algumas coisas ele precisa se esforçar mais (nenhuma novidade - o modo preguiça está sempre ativado), não precisa aulas de reforço, nem mesmo de italiano (eu e meu marido cansamos de perguntar isso para  a professora de italiano e ela sempre respondendo o mesmo: "de maneira alguma! Tem crianças aqui que estudam na Itália desde sempre e tem nível mais baixo do que o dele. Não se preocupem que ele recupera!" - eu e marido nos olhamos com cara de paisagem). Aliás, a mesma professora argumentou dizendo que em geral, quando chegam crianças de fora eles "amenizam" algumas situações, que dão trabalhinhos diferenciados (mais simples)  e que este não havia sido o caso do Pequeno. Deu um exemplo que a mesma ficha de leitura que dá para a turma em geral  deu pra ele também desde o início e fez a mesma avaliação que os demais. Ela viu que ele seria capaz, portanto, não teve grandes privilégios.

Aproveitei para agradecê-la pessoalmente pelo super puxão de orelhas que deu no meu filho (sim, sou desse tipo de mãe!). Uma das minhas maiores queixas com relação aos estudos do Pequeno (além da preguiça, mas tem a ver com) era com questão a sua letra. Mas isso não arrasto de agora, basicamente desde sempre (desde sempre que o menino começou a escrever, óbvio). Por pura preguiça o menino fazia garranchões horrorosos. Posso garantir que todos os dias brigávamos por isso. Só que a resposta dele era sempre a mesma: "a tia não reclama". Cresceu e a resposta mudou só um pouquinho: "a profe não reclama!". Ou seja, aquela história de se esforçar para fazer uma letra bonita era papo de mãe chata. Justificava minha chatice dizendo que primeiro ele precisava se esforçar por ele mesmo. Eu sabia que ele poderia escrever melhor e quando tinha meus ataques de fúria, quando rasgava tudo e gritava feito doida mandando fazer tudo novamente, a letra mudava completamente. Ou seja, ele era capaz. E, em segundo lugar - e não menos importante - por respeito ao professor que era obrigado a ler aquele lixo.

Até que chegamos aqui na Itália. E um dia ele chegou em casa com cara de paisagem e me mostrou um trabalhinho de italiano corrigido, onde a avaliação havia sido péssima. A professora se deu ao trabalho de escrever algumas observações, com letras enormes:

- "Sua letra está horrorosa. Aonde já se viu escrever assim? Pode refazer toda essa porcaria de trabalho."

Era eu. Na versão professora ... Rá! Vocês não imaginam que gargalhada soltei. Quase me ajoelhei e dei graças ao Universo por ter cruzado caminho com essa mulher.

Assim que durante a reunião quase a abracei e disse:

- "Bate aqui, Miga! Tamu junto!"

Mas como nem tudo são flores, todos também, por unanimidade esmagadora, nos disseram que Pequeno fala demais (nada novo!), participa demais, faz questão de ser perguntado sempre e uma professora em especial usou uma expressão que me fez lembrar do meu pai: resumiu Pequeno como "una persona esuberante".

Logo que saimos da escola, perguntei ao marido o que realmente significava esuberante em italiano. Fiquei com a palavra latejando na minha cabeça. Ela iniciou a breve conversa dizendo todos os elogios e logo, como o esperado, disse um "però" (mas). Pra garantir, ele foi pro Google pegar o significado:

esuberante
/e·ṣu·be·ràn·te/
aggettivo
  1. 1.
    Che ha o dimostra un'istintiva, spesso eccessiva, vitalità; vivace, estroverso, brioso, frizzante.



Usando o Google Tradutor:

"Que tem ou mostra uma vitalidade instintiva, muitas vezes excessiva; animada, extrovertida, cintilante."

Mesmo depois de traduzir fiquei com o "frizzante" na cabeça e até brinquei com o marido:

- "Nosso filho é como a água. Natural? Não. Frizzante"

P.S.3: porque aqui na Itália quando perguntam nos restaurantes, por exemplo, se queremos água, sempre perguntam se queremos "naturale" ou "frizzante" (sem ou com gás).



Eu havia entendido isso como uma queixa. Mas depois de buscar o significado real da palavra, não penso que seria de todo negativo. O que limita o significado em positivo ou negativo é justamente o que vem após a primeira vírgula da tradução: " (...) muitas vezes excessiva".

Conversamos com Pequeno e, basicamente, o que tentamos fazê-lo entender é que tudo o que é em excesso não é legal. Resumindo de uma maneira mais fácil para que ele entendesse: amor demais não é legal; sapequice demais não é legal; conversar demais não é legal; participar demais em sala de aula não é legal. Pedi que tentasse achar o equilíbrio entre tudo. Não significa que não quiséssemos que ele interagisse com as pessoas em sala de aula. Ou, que não participe quando veja oportuno. Mas, como tudo nessa vida, era necessário que ele soubesse aonde estava o limite.

O argumento dele foi o de que as professoras perguntam e os colegas não respondem. Então, ele responde. Pronto. 

Talvez, também, uma maneira que ele tenha de fazer ver que, apesar de ter chegado tarde, ele também sabe. Não sei. Até mesmo porque Pequeno sempre foi assim. Sempre gostou de participar das coisas em escola, sempre teve a mão levantada, até mesmo na igreja que frequentávamos durante as homilias do querido Padre Marcos (que fazia questão da criançada participar), quando o Padre fazia alguma pergunta, Pequeno sempre estava lá, de braço levantado e pronto para responder.

Conversar demais também é típico dele. Fala muito, pelos cotovelos. Tem uma facilidade incrível para puxar papo. Quem nos acompanha  já leu muitas histórias sobre isso. É característico dele, faz parte do seu caráter. Não puxou ao pai, que é uma pessoa mais reservada. E é minha versão aprimorada nesse quesito: eu também gosto de bater papo, mas com quem tenho certa confiança. Ele não. Basta a pessoa dar "oi" que ele já sai contando a vida inteira.

Citei meu pai porque essa vontade de falar, esse anseio de protagonismo, o tom de voz alto (a professora de inglês disse que num teatrinho que fizeram os vizinhos do quarteirão inteiro o escutaram!) e o esforço do argumento que Pequeno tem, com certeza herdou do avô. De vez em quando até o chamamos de "Pequeno Valdemir" (P.S.4: Valdemir, o senhor meu pai).

Poxa! Que todos os argumentos negativos da vida do Pequeno sejam, então, esses. Vamos combinar! O menino acabou de chegar, pegou o bonde andando, num idioma totalmente diferente do que ele estava acostumado a estudar (apesar de algumas coisas bem próximas do português, o italiano é uma língua bem difícil, sobretudo a escrita), uma rotina escolar diferente, numa escola bem diferente, numa turma que já estava integrada. Sinceramente se fosse eu tentaria passar o mais despercebida possível. Por outro lado, também entendo que os professores precisam avaliar aos outros e que, provavelmente, mais de um coleguinha deve de ficar aliviado quando Pequeno levanta a mão. "Ufa! Me livrei!", devem de pensar.

Voltamos para casa aliviados. Não que não confiássemos nele ou que fôssemos desconhecedores das capacidades (e incapacidades) e do caráter do nosso filho. Mas, talvez, uma das nossas maiores preocupações como pais em questão a toda essa mudança que fizemos, era a preocupação de como isso iria afetar ao Pequeno, sobretudo com relação aos estudos.

Ainda não sabemos qual será o resultado final. Ainda tem alguns meses de aula e algumas avaliações para serem feitas. Mas, de verdade, neste momento isso não importa. O que importa é que a vida segue, Pequeno, no positivo e no negativo (sendo sarcástica!), segue na sua essência.

Ah! E por falar nisso, a professora de educação física contou uma coisa que a deixou 'maravilhada'. Contou que durante uma das aulas havia uma pessoa ajudando a produzir uma roupa para uma determinada apresentação que eles realizarão. A pessoa (de fora da escola, me parece) ficou num canto da quadra produzindo as roupas enquanto os pequenos faziam atividades. No final da aula, antes de voltar para a sala de aula, Pequeno se dirigiu à essa pessoa para dar "tchau" e disse:

- "Olha! Muito obrigado por ter vindo nos ajudar a produzir as roupas, viu?! Obrigado mesmo pela ajuda!"

De novo meu coração ficou cheio de orgulho e aliviado: a essência de bondade e agradecimento dele segue intacta. Ufa!







Questão de "costume".

- "Mas pra você não vai ser um problema ... você já está acostumada", me diziam as pessoas enquanto organizava mais uma mudança.

- "Você já morou lá, não será um problema ... já está acostumada".

Temos essa mania (disse temos, por isso também me incluo) de definir costume como algo bom, aliviador, prático e resignado.

Mudar não foi um problema realmente. Passamos por momentos de estresse, perdemos noites de sono, nos enrolamos com um monte de coisa, mas não doeu. Talvez, porque estivéssemos "acostumados". Embora me atreva a dizer que você pode mudar trezentas e setenta e oito vezes, todas serão diferentes. A gente vai adquirindo experiência, vai aprendendo a selecionar melhor tudo e vai priorizando o que é fundamental e importante. Mas sempre será diferente. E sempre vai rolar um estresse, mesmo que mínimo.

Sobre "acostumada a morar fora". Não se trata de costume. Se trata de uma bagagem de experiências que a gente vai adquirindo. Mas, acredite, é sempre uma primeira vez.

"Você já morou lá". É. E não é.



Eu já morei na Itália. Após 7 anos na Espanha, tivemos o prazer de morarmos em Roma por 3 anos. O prazer e o desprazer, sejamos sinceros. Se você me acompanha por aqui há algum tempo, sabe muito bem minha relação de amor x ódio com aquela cidade. Passados os anos e as saudades, reconheço que hoje prevalece muito mais o amor. Porque já passei pelo estresse, já vivi, já tive meu momento de adaptação e, uma vez compreendida a bagunça, o caos e o caráter dos romanos, passei a me sentir em casa. E daí peguei minhas malas e fui embora ...

Engana-se quem pensa que chegar no meu país foi aliviador.

Eu nunca havia vivido no Rio de Janeiro. Foi tudo novidade pra mim. Eu não conhecia a cidade, eu não tinha idéia de onde morar. Não conhecia ninguém. Não foi fácil organizar a vida. Demoramos uns dois meses para achar casa e os trâmites burocráticos só não foram péssimos porque tinhamos uma empresa terceirizada (paga pela empresa do marido) que se encarregou de tudo. 

Pulei etapas com a questão do idioma, mas tive que aprender (e uma vez aprendido acabei amando) o carioquêixxxxx. Não. Eu não estava acostumada a viver no Brasil. E quando eu já arranhava vez que outra para falar algum "erre", quando já conhecia metade do bairro, me sentia em casa e sentia que aquele lugar me pertencia ... pegamos as malas e viemos embora. Já estávamos acostumados a fazer isso.

Família, amigos e leitores ... não. Eu não estava acostumada a morar aqui. Nunca morei aqui. E acredite Milão, Monza e Roma são cidades bem diferentes, com pessoas, jeitos e costumes diferentes. Óbvio que não aterrizamos aqui como marcianos que chegam ao planeta Terra, mas quase. Brincadeiras à parte ... até para o marido tudo foi novidade (e ainda está sendo, não estamos acostumados).

A Itália de agora não é a mesma que deixei 7 anos atrás. Os trâmites burocráticos que fiz há 7 anos não são os mesmos de agora. Agora me pareceu tudo mais lento, mais difícil, mais complicado (eu ainda não tenho o Permesso di Soggiorno que é o documento que me permite morar e trabalhar aqui). Não estou ilegal, já dei entrada no pedido. É que, como de costume, as coisas demoram. E estão demorando como nunca. Lembro que da outra vez obtivemos a carteira de identidade no mesmo dia. Dessa vez, tivemos que esperar 3 meses para obtê-la.

- "Tati, você não tem a cidadania?". Não gente. Não tenho. Poderia ter pedido a cidadania espanhola, poderia ter solicitado a italiana, mas não pedi nenhuma das duas. Por quê? Não senti necessidade. Estando casada com meu marido tenho o direito de morar e trabalhar aqui por essas bandas. Nunca senti falta de ter uma dupla cidadania. Enfim ... papo para outro post. Como este já está ficando meio longo, deixa para outro momento.

- "Mas você já está acostumada com o idioma". Realmente não foi difícil como quando morei em Roma. Naquela época não sabia nada além do básico. Precisava do meu marido para traduções simultâneas praticamente todo o momento, sobretudo porque não entendia bulhufas. Passei por alguns momentos de aperto e senti uma raiva danada cada vez que queria mandar alguém para longe e a boca trancava - e isso acontecia praticamente todos os dias. Dessa vez não. Embora com o italiano meio enferrujado e com a mania insistente que tenho de querer falar como uma nativa (e por isso me cobro e exijo mais do que o normal - já estou acostumada), tenho me virado bastante bem. E, caso queiram saber, embora fosse totalmente capaz, ainda não discuti com ninguém. Vim preparada para isso, mas não estava acostumada com tanta educação e cordialidade, mesmo que muitas vezes cínica.

- "Vocês já estão acostumados a viver longe da família". E estamos realmente. Porque mesmo quando moramos em Roma e mesmo no Rio de Janeiro, estávamos longe dos nossos e não os víamos com a frequência que gostaríamos.

Realmente, nisso eu concordo, a gente acostuma com a saudade. Mas acostumar-se com a saudade não significa que a gente a controle ou que ela desapareça. Ela sempre está aí. Tem dias que mais forte, chega avassaladora, faz com que a gente viaje em lembranças antigas, sinta nostalgia até de momentos que pareciam sem importância. A gente fica triste por não compartilhar os bons e se cobra por não estar junto nos maus momentos. Tem outros dias que a gente simplesmente se resigna, reconhece que a opção pela distância também foi nossa e encara a saudade de frente. Fazer o quê?

A gente acostuma a viver sem os sabores. Minhas experiências de antes me provaram que não vou morrer se não beber guaraná, comer açaí, farofa e me ensinaram que posso adaptar o arroz e o feijão com o que encontro aqui. Já não sinto saudade de gostos ... tá bom! Apenas da caipirinha do boteco. Mas nem isso está doendo: meu lugar preferido do supermercado é a sessão dos vinhos. Não me leva pra comprar bolsa nem sapato, me leva para comprar vinho :) Depois de pagar muitos reais por uma garrafa de vinho que aqui custa poucos euros, a gente acostuma com essa facilidade (e felicidade).


Acostumar-se. Pois bem, eu não acho que seja questão de costume. Tudo é novo, é novidade, é diferente, é sempre uma primeira vez. Os lugares não são os mesmos, as pessoas não são as mesmas, os costumes - embora parecidos - são diferentes, nossas realidades mudam e, principalmente, nem nós somos os mesmos. Talvez o encanto esteja mesmo nisso.

Não é questão de costume. Se pudesse definir em uma só palavra (e isso para mim é bem difícil), eu diria que é apenas questão de coragem.



Pequeno foi descoberto.

Recebemos em casa, pelo correio, uma cartinha da  "Direção de Serviços Territoriais de Vacinação", um departamento da secretaria de saúde daqui de Monza, "convidando" os pais do menor Nicola a apresentarem perante este departamento a carteira de vacinação do Nicola, com a finalidade de  verificarem se ele estava em dia com suas respectivas vacinas.

Aqui, como no mundo todo (creio), gira uma polêmica muito grande com respeito à vacinas. De um lado os pais que optam por vacinar seus filhos e, de outro, os pais que tem optado por não vacinar as crianças. Não vou entrar em discussão à respeito, até porque me faltariam argumentos e conhecimento de ambos os lados para debater. Desde sempre optei por dar todas as vacinas necessárias ao Pequeno. Opção nossa como pais, sempre respeitando as demais opiniões, mas sempre atuando de acordo com nosso pensamento.

Pois bem ... por sempre "ter dado todas as vacinas necessárias" acabou que a carteira de vacinação do Pequeno virou uma bagunça. Explico melhor nos parágrafos seguintes.

A primeira caderneta de vacinação do Pequeno foi a espanhola. Quando ele nasceu, recebeu no hospital um livrinho onde constava todos os dados pessoais dele e dos pais, assim como todos os dados a respeito do seu parto. Ali, também, havia um espaço para anotação das vacinas. 



Quando viemos a primeira vez para a Itália, em Roma, fizeram uma nova caderneta para ele (que de caderneta não tinha nada, era uma simples folha), onde organizaram as vacinas já dadas na Espanha e adicionaram conforme os anos correspondentes as vacinas que ele foi recebendo aqui na Itália. A "caderneta" de vacinação era esteticamente feia de se ver (gostava tanto do livrinho!), mas estava organizada e em dia de acordo com o calendário de vacinas da Itália.

Quando chegamos ao Brasil, Pequeno precisou tomar uma vacina que pelo calendário do Brasil deveria tê-la tomado ainda bebê, mas que havia sido abolida há muito tempo nos calendários de vacinação aqui da Europa. Comentei sobre isso nesse post aqui.  Pois bem, depois disso, o calendário de vacinas dele seguiu em dia e foi tomando as vacinas correspondentes de cada ano e cada fase.

Antes de virmos embora novamente para a Itália, aproveitei para dar algumas vacinas que não eram dadas no posto público, mas que nosso plano cobria. A única vacina que ficou faltando e que optei por não dar  foi a vacina contra hpv. Resolvi esperar para ver como funcionava aqui, se era ou não recomendada.



Então que, nuns dois dias após receber a cartinha, resolvi ir no posto daqui, levando Pequeno junto. Caso precisasse colocar algo em dia, seria mais fácil.

Pequeno não foi muito contente. Aliás, já saiu reclamando desde casa (quando era bebê nunca reclamava. Foi só virar pré-adolescente e, pronto ... chatice mode on):

- "Por que a gente tem que ir nesse lugar? Eu não vou tomar vacina nenhuma!"

- "A gente tem que ir porque nos chamaram. E se tiver que tomar alguma vacina, vai tomar sim."

- "Poxa!"

Chegamos e esperamos bons minutos. Pequeno com cara de poucos amigos. Me olhava e dizia baixinho:

- "Eu não quero tomar vacina."

Na trigésima vez que ele resmungou a mesma frase, disse que parasse de "torrar a paciência", que tinha quase certeza de que ele não precisava de vacina nenhuma, apenas tínhamos que apresentar os papéis para que eles vissem que estava tudo ok.

Quando finalmente fomos chamados, entramos os dois para conversarmos com as enfermeiras. Mostrei a cartinha que havia recebido e dei as respectivas cadernetas e folhas de vacinação. Pedi desculpas pela bagunça e expliquei a situação. A princípio estava tudo ok, mas pediram para fotocopiar as cadernetas para, mais tarde, verificarem tudo com calma. Naquele momento estavam com problema no sistema interno e não podiam fazer tais verificações. Pediram e-mail e telefone, me disseram que se tudo estivesse ok enviariam um certificado por e-mail e que se precisasse atualizar alguma vacina, eles avisariam.

Pequeno, já com cara de aliviado, estava se despedindo educadamente das duas enfermeiras que nos atenderam, quando uma delas disse:

- "Ah! Vamos ligar também para marcar um dia para ele vir tomar a vacina contra hpv, pois estamos marcando para todos nascidos em 2007."

Eu deveria ter filmado a cara dele. Me olhou de canto de olho e, quando saímos da sala, me disse:

- "Eu falei! Não era pra ter vindo!"

Dois dias depois recebi o e-mail com a confirmação de que estava tudo ok com seu calendário de vacinação e, no mesmo dia, me ligaram para marcar a data e horário para a vacina.

Tem coisas que eu detesto da burocracia italiana. Mas tem outras que eu adoro. Pequeno, bom ... ele nem tanto ...

Pequenices da Mamãe.

Faz algum tempinho que não apareço por aqui. Tinha um post preparado para o Dia das Mães, mas não deu para publicá-lo. Faltou ânimo, mais q...