sábado, 13 de maio de 2017

Quem tem superpoderes?

- "Manhê! Eu não tô achando o meu perfume.", gritou ele do banheiro.

O perfume estava lá, dentro do armário. Eu sabia que estava lá.

- "Procura que tu acha!", disse da sala.

Algum tempo depois, ele grita já estressado que iria se atrasar pro passeio da escola:

- "Manhê! Ele sumiu!"

Então disse aquela frase clichê que 98,9% das mães dizem alguma vez na vida:

- "Se eu for aí e achar esse negócio ..."

Cheguei no banheiro, me agachei diante do armário e a primeira coisa que apareceu na frente do meu olho foi ... o perfume.

Ele arregalou um olhão e disse:

- "Nossa! Isso não é possível! Tu tem que ter superpoderes ..."

Elementar, caro Pequeno Nicola. Todas as mães nascem com superpoderes. Elas fazem aparecer coisas assim do nada, aliviam dores, descobrem segredos, fazem premonições como ninguém. Dizem, até, que tem algumas que são meio bruxas. É.

A minha era e é assim também.

- "Se eu achar a tua meia branca com bolinha lilás dentro da gaveta vou esfregar ela na tua cara!", dizia assim "carinhosamente".

E era só ela entrar no meu quarto que ... pimba! A meia branca com bolinha lilás parecia saltar da gaveta direto nas mãos dela.

A melhor e mais poderosa água com açúcar era dela. Aliviava dor de cabeça, dor de barriga e dor de mentira.

- "Que houve que tu tá com essa cara? O quê tu tá escondendo Tatiana?"

Como ela descobria, eu não sei. Bom, hoje eu sei:  ela jogava verde pra colher maduro. O mesmo que faço hoje brilhantemente com meu Pequeno.

- "Não te mete com essa guria que ela não presta!"

Eu ficava de mal com ela (com a mãe, não com a guria). A achava a pessoa mais implicante do mundo. Na verdade, a achava "um saco". Mas a mãe segue até hoje ... e a guria, no final das contas, não prestava mesmo.

Óbvio que as mães, como qualquer ser humano, não estão isentas de erros, alguns até graves. Aliás, estão sempre errando. Mas a desculpa é boa: erram tentando acertar. Vai entender esses seres complicados!

Já fiquei de coração partido por ter castigado meu Pequeno. Já fiquei esperando ele cair no sono profundo pra passar pelo quarto e dar um beijo de boa noite. Sofro demais fazendo papel de durona. Já me equivoquei algumas vezes com ele. Em algumas pedi desculpas, em outras não fui capaz.

Me peguei inúmeras vezes dando as mesmas desculpas esfarrapadas que recebi. Contando histórias sem sentido só pra assustar (tipo, cuidado com o velho do saco, não conversa com estranhos - coisa bem difícil do Pequeno obedecer - não pega doce de ninguém na rua que pode estar envenenado, não toma leite com manga, não come melancia de noite). Enfim ... essas neuroses de mães.

Já me peguei respondendo "porque sim", "porque não", "porque eu quem tô dizendo". Na minha versão de filha detestava essas respostas sem sentido. Mas na minha versão mãe elas me economizam várias explicações que não sou capaz de dar.

Lembrando de todos os momentos difíceis de discussões, implicâncias e diferenças que tive com minha mãe na minha fase de adolescente, me dá um medo antecipado que não cabe dentro do meu peito (exagero de mãe, sabe como é!) só de pensar que a adolescência do Pequeno está logo ali na esquina.

Lembro das vezes em que discutíamos porque chegava das festas de madrugada e ela estava lá acordada. Eu achava um saco aquele controle. Aonde já se viu a pessoa fazer questão de ficar acordada só pra torrar a paciência? Hoje eu sei que ela não fazia questão ... é que de preocupação ela não dormia mesmo. Não quero nem pensar quando chegar a época do meu Pequeno sair por aí com os amigos.

Até hoje eu não sei mentir pra minha mãe. Não dá. Não consigo. É mais forte do que eu. Mesmo morando longe, as vezes quando não estou bem (doente ou com problemas da vida mesmo) prefiro nem ligar, porque a primeira pergunta que ela sempre me faz é : "Como é que tu tá?". E se eu não estou bem e digo que estou, mesmo via telefone, dá um nó na garganta. Pequeno, por enquanto, é assim também. Ele não sabe mentir. E não sabe nem disfarçar, tadinho.

Hoje, dia 13, véspera de Dia das Mães, faz 4 anos que minha mãe operou o coração. Um momento difícil, complicado. O momento aonde mais tive medo, onde ficou bem claro pra mim que  a vida é um sopro. Que de repente tudo pode escorrer pelas mãos.

Hoje, para ela e para nós, restam algumas histórias que viraram anedótadas mas que no dia foram difíceis de suportar. Meu irmão, todo durão, dando mil e uma recomendações para minha irmã e pra mim, exigindo que fôssemos fortes, caiu em lágrimas feito criança (o beicinho de choro mais fofo que vi em toda minha vida!). A angústia na sala de espera e,  quando percebi,  estava na capelinha do hospital chorando rios de lágrimas e rezando com uma fé que não sei de onde saiu (na verdade sei sim!). Minha mãe dando ataque de histerismo na UTI, queria os óculos, queria sair dali, não aguentava mais o apito das máquinas. A irritação dela por precisar receber sangue. A força e a resistência que ela teve. Sempre a achei forte, guerreira, mais até do que ela mesmo acreditasse, mas vendo-a ali, literalmente de peito aberto, me fez ter mais orgulho ainda (se cabia) da minha mãe. Ainda hoje a vejo superpoderosa. Eu não sei se numa situação parecida conseguirei dar conta do recado tão bem quanto ela deu.

Eu e ela já percorremos um caminho de vida enorme. Tomara que eu consiga trilhar esse mesmo caminho com o meu Pequeno e que ele sinta por mim todas as coisas boas que eu sinto pela minha mãe.

Eu bem que queria ter superpoderes sim. Queria poder aliviar dores, sanar problemas, desviar caminhos tortuosos, apagar momentos difíceis, desaparecer com falsos e invejosos que cruzassem o caminho dele. Mas, infelizmente não dá. Por enquanto, só consigo fazer aparecer perfumes dentro dos armários. Aprendi com minha mãe, que fazia surgir meias brancas com bolinhas lilás de dentro das gavetas.




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