quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Vai ser curioso assim lá em ...

Dizem que os italianos são curiosos. Perguntam, perguntam mesmo, sobre tudo.

Lembro que logo quando fui morar em Roma, me incomodava um pouco os questionamentos. Perguntas vindas das mais diferentes pessoas, as vezes estranhos mesmo. Lembro das conversas com a pediatra do Pequeno, que sempre fugia de algum tema médico para perguntar coisas que, ao meu ver - eu sou uma pessoa reservada - não eram necessárias. Lembro das perguntas das senhorinhas na rua, da vizinha que mal dava bom dia mas logo demonstrava interesse em algo sobre minha vida ... enfim ... com o tempo fui me acostumando e passei a achar até engraçadas as dúvidas, que já respondia sorrindo.

Não aprendi muito com eles. Sigo sendo uma pessoa reservada e somente com um grau elevado de intimidade sou capaz de fazer perguntas mais íntimas e pessoais para conhecidos.

Pois bem ... Esse período de 3 semanas de férias na terra da pizza  me fez voltar ao passado e relembrar - pois já tinha até esquecido - o grau de "cara durice", sem vergonhice (no bom sentido da palavra) e curiosidade, sobretudo dos romanos.

Estávamos no aeroporto, vindo embora. Precisávamos passar pelo controle policial. Momento um pouquinho tenso: Pequeno, desde que nasceu, tem as duas cidadanias (brasileira e italiana). O passaporte italiano dele é antigo, ainda tem fotinho de bebê e, não sei porque, não consta no documento a filiação. Isso sempre gera um problema, pois algumas vezes não aceitam o passaporte brasileiro (neste sim consta a filiação), ou carteira de identidade brasileira. Sempre que chegamos levamos um pequeno sermãozinho do atendente de turno, pois o marido já deveria há muito tempo ter inserido Pequeno em seu passaporte (ou seja, no passaporte do marido deveria constar o nome do filho - isso acontece para os filhos menores). Marido sempre deixa para depois e acaba que o depois nunca chega e sempre lembramos disso quando vamos viajar e daí já não dá mais tempo. Para voltar sempre pegamos o certificado de nascimento na cidade onde a sogra mora e Pequeno foi registrado, para evitar problemas maiores.

Para aumentar um pouquinho o momento de tensão, o passaporte do Pequeno está quase vencendo (ainda está na validade, mas faltam menos de 6 meses para vencer). Também não seria um grande problema, já que estávamos voltando pra casa, mas seria outro momento de chatice, explicações e sermões. Tudo dependeria do tipo de atendente que pegaríamos.

Depois da pequena fila, chegou nosso momento. Já cheguei ao guichê com o passaporte brasileiro em mãos, aberto bem na página da filiação e, também, com o certificado de nascimento (que estava vencido - esqueci de contar - sim, somos pessoas enroladas). O atendente pegou o passaporte brasileiro para certificar nome de pai e mãe. Logo, ficou alguns bons segundos olhando para os passaportes, olhava pra gente, virava página do passaporte, olhava pra gente. Fui ficando nervosa. Até que ele diz, em tom sério:

- "Vem cá! Vocês moram no Brasil. A mãe brasileira.  O pai italiano ... o menino nasceu na Espanha. Vocês podem parar um pouco em algum lugar ... ficam girando o mundo ..."

Juro que eu até demorei para assimilar o que ele estava dizendo. Logo, caímos os 4 na gargalhada. O atendente nos desejou boa viagem e seguimos nosso caminho.

- "Que simpático! E curioso ele, né?!" 

Chegamos, finalmente, ao lugar que mais amo dos aeroportos: Duty Free. :)

Apesar de saber que minha felicidade duraria quase nada (com o Euro pisoteando em cima do Real, não ia dar pra comprar muita coisa), fui bisbilhotando as prateleiras, tentando achar meu objeto de desejo de compra. Não. Não era um óculos, ou perfume, ou maquiagem ... era bebida mesmo. Não saio de um Duty Free sem comprar um vinhozinho, licorzinho ou Baileys. Dessa vez queria só o Baileys mesmo. Vinho já estava trazendo na mala.

Achei o preço um pouquinho salgado (mas sempre mais em conta do que se fosse comprar aqui no supermercado). Resolvi bisbilhotar em outro Duty Free que eu achava que seria mais em conta. Não achei o Duty Free - me equivoquei de terminal. Pra não ficar dando voltas pelo aeroporto com mochilas e Pequeno resmungando, fiquei sentadinha e marido (que é um anjo!), voltou ao Duty Free para comprar meu Baileys.

Ao chegar no caixa, a moça do Duty Free olhou bem séria pra ele e disse:

- "Ah! Vai comprar um produto italiano! Cheio de produto italiano aqui e você compra isso que é irlandês?"

Marido sorriu e disse que a mala já estava cheia de produtos italianos. O Baileys era pra mulher que é viciada nele.

- "Simpática! E curiosa ela, né?!"

Até o italiano estranhou tamanha cara-de-pau.

Mas quer saber ... eu, depois de muito tempo, tenho que reconhecer: eu também acho o máximo! Quando eu crescer, quero ser assim de curiosa.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Nós e Roma.

Estamos de férias na casa da nonna, curtindo a família, matando saudades de pessoas, de paisagens e de gostos. Chegamos há alguns dias e estamos aproveitando ao máximo tudo o que podemos.

Assim como em todos os outros anos que viemos de férias pra cá, desde que fomos embora da Itália, a história se repete. A gente sempre  tira uns dias para passar em Roma. Logo, quando pegamos a A24 de volta para casa da nonna, dizemos: "essa foi a última vez!".

Moramos em Roma por 3 rápidos anos que, parece ser,  não foram suficientes para aproveitar tudo da cidade. Por isso, desde que partimos, em todas nossas viagens de retorno para visitarmos a família,  sempre aproveitamos para dar uma escapadinha na Capital dos italianos.

Quase sempre ficamos  hospedados na mesma zona.  Quase sempre comemos (e bebemos - nem sempre nessa ordem) nos mesmos lugares. Compramos nas mesmas lojas. Fazemos os mesmos trajetos. Damos um jeitinho de passar rapidamente por nosso antigo endereço, morremos de inveja daqueles que agora aproveitam a nossa bella sacada.  Passamos pela antiga escola do Pequeno, relembramos sua antiga professora e relembramos histórias dos antigos colegas.



Quase sempre a gente se irrita com a quantidade de turistas pelas ruas (e esquece que, embora conheçamos muito bem a cidade, agora fazemos parte do mesmo time deles). Reclamamos do calor insuportável de Roma (quando é verão) e do frio  (quando é inverno).



Quase sempre essa é nossa rotina de nostalgia por Roma.

Apesar de no ano passado termos jurado que não iríamos mais pra Roma ... "Chega!  Já deu! Sempre a mesma coisa!" ... neste ano, na primeira oportunidade, pra onde a gente foi? Bingo!



Não tem como não ir. É nossa segunda casa. E, apesar do calor quase insuportável, das ruas repletas de turistas que se misturam com os moradores por vezes estressados,  apesar do trânsito caótico, não tem como vir à Itália e não dar uma passadinha (mesmo que rápida) pela Via del Corso, parar nas escadarias de Piazza Spagna, passar pela Fontana di Trevi e observar as centenas de turistas que se aglomeram com suas respectivas moedinhas e desejos. Cruzar pelo Pantheon, dando uma paradinha estratégica para admirar a paisagem e, quem sabe, se não for lunedì, comer um delicioso gelato  di cassata na sorveteria logo ali ao lado (dessa vez dei azar porque era lunedì). Almoçar no restaurante de sempre (que dessa vez também estava fechado porque, assim como a sorveteria, não  abre nas segundas-feiras), ir no pub de sempre, jantar em Trastevere e, antes de dormir,  beber um vinhozinho em Campo de'Fiore.





De novo a gente prometeu que " Deu!  Chega! Sempre a mesma coisa! Ano que vem a gente não vem!". Mas a gente sabe que,  mesmo rapidinho,  ao menos uma noite a gente vai. Afinal, todos os caminhos levam a Roma ... 















quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vovó Duti no Errejota.

Vó Duti, minha mãe, veio passar uma semaninha conosco. Visitinha rápida, quase "de médico", mas foi suficiente para dar gás e ânimo ao coraçãozinho dela e ao nosso.

Minha mãe vive em função do meu pai e, desde algum tempo, digamos, a rotina deles é bem pesada. Preocupações, doenças, estresses (com ou sem motivo), enfim ... coisas da vida. Porém, não reclamamos não. Ambos já passaram por algumas situações de saúde que me fazem simplesmente agradecer por tê-los quase firmes e fortes. 

Meu pai faz diálise 3 vezes por semana. Ele até poderia ter vindo junto, mas isso implicaria burocracia para encontrar uma clínica aqui e, tenho certeza, ele não iria gostar dessa função. Já está acostumado com o local onde faz, as enfermeiras, os colegas "de turno". E, sinceramente, morreria de medo de levá-lo aqui. Nem sempre ele sai das sessões 100%. O psicológico dele tem contado muito também, estar longe dos outros 4 filhos também seria um problema. Ou seja, função demais para apenas 1 semana.

Mas, se o vovô não pode, a vovó pode. E ela estava precisando de uns dias de descanso e relax.

Pequeno ficou muito ansioso pela chegada da vó. Foi comigo esperá-la no aeroporto e enquanto a aguardávamos no desembarque roeu unhas, balançou as pernas, andou de um lado para o outro e olhava com atenção todo mundo que saía pela porta.

- "Cadê ela?", perguntou umas 30 vezes.

Até que "ela" chegou.

Pequeno já está quase do tamanho da vó

Desde então foi bombardeio: de conversas, de histórias, de abraços, de mãos dadas e de carinho. Grudou mais do que carrapato.






Levou a vó para sua escola, levou a vó para missa, para a festa junina do condomínio, apresentou para os amigos, levou a vó pro shopping e caiu na risada do medo da vó ao subir na escada rolante. Riu do "sonho" que a vó tinha de comer no Burguer King e da falta de habilidade que a vó tem para mandar áudios no WhatsApp. Coisas que pra gente são corriqueiras, mas que para uma senhora de 78 anos, nada amiga da tecnologia e que mora no interior, não são tão simples assim (pela primeira vez ele percebeu que onde a vó mora não tem escada rolante - e nem Burguer King).

A vó, como sempre, teve uma paciência gigante com ele e se meteu e o defendeu em todas as nossas brigas. Disse que gostaria que ela tivesse tido essa paciência comigo quando era pequena. Ela sorriu e disse que já nem lembrava disso. Talvez desculpa esfarrapada da senhora idosa, talvez ela já nem lembre mesmo. Espero que com o tempo e com a idade meu coração amoleça também.



Caminhamos um pouquinho, bem menos do que gostaria e bem mais do que as perninhas dela aguentaram. Passeamos um pouco (o que deu, com o tempo corrido e com a função da escola do Pequeno). Na verdade ela não quis fazer muita coisa. Passeios turísticos típicos do RJ ela não queria, afinal de contas já conhecia (não era sua primeira vez aqui). Com muito custo consegui levá-la um único dia para caminhar por Copacabana. 

Também consegui levá-la em um lugar que ela ainda não conhecia: o AquaRio. Vi seus olhos brilharem de encantamento e curiosidade, mais que os do Pequeno. Se encantou com os peixinhos. 



Torcemos juntos pelo Brasil e sofremos com sua derrota. Mas onde ela mais se divertiu mesmo foi na Saara. Pra quem gosta de muvuca e de compras é o paraíso. Pra mim, particularmente, é um dos locais "menos preferidos", digamos assim. Mamãe adorou e não sabia aonde entrar e nem pra onde olhar. Aguentei firme e forte, como uma boa filha. Mas na primeira vez que ela disse um "vamos?", quase saí arrastando a senhora idosa minha mãe pelas ruas (vai que ela desistisse e quisesse olhar "só mais uma coisinha"?). Procurei logo um táxi, mas ela inventou que queria vir de metrô. Não. Também não tem metrô em Osório ... pra ela isso também é novidade e aventura. Claro, ela voltou bem sentadona no seu assento preferencial. Eu tive que aguentar o trajeto em pé mesmo, segurando suas sacolas.

Mas nos divertimos, conversamos, aproveitamos muito a companhia uma da outra e Pequeno,  entre uma massagem e outra - todas as noites fazia massagem nas pernas da vó - espertinho, aproveitou a companhia e a presença da vó para se livrar de alguns puxões de orelha.



Pena que tudo que é bom dura pouco. Mas a vó já estava com saudades de casa - e do vô, principalmente - e logo voltou para o frio do Sul. Pequeno até fez um vídeo pra família dizendo que sequestraria a vó, mas não deu muito certo seu plano.

A gente apenas agradece ao Papai do Céu  por mais essa oportunidade de tê-la conosco. Ainda teremos muitas aventuras de Pequeno e Duti - dona Laura, minha mãe - pra contar aqui no blog, com certeza.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Sobre sonhos, sobre frustrações, sobre dar passos para trás.

Este ano, no quesito maternidade e paternidade, foi bem complicado para nós (eu e marido). O ano nem acabou, mas já escrevo assim foi, na esperança do "pronto, já deu". Aquela velha história de que "criar filhos é como jogar vídeo game: cada fase é mais difícil". Já me dá até medo de reclamar pois, vai saber o que o futuro me reserva? Mas a verdade é que este momento nosso, meu, do marido e do Pequeno, tem sido meio complicado.

Pequeno ainda é um projeto de gente, mas está crescendo, um pré-adolescente (com muito orgulho, diz ele) que segue conservando muitas coisas que admiro, como o coração bondoso, a simpatia e o respeito pelas pessoas. Mas é um "projeto de homenzinho" (assim ele vai gostar mais) com caráter e decisões próprias e  com manias e preguiças que tem me dado nos nervos.

Pequeno tinha o sonho de estudar no Colégio Militar. Desde algum tempo vinha dizendo isso. Um pouco por vontade própria, um pouco pelo desejo de copiar alguém que ele admira muito (o tio Beto), um pouco porque a dinda, a Beta e a Laura também estudaram lá.

Ok. Beleza! Chegamos, então, no momento crucial. Entrar no CM é bem difícil, sobretudo no do Rio de Janeiro. Tem uma demanda absurda de filhos de civis querendo entrar lá. Principais motivos: qualidade de ensino, baixo custo, disciplina. Para entrar lá é preciso passar por um processo de seleção bem complicado e exigente, diga-se de passagem. Então, para isso, era necessário um processo preparatório. Basicamente se resumia em: cursinho extra, fora da escola, preparatório para as provas de Matemática e Língua Portuguesa. Exigia esforço por parte dele para com os estudos, esforço de nossa parte, para levá-lo e buscá-lo (o curso era longe de nossa casa, não temos carro e dependemos de transportes públicos para o trajeto) e investimento financeiro (que não era pouco).

Fizemos nossa pequena reunião familiar para conversarmos a respeito. Supostamente este era o sonho dele, então, eu e marido faríamos o possível e quase o impossível para que ele, ao menos, tentasse realizá-lo. Sabíamos que o resultado positivo seria bem difícil, dependia de muitas coisas.

Então, desde final de janeiro passado, nossa rotina passou a ser cansativa. Por vezes, exaustiva. O curso começou, foi puxado, muita matéria dada de forma intensa e corrida. Precisava muito da parte dele, para se organizar e tentar entender matérias que, na escola normal, ele aprenderá somente no próximo ano. Muitos deveres (muitos mesmo) e quase zero de tempo para brincar, jogar, assistir tv ... ser criança. Logo, iniciou a escola, que também é puxada. Mas neste ano, mais do que nunca, quase massacrante quanto a quantidade de matérias e deveres. Fora isso, curso de programação, Inglês, natação e, posteriormente, por insistência do Pequeno, iniciou um curso de desenho.

O curso de programação logo foi pro saco. Achamos melhor cancelar a matrícula. Pequeno já não demonstrava tanto interesse e estava precisando de tempo. Natação e Inglês eu, particularmente, faço questão de que ele siga. Um por necessidade fisiológica; outro, por necessidade de futuro mesmo. A gente sempre quer o melhor para os filhos. Eu até hoje vivo na enrolation com relação ao inglês. Marido passou por maus bocados, se virando em Londres, com 18 aninhos. Penou um pouquinho trabalhando de tudo um pouco, até que aprendesse razoavelmente a língua para, logo, conseguir empregos melhores. Tentando preservá-lo de alguns apertos no futuro, a gente tenta dar uma oportunidade melhor da que tivemos. Queremos que ele se vire sim, por aí nesse mundão a fora. Mas, convenhamos, se souber inglês vai facilitar muito. 

Bom, o curso de desenho também não rendeu muito. Na verdade, acho que Pequeno ia para as aulas mais como relações públicas do que desenhista. Ele gostava de "ficar com a galera". Não tínhamos nem tempo e nem dinheiro sobrando. Assim que, desenho foi pro saco também.

As primeiras provas e simulados do cursinho vieram. As notas foram assustadoramente ruins. Beleza! Era o esperado. Afinal de contas, se ele soubesse tudo, não teria nem sentido estar ali. Eram matérias que ele não havia visto nunquinha, até o momento de sua vida acadêmica. Um pouco de paciência, um pouco de esperança e ... seguimos em frente. Todos tínhamos um objetivo em comum: fazer o máximo possível para que Pequeno conseguisse realizar seu sonho.

Os dias, meses, foram passando. O desgaste físico dele e nosso foi aumentando. Parecíamos zumbis aos finais de semana (as aulas eram aos sábados), nossa vida basicamente se reduzia a levar Pequeno pra cima e pra baixo, estresses com deveres e cansaço, muito cansaço. Novos simulados, novas notas baixas, Pequeno passou a acumular deveres (do cursinho e da escola) e, o ponto crucial: o rendimento na escola foi baixando também.

Era demais para um menino de 10 anos. Era cansaço demais, estresse demais, choro demais (porque tínhamos broncas diárias), era desespero quase (porque ele tinha o sonho, mas estava vendo que não seria capaz de atingi-lo), era a sensação de que o dinheiro estava indo pelo ralo (a partir do momento em que a gente percebe que o dinheiro não é mais tratado como um investimento mas sim como um gasto, as coisas mudam bastante).

Eu e marido percebíamos que as coisas não estavam indo bem. Mas tínhamos o dilema entre acabar com aquele estresse de uma vez ou, dar pra ele o exemplo de que na primeira dificuldade a melhor solução era desistir (e isso não queríamos de jeito nenhum) e até aonde nós mesmos seríamos capazes de fazer quase o impossível para que o sonho do nosso filho fosse realizado.

Até que nos demos por conta de que esta primeira grande frustração seria importante, também, para o crescimento pessoal dele. Nem sempre as coisas dão certo. Nem sempre realizamos os nossos sonhos. E temos sim que arcar com as consequências quando não damos o melhor de nós e não nos esforçamos o suficiente. Tiramos de nossas costas aquele peso pelo resultado negativo. Ele não era nosso. Fizemos o que foi possível. O resto dependia única e exclusivamente do Pequeno. Se ele não teve maturidade o suficiente, se não se esforçou o suficiente, se não foi o suficientemente sincero consigo, o problema já não era mais nosso.

Já passados da metade do caminho, resolvemos parar ... e desistir. Deu. Acabou. Para que seguir insistindo em algo que tínhamos a certeza de que não daria o resultado desejado? Demandava coisas muito importantes: nosso tempo, nosso dinheiro e nossa saúde (até isso já andava (me) afetando).

Então, para nossa surpresa, descobrimos que, talvez, o sonho nem fosse tão sonho assim. Quando decidimos cancelar sua matrícula no curso, num primeiro momento Pequeno chorou rios de lágrimas, fez um draminha tipicamente dele. Mas, para nossa surpresa (e reconheço, até negativa), no dia seguinte, ao invés de insistir, jurar um esforço e empenho absurdos (que sabíamos que não seria verdade), afinal de contas era a "realização do seu sonho" que estava em jogo, Pequeno acordou tarde, como se nada tivesse acontecido na noite anterior e, preciso dizer, até um pouco aliviado.

Novamente sentei com ele para uma conversa séria. Já não tinha mais volta, já não era para reprovar, cobrar, criticar nem  nada do tipo. Foi simplesmente para dizer que, talvez, naquele momento ele não estivesse se dando por conta, mas que num futuro, ele teria a sensação de tempo perdido. Pelo que fez, pelo que deixou de fazer e pelo que poderia ter feito a mais. Só ele seria capaz de saber o tamanho daquele sonho, mas que o esforço ou a falta dele para realizá-lo havia dependido única e exclusivamente dele. Comentei que uma das piores sensações que uma pessoa pode ter na vida é o arrependimento por não ter feito algo. Que aquilo pesaria sim na sua consciência.

Não disse tudo isso por fazer questão de torturá-lo, mas com o intuito de fazer ver a realidade e saber que este arrependimento ele levaria para sempre. A vida é assim. Todos temos arrependimentos. Alguns maiores, outros menores. O tamanho do arrependimento dele será proporcional ao tamanho do sonho que deixou de, ao menos, tentar cumprir. E isso já não seria mais um problema nosso (meu e do pai dele).

Mostramos pra ele, financeiramente, o quanto foi custoso para nosso orçamento familiar. E falei a verdade: que estava decepcionada com ele. Eu sabia que seria difícil, que a aprovação seria quase questão de "milagre", mas que minha maior decepção foi com a falta de empenho dele e, talvez, com a falta de sinceridade. Eu confiei nele, porque eu acreditava nele, na sua capacidade e no seu esforço. E deixei bem claro que eu ainda confio nele e sei que ele será capaz de realizar sonhos realmente verdadeiros e importantes. Mas que era preciso que ele, então, passasse a acreditar em si.

Eu sei que ele não tem - ainda - maturidade suficiente para tomar decisões importantes. A aprovação ou não aprovação não vai afetar em nada seu futuro e os sonhos e desejos de futuro e quem ele pode chegar a ser. Mas ele precisava aprender que nossa vida será sempre feita de desafios. E se queremos ser pessoas capazes e se desejamos proveitos financeiros e pessoais, precisamos de luta, de empenho, de perseverança, de proatividade, de esforço e, sobretudo, sabermos reconhecer os esforços dos outros em prol de um objetivo nosso.

E por que estou escrevendo tudo isso? Talvez por desabafo. Talvez por deixar registrado aqui, já que Pequeno adora ler o blog e tem um carinho imenso por sua história que fica aqui registrada. E também porque vi ontem na internet um vídeo que me fez relembrar todo este momento que foi bem turbulento (ainda estamos em processo de readaptação).

Precisamos fazer com que nossos filhos saibam lidar com a frustração. Com tudo o que ela significa. Precisamos fazê-los entender que as coisas nem sempre são como desejamos. Muitas vezes a nota da prova não é suficiente porque faltou esforço, muitas vezes brigamos com os amiguinhos porque somos chatos e eles não nos suportam (e eles nos dizem isso), a gente vai brigar com namorado(a), vai perder emprego, perder pessoas, nossos planos não vão dar certo. E a nossa única saída vai ser aprender a lidar com tudo isso.



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Pequenices ... de junho.

- "Ow, mãe! Tu sabia que um dia eu fui um espermatozoide?"

Em Ciências eles estudaram aparelho reprodutor. Já estava preparada psicologicamente para perguntas do tipo e até achei que elas estavam demorando para aparecer.

- "Na verdade, tu foi a união entre um espermatozoide e um óvulo. Espermatozoide correu, chegou no óvulo, entrou nele e ... pá ...  fecundou."

- "É. Na verdade eu fui um espermatozoide e um óvulo."

E seguiu:

- "Quando eu era um bebê dentro da tua barriga eu era muito feio. Parecia um ET! A gente primeiro parece uma coisa, sei lá, com uma forma estranha, depois vai crescendo, fica que nem tamanho de grão de arroz, depois ervilha, daí cresce, cresce, cresce e nasce."

- "É."

- "Por que tu não quis parto normal?"

- "Eu queria parto normal."

- "Ahhh, é verdade! Eu é que tava do avesso, né?!"

- "Do avesso não,  menino. Tu estava encaixado ao contrário, sentado."

- "É. Tava lá bem de boa, sentadão ..."

Cabecinha acelerada em pensamentos. Essa matéria ainda vai render muitas histórias ...


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- "O Murilo tem quantos anos?" - Murilo, Lilo para os íntimos, primo do Pequeno.

- "14 anos".

- "Nossa! Que sorte que ele tem. Já passou da fase da puberdade ..."

Eu mereço.

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- "Ow, mãe! Meu amigo falou que tem umas coisinhas, tipo barba aqui no meu rosto."

- "Não é verdade. Sossega o facho que não tem nada aí ainda."

- "Ahhhh, eu queria já estar na puberdade. Ter pelinho no sovaco, essas coisas. Não que eu não goste da minha infância ... não é isso. Mas eu já queria entrar na adolescência."

Ah, rapaz! Não tenha pressa.

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Exames recentes indicam que, infelizmente, muito provavelmente, Pequeno tenha herdado de mim - que, por minha vez, herdei de minha mãe - uma doença congênita: a hipercolesterolemia familiar. Nomezinho difícil que basicamente significa colesterol alto de herança genética. No meu caso, já faço tratamento com medicamentos que os terei como companhia para o resto da vida ( e resto da vida é muito tempo). Não afeta basicamente nada na minha rotina (como e bebo tudo o que quero - dentro de um certo limite saudável, óbvio),  afeta apenas no bolso mesmo, porque o treco é caro pra caramba.

Pois bem, Pequeno fez exames e já demonstrou índices altos de colesterol para a idade dele e um dos exames pedidos indica que ele tem grande probabilidade de padecer a hipercolesterolemia. Mas, por enquanto, nada fora do controle. Uma dieta balanceada pode ser uma boa aliada.

Mas fiquei neurótica com a alimentação do menino. Pequeno, em geral, se alimenta bem. Tem comido bastante, come verduras, frutas, arroz, feijão, ovo, leite ... aqui em casa não tem essa história de "não gosto". Primeiro precisa provar para, logo, decidir se gosta mesmo ou não. Mas Pequeno adora doce, biscoitos, croissant de lanche antes da natação (papai é coração mole e libera geral)  e chocolate é o seu ponto fraco.

De uns tempos pra cá, tenho tentado tirar certas coisas da sua alimentação. Tipo o leite e biscoito de todas as manhãs (e, de vez em quando, à noite também).

- "Vamos trocar essas porcarias por um leitinho, pãozinho integral com queijo, frutinhas ... e antes da natação nada de porcaria. Come fruta. Se não tiver fruta, não come nada."

- "Como assim, meu leite e biscoito? Por quê?"

- "Porque sim. Porque eu não quero que tu fique doente, dependendo de remédio para controlar essa droga de colesterol."

- "Mas mãe ... eu sou uma criança!"

- "Crianças também ficam doentes."

Alguns segundos de pausa e ele disse meio furioso:

- "Então agora preciso ficar sarado, ser fitness, parar de comer carne e virar vegano que nem a Dinda?"

Ah, pois! Quem sabe?! Antes de ser "sarado" eu prefiro que seja saudável. Isso sim, com ou sem biscoito ele é muito do exagerado ...