sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Pequeno Olímpico.

Assim como boa parte da população, não estou em "clima olímpico". Por vários motivos - e, sobretudo, pelo que se refere à instabilidade política e econômica por qual estamos passando - acredito que este não tenha sido o melhor momento para ter uma Olimpíada aqui.

Moro no RJ há quatro anos e há alguns meses notei uma diferença tremenda na rotina de vida daqui. Me sinto mais insegura. Você pode até dizer "Rio de Janeiro sempre teve fama de ser uma cidade insegura". Pois é. Sempre teve fama, mas eu não tinha medo. De uns tempos pra cá, tenho medo sim de sair na rua, controlo trajetos e horários para evitar possíveis incomodações, temos uma lista enorme de amigos e/ou conhecidos que já passaram por uma situação de violência (e o ridículo é a gente se achar "sortudo" por não ter sido a "próxima vítima").  Estamos passando por um caos na economia, com preços absurdos da alimentação mais básica: leite, feijão, carne ... preços nas alturas. Saúde pública ... isso nem se fala. Quando lembro que meu filho na Itália frequentava uma escola pública e de excelente qualidade, tenho vontade de me esbofetear.

Mas ... enfim ... quando se fala em Olimpíada no RJ eu, no meu mundo de adulto egoísta, vejo apenas negatividade e penso em todas as prioridades que tínhamos (e temos) antes de investir em uma Olimpíada.

Mas daí, de repente, aparece Pequeno com seus olhos brilhantes, cheios de orgulho e felicidade por estar vivendo numa cidade sede de Olimpíada.

- "Mãe! Como não ser feliz por isso?"

Quem sou eu para tirar essa ilusão de uma criança? Quem sou eu para não permití-lo viver e presenciar tamanha felicidade?

Quando cheguei em minha sala e me deparei com toda a decoração cuidadosamente projetada, idealizada e realizada por Pequeno, me senti ridícula por não contribuir com sua ilusão olímpica:



Meu menino criativo fez até sua própria tocha olímpica:


Quem sou eu pra tirar dele a ilusão de vestir verde e amarelo? De sair por aí com o nome do seu país estampado no peito? Quem sou eu pra tirar dele a ansiedade por encontrar atletas pela rua? A alegria de ver pessoas do mundo inteiro passeando por aí?


Quando vi a tocha que ele fez, disse:

- "Vamos pra rua tentar ver essa tocha de perto?"

- "Sério, mãe?"

- "Sério, filho!"

Quase oito horas da noite, lá fomos nós para Copacabana esperar a passagem da tocha. Ninguém sabia direito o trajeto, ninguém sabia direito o horário, mas sabia que passaria por ali.




Caminhamos pelo calçadão, nos divertimos com os turistas de todos os lugares possíveis, fizemos amizade com várias pessoas que estavam por ali esperando pela tocha também (como Pequeno adora bater papo com as senhorinhas que encontra pela rua! Basta apenas um sorriso que ... pronto ... ele desata a bater papo e já vira amigo íntimo).





Cansei da espera e pensei muitas vezes em desistir ... mas Pequeno estava ansioso e feliz. Assim que não arredamos pé do calçadão.

Lá pelas 11 e tantas da noite, cansaço batendo e uma brisa fria de beira de praia congelando pés, pernas e braços, alguém disse que o trajeto não seria por ali onde estávamos. Mudamos nossa localização e, com sorte, encontramos um local vip, com direito a muretinha para assistir do alto, com a proteção de policiais estrategicamente posicionados ao nosso lado. De quebra, acompanhava pelo rádio dos policiais as informações sobre a chegada do tão esperado "fogo".

Lá pela uma da manhã, finalmente, conseguimos ver de pertinho a passagem da tocha. Eu estava morta com farofa, não consegui tirar uma foto que prestasse e fiz um vídeo onde se vê tudo, menos a tocha ... mas Pequeno seguia animado e emocionado, viu tudo de perto, saltava, gritava e agitava uma tocha de plástico que ganhou de um dos patrocinadores do evento.


- "Mãe! Muito obrigado por ter me trazido pra cá ... tô bem emocionado. Realizei um sonho!"

Ah! Vamos combinar ... quem sou eu pra tirar dele essa alegria, felicidade, orgulho e ilusão?

Com um pouco de sorte, conseguimos encontrar a tocha hoje novamente. Não basta ser mãe ... tem que manter viva a chama da felicidade :)


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