sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Peru: Parte 2 - Machu Picchu

Sempre ouvi falar da "energia de Machu Picchu". Ficava pensando no tipo de energia e no tipo de sensação possível de sentir. Será que era um lugar que, de cara, deixava os pelos arrepiados? Seria daqueles lugares onde o silêncio era necessário (do tipo, "cala boca e só observa?"). Algum raio de sol que descesse diretamente no meio da moleira de cada visitante? Um lugar aonde descarregássemos todos os maus fluidos e energias negativas e instantaneamente fossem substituídos por novas forças, motivações, esperanças e a consciência de que dias melhores virão? Então ... eu não esperava nada disso ... e esperava muito mais.

A partir da região de Cusco e cidades vizinhas, pode-se fazer diferentes trajetos (todos em trem) até Águas Calientes (Machu Picchu Pueblo). Nós preferimos pegar o trem na estação de Poroy, tanto para ida quanto para volta. Foi a melhor opção de horários que achamos (lembrem-se: tínhamos um Pequeno companheiro de viagem e era preciso fazer tudo com calma e dentro de certos limites).




O trajeto durou em torno de 3 horas, uma viagem tranquila e muito bonita. São Pedro ajudou e nos concedeu um dia lindo e ensolarado, propiciando belas paisagens. Estava cansada, tentava aproveitar a viagem (até porque nossa volta seria durante a noite e não poderia apreciar nada do outro lado da janelinha). Mas já no finalzinho da viagem caí num soninho recompensador, momento em que pai e filho fizeram um book do meu sono. (só perderam tempo, porque quem edita e publica as fotos sou eu ... rá!)


P.S.1: a foto não saiu muito nítida, mas se você olhar bem nessa montanha, verá logo ali na direita, grudado na pedra, algumas espécies de "cabines". Basicamente é um hotel encrustado na montanha. Você escala a montanha, chega no hotel e fica lá hospedado, apreciando a vista. Mais informações e fotos mais detalhadas, basta clicar aqui.



P.S.2: para os mais aventureiros, o trajeto também pode ser feito a pé. Leva 4 dias, 3 noites. Esse pessoal aí da primeira foto acima estava apenas começando essa aventura. Não se preocupe que existem pessoas que carregam os mantimentos e, caso seja necessário, carregam sua mochila também ;)






Nosso quarto ainda não estava disponível no hotel (achei uma grande sacanagem!). Deixamos as mochilas na recepção e fomos caminhar pela pequena cidade. Não gostei de Águas Calientes. Achei um absurdo de caro tudo, desde hotéis, souvenirs, restaurantes então ... nem se fala! Do tipo "tem de tudo um pouco": cozinha peruana, mexicana, fast food, tudo junto, misturado, com o mesmo gosto de nada e caro pra caramba. Ao acaso, descobrimos um restaurante italiano. A primeira coisa que meu marido faz quando vê um restaurante italiano é prestar atenção se as coisas em italiano estão escritas bem.

- "Olha! Tá escrito direitinho!"

Já estávamos cansados e resolvemos entrar. A princípio era para comermos pizza. Mas logo vimos o menú, fiquei de olho nos pratos que passavam e acabamos comendo pasta. Estava uma delícia. Acabou que o italiano foi nossa opção no segundo dia também.



Voltamos para o hotel para descansarmos. O dia anterior havia sido agitado (havíamos feito o passeio ao Valle Sagrado) e o dia seguinte prometia ser, no mínimo, emocionante (iríamos finalmente conhecer o tão esperado Machu Picchu).




E para relaxar, nada melhor do que curtir as águas termais. Uma cidade que se chama Águas Calientes, com certeza tinha uma terma de relaxar até o último ossinho do esqueleto. Pra resumir: foi a maior furada de toda a nossa viagem. Uma água suja, podre, fedorenta, piscininhas super pequenas e super lotadas. Olha, sinceramente eu não tenho frescura com praticamente nada (óbvio que como qualquer pessoa de bom senso, tenho meus limites), mas naquele dia fiquei com nojo. Juro! Deu até vontade de vomitar! Cada vez que Pequeno mergulhava naquela banheirinha, era um dia a menos de vida contabilizado pra mim. Pior ainda foi no dia seguinte, voltando para Cusco no trem, lembra da guia que comentei no post anterior? Pois bem ... ela contou que realmente não era um lugar muito recomendado, digamos assim. Aí sim meu estômago se revoltou. Resumindo o resumo: não! Você não precisa ir nas termas de Águas Calientes. Se quiser relaxar, abre o chuveiro do hotel mesmo e deixa cair um pouquinho de água nas costas enquanto pensa na vida.

[vergonha alheia dos pais: na bilheteria das termas estava escrito que crianças até 7 pagavam apenas 5 soles. Já cansados de gastar dinheiro com preços absurdos, decidimos falar que Pequeno tinha 7 anos - eles não pediam documentação nenhuma para comprovar. Foi só terminar a frase e Pequeno grita: "Ei, eu tenho 8 anos, daqui a pouco vou fazer nove!". Vergonha, minha gente! Vergonha! Nem dá pra dizer que queríamos comer o fígado do menino, porque ele tinha razão. Nunca faça seus filhos passarem por uma situação constrangedora dessas! P.S.: ganhamos o desconto.]

Fiquei de mau humor com aquela água cor de chocolate e cheiro de enxofre. Acabamos escolhendo qualquer lugar para comer e entramos numa segunda furada da noite. A pior comida de toda a viagem e ainda tentaram passar a perna na hora de pagar a conta. Deixei o marido se acertando com o pessoal do restaurante e fui sentar no banquinho da praça. Á essas alturas, Pequeno já tinha feito amizade com uns meninos que estavam brincando na praça, correu, brincou, suou e gastou energia por um bom tempo.

Foi interessante ver a facilidade do nosso Pequeno para se comunicar. Falava bonitinho, um espanhol com seus errinhos, claro, mas se comunicava muito bem. Me surpreendeu!

Na manhã seguinte acordamos cedo (por volta das 4:30hs), queríamos tomar café da manhã no hotel por volta das 5hs para irmos pra fila (que diziam que era enorme) dos ônibus que nos levariam para o parque do Machu Picchu. O café do hotel demorou (falaram que seria numa hora e não foi, não tinha quase nada de comida quando descemos ... enfim ... acabamos escolhendo um hotel "melhorzinho", mas ele não foi tão melhorzinho assim). Chegamos no local onde saem os ônibus por volta das 6hs da manhã. E sim, a fila realmente era enorme, enorme mesmo, quase desanimadora. Meus planos de ver o nascer do sol do alto das montanhas tinham ido por água abaixo.




Mas a fila andou relativamente rápido e uma hora depois, estávamos os 3 bem sentadinhos dentro do ônibus.

Senti um certo friozinho na barriga, pelo trajeto em si, que passa por alguns desfiladeiros perigosos e pela ansiedade de chegar logo e ver toda aquela famosa beleza de perto. Umas 7 horas da manhã já estávamos no parque ... e o parque já estava repleto de gente (muita gente mesmo! Acho que todo mundo tem a "brilhante" idéia de ver o nascer do sol).

Já não tinha mais mapa do parque e acabamos indo visitar os pontos importantes por nossa conta mesmo. Caminhamos muito, subimos muito, descemos também, subimos novamente. É muito cansativo. É preciso fazer tudo com calma, tempo e paciência suficientes para poder curtir e apreciar tudo o que temos diante de nossos olhos. Ainda tínhamos uma preocupação extra: ficar de olho no Pequeno que insistia em sair correndo pela frente agarrado num galho encontrado logo na entrada do parque e que foi seu companheiro durante boa parte do percurso - até que ele o deixou cair em um barranco (e, logo, queria "descer ali" para buscá-lo ...). Existem muitos barrancos, é super perigoso, quem vai pra lá com criança precisa de cuidado redobrado. Expliquei da maneira mais simples: "Procura sempre andar pela parede, ali tem um barranco, se tu tropeçar e cair ali tu simplesmente morre. Entendeu?". Ele entendeu bem.




A gente chega e quer tirar foto de tudo, quer ir logo subindo, subindo, subindo, sabe-se lá pra onde, a gente vê todo mundo subir e quer subir também. Então a gente cansa. A gente cansa, perde o fôlego (não esquecendo que estamos à 2.400m de altitude e nós que moramos no país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza sentimos isso). A gente recupera o fôlego e segue caminhando, subindo, tentando diminuir o passo e controlar a respiração. A gente sente calor e troca de blusa no meio das pedras, enquanto os turistas passam (foi o que eu fiz, pra desespero do meu filho). A gente lembra, quando a cabeça está torrando do sol que deveria ter colocado um chapéu (ou boné, ou lenço, ou qualquer coisa que cobrisse a cuca). E então, a gente resolve sentar, respirar fundo e simplesmente fazer o mais importante: apenas admirar.








Enquanto marido seguia numa trilha, eu e Pequeno sentamos numa bendita de uma disputada sombrinha que havia pelo meio do caminho e ficamos em silêncio (Pequeno de cansaço mesmo, eu porque finalmente entendi o que significava aquela famosa "energia" do lugar).

Nesse momento a gente não precisa nem de guia, nem de livro pra tentar explicar a história do lugar. Talvez o mais encantador daquele lugar seja que ele ainda é uma incógnita. Não se sabe muito bem quando surgiu e porquê surgiu. 



Oficialmente a descoberta do lugar é muito recente (pouco mais de 100 anos). Não se sabe o porquê dos espanhóis nunca terem chegado lá ou suspeitado de sua existência. Existem muitas teorias, também, por aquela pequena cidade ter sido contruída estrategicamente ali naquele ponto (uma delas diz que ali moravam apenas os "eleitos" pelo rei Inca). Poucos tinham o privilégio de morar pertinho do céu (e é pertinho mesmo), na terra sagrada.

É intrigante também analisar como eles construíram tudo por ali, a perfeição do talhado das pedras, como as encaixavam e como tais construções resistiram ao tempo e, também, a terremotos.

O fato é que as incógnitas são muitas, que deram origem a muitos mitos e lendas. Juntando todo esse enigma com a beleza natural daquele lugar impressionante, faz com que Machu Picchu seja realmente um lugar único e especial. Apesar do cansaço, do suor, do sol queimando, daquele monte de gente muitas vezes aglomeradas, é um daqueles lugares que a gente fecha o olho, respira fundo e agradece ao Universo por ter tido a oportunidade de conhecer, ver e sentir.









Foi super especial fazer esta viagem com Pequeno. Muitos dos passeios que fizemos com ele quando era menorzinho, ele não lembra quase nada. Mas este passeio, com certeza, ficará pra sempre na memória. Foi um passeio bem cansativo, caminhamos muito, subimos, descemos, passamos calor, passamos frio, sentimos os efeitos do soroche, a viagem tanto de ida e muito mais na volta foi bem cansativa (tivemos que pegar 3 aviões em cada trajeto), mas Pequeno foi nota 1.000, um super companheiro de viagem e foi muito legal ver o interesse dele em conhecer os lugares, saber um pouco da história e indagar a respeito, com curiosidade própria.






Machu Picchu ... a 'Cidade Perdida dos Incas'. Uma beleza peculiar, um enigma, uma mistura de beleza feita pelo homem (não se sabe bem como e nem porquê), junto com a bela obra da natureza. Um lugar aonde realmente se fica pertinho do céu e onde reforça a absoluta certeza do quão insignificante somos diante de tamanha grandiosidade.

Agradiseyki!



Último P.S. - eu juro! Uma coisa que descobri logo após a viagem: na foto inclinada das ruínas, você vê um rosto? Pois Pequeno e marido, que viram rostos e siluetas por todos os lados, não perceberam este, que estava ali bem diante de nossos olhos: um rosto ... olhando para o céu :)



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