¡Hola, Madrid!

    Semana passada precisei fazer um bate e volta na Espanha. A Europa tem dessas facilidades: em questão de poucas horas, basicamente o mesmo tempo de vôo entre Rio e Porto Alegre, a gente aterriza em outro país (no caso, foi o mesmo tempo de vôo entre Milão x Madri).

    Precisava de um documento da época em que morei na Espanha. Precisava dele 'pra ontem'. Tentei de todas as maneiras consegui-lo por aqui, mas não dava. Ao menos não com a pressa que necessitava. Fiz quinhentas ligações (tá bom! Foram só umas quatro) para o Consulado espanhol em Milão, mas eles não poderiam me ajudar. Aliás, foram super solícitos, me explicaram por telefone as opções que eu tinha e ainda me enviaram e-mail explicando tudo em detalhes. Eu poderia pedir o documento pelo correio mas levaria, como mínimo, uns 20 dias para recebê-lo. A outra opção seria pedir para alguém lá na Espanha retirá-lo para mim mas para isso precisaria primeiro de uma procuração,  precisaria de documentos com cópias autenticadas e demais burocracias que levariam algum tempo. Esquece.

    A minha primeira reação - como de costume - foi me desesperar. Logo, no segundo seguinte, me irritar. No terceiro segundo bateu a vontade de "desistir" do trâmite que precisava realizar e para o qual precisava do tal documento. No 5° segundo, respirei fundo, peguei o telefone e liguei pra Madri, para o departamento que emitiria o bendito papel.

    Óbvio que, como sempre, o primeiro número discado não funcionava. Respira fundo e paciência! Tenta outro! Uma funcionária muito atenciosa e simpática me atendeu. Expliquei minha situação (que morava fora da Espanha) e que precisava emitir o bendito documento com a máxima urgência. Ela me confirmou que ele ficava pronto na hora. O único é que precisava agendar o atendimento, mas isso poderia fazer online mesmo, onde poderia confirmar a disponibilidade de dias e horários.

    Então fui procurar passagem para a Espanha. Tive sorte e consegui um vôo com um preço justo, nuns horários mais ou menos convenientes (a ida era um pouco tarde) mas ... era o que tinha. A tela de pesquisa ao lado das passagens, abri no site onde precisava realizar o agendamento e confirmei a disponibilidade para o dia  da passagem. Primeiro agendei, depois confirmei a passagem e logo deu uma dorzinha no estômago.

    Engraçado foram minhas mensagens de Whats para o marido. Numa dizia basicamente "não deu certo, desisto" e logo a seguinte era "quarta vou pra Madri". Ainda bem que ele já me conhece.

    Mas antes de qualquer dor no estômago tomar conta do meu corpo por conta da viagem de última hora, precisava organizar algumas coisas. Em tempos remotos, a preocupação seria arrumar mala e pronto. Disso não precisaria nem me preocupar já que a ida e a volta seriam no mesmo dia mas,  por via das dúvidas, levei na bolsa uma pequena necessaire e uma troca de roupa. Seguro morreu de velho, vai que dá algum problema de atraso e cancelamento de vôo? Só quem já passou perrengue nos aeroportos da vida sabe da necessidade de uma calcinha e meia limpas. Ainda vivemos a "era Covid" e precisava preencher alguns formulários de entrada na Espanha e Itália além de imprimir meu Green Pass (tanto os formulários quanto o certificado de vacinação tinha no formato digital mas imprimi tudo também ... vai quê ...). Devo ter algum ascendente em virgem que explique tanta organização :)

    Organizei tudo entre segunda e terça, junto com meus documentos atuais e os da época em que morei na Espanha, mesmo estando todos vencidos achei melhor levá-los. Tudo preparado e organizado, na quarta cedinho marido me levou no aeroporto antes de ir para o trabalho e logo já estava embarcando para a Madri, solita, com dorzinha no estômago devido a incerteza de se daria tudo certo e também felicidade por estar voltando num lugar que é muito especial para mim.

    Se você é novo por aqui talvez não saiba mas morei 7 anos em Madri (aqui do lado, à direita, na seção "NOSSO PASSADO NÃO NOS CONDENA", se você clicar em "Nossa Vida na Espanha" abre uma lista de posts da época em que morávamos por lá.  Foi em Madri que conheci meu amore e foi em Madri que nosso Pequeno nasceu. Por esse e por tantos  outros motivos essa cidade é tão especial para mim. Madri ainda segue sendo minha cidade preferida e morro de vontade de morar lá novamente.

    Resolvi pegar um taxi direto do aeroporto para o centro. Busquei pelo Google uma agência bancária próxima ao local onde deveria retirar o documento porque, primeiro, antes de tudo, de qualquer outra coisa, precisaria pagar uma taxa. Uma mísera taxa de 3,86€ mas que me deu um trabalho danado.

    Fui matando a saudade das paisagens pela janela do taxi, feliz ouvindo o sotaque castellano da rádio e o ceceio do taxista.

    Desci feliz do taxi, o trajeto foi super rápido e parecia que tudo estava andando como o planejado. Até que a caixa do banco me diz:

    - "Você tem conta no banco? Nessa agência?"

    - "Não moça! Moro fora da Espanha, moro na Itália e meu banco é de lá."

    - "Ah ... então não vou poder aceitar o pagamento. Para quem não é cliente só posso aceitar o pagamento até às 11:00h".

    Eram exatamente 11:45h.

    Vendo minha cara de desespero, a moça me diz:

    - "Mas tenta aqui nessa agência vizinha, ali o pagamento pode ser realizado no caixa eletrônico mesmo, em qualquer horário."

    Beleza! Uns 30 passos depois, chego na agência bancária vizinha.

    Após uma pequena fila, chega  a minha vez no caixa eletrônico. Digito trocentos códigos até que aparece a opção para colocar o número da identidade espanhola. Eu ainda conservo a minha documentação de lá mas, óbvio, perderam a validade faz tempo. Tentei colocar meu número de passaporte mas ... deu erro novamente. Vou até o caixa físico da agência, peço encarecidamente que me ajude, explico que não moro mais na Espanha, meu documento espanhol não está mais válido (mostro o documento), argumento que só tenho o passaporte (que aliás é o documento que aparecerá no raio do papel que preciso retirar - e que pra isso preciso pagar a bendita taxa). A caixa me deixa explicar tudo isso pra logo me dizer:

    - "Você tem conta nesse banco? Nessa agência?"

    Só podia ser brincadeira ...

    Num tom já quase irritado, pergunto:

    - "Ok! Eu preciso pagar essa taxa porque tenho agendamento pra daqui a pouco. Não tenho conta em nenhum banco espanhol porque não moro mais aqui, meu banco é  italiano, vou pagar os 3,86€ em dinheiro ... o que eu faço pra pagar esse raio de taxa?"

    - "Tenta na agência que tá aqui do outro lado da praça. Lá você também pode pagar no caixa eletrônico mas acho que não precisa digitar número de documento".

    A dor no estômago voltou com tudo, já estava tremendo de raiva (na verdade acho que já era fome). Não era possível! Ia perder a viagem por conta de 3,86€ que eu não conseguia pagar de jeito nenhum.

    Fui direto no caixa eletrônico da terceira agência do dia. Nada. Resolvi entrar e tentar novamente no caixa físico. Uma fila do caramba. Vejo um moço sentado em uma mesa ao lado da fila do caixa e resolvo pedir informação. Repito todo aquele bla-bla-bla da minha situação, explico toda a minha atual vida e o que preciso fazer. Ele me diz:

    - "Olha! Acho que não vai dar. Mas pergunta ali pro meu colega do caixa."

    Volto pra fila que, aliás, tinha aumentado em duas pessoas. Rezei para que não chegasse mais ninguém porque queria ser a última da fila mesmo. Naquele dia o Universo tava conspirando contra (só podia ser!) porque peguei de tudo naquela fila: gente fazendo depósito com destinatário não encontrado, gente contratando lá sei eu que serviço do banco (que precisava ser feito no caixa, daqueles com várias etapas de confirmação de documentos e assinaturas), gente fazendo cambio de dinheiro de tudo quanto era país ... e um único caixa.

    E eu só mentalizando: "por favor, que não chegue mais ninguém!". Eu iria dar o espetáculo da minha vida e não queria plateia. 

    Realmente não chegou mais ninguém. O caixa me olhou aliviado, já que parecia ser a última cliente da sua jornada de trabalho. Mal sabia ele o que estava por vir:

    - "Bom dia, moço! Tudo bem? Preciso da sua ajuda, por favor! Não moro mais na Espanha, moro na Itália e daqui a pouco tenho agendamento para retirada de tal documento e preciso pagar essa taxa. Já fui em outras duas agências e não pude pagar, primeiro porque não! Não tenho conta em nenhum banco espanhol. Segundo, porque meu documento espanhol, esse aqui ó (mostrei o documento vencido pra ele), nao é mais válido, só tenho o meu passaporte (mostrei o passaporte), este que consta aqui no formulário ó (mostrei o formulário),  que é o que preciso para o certificado que vou pegar. Eu preciso resolver esse problema hoje, tenho vôo logo mais tarde para a Itália. Aqui está meu agendamento ó (mostrei o agendamento) e aqui está a minha passagem de mais tarde (mostrei a reserva do vôo). Preciso da sua ajuda, moço, por favor, você é minha última esperança.". E olhei pra ele com cara de Gato de Botas com os olhos cheios d'água (de verdade, estava quase chorando de desespero!).

    Ele me olhou com cara de 'ela só pode ser doida' e disse:

    - "Deixa eu ver o formulário ..."

    Entreguei o formulário tremendo. O moço olhou detalhe por detalhe. Vira a folha daqui, revira a folha de lá. Começou a digitar um monte de coisas, enquanto digitava me dava umas olhadas com cara de 'essa pessoa é bem estranha!', até que me disse:

    - "São 3,86€."

    Nossa Senhora das Causas Impossíveis, muito obrigada!

    Foi a vez em que mais fiquei feliz por pagar uma taxa, em toda a minha vida!

    O desespero deu lugar ao sorriso e o alívio foi tomando conta do meu ser. Se bobear, acho que até dei uns saltinhos de felicidade na frente do caixa.

    O moço sorriu (acho que confirmou sua suspeita!). Me entregou o formulário com o comprovante de pagamento e me disse naquele espanhol típico dos madrilenhos, do qual eu sinto tanta saudade:

    -"¡Venga! Tranquila. Ya está!"

    - "Moço! Muito obrigada, mas muito obrigada mesmo! O senhor salvou meu dia!"

    - "¡Venga! Tranquila! Adiós ... cuidate!" ... só faltou terminar com um "cuidate, ô sua doida!".

    Se algum dia voltar a morar na Espanha (quem sabe? A gente joga os desejos para o Universo e ele se encarrega ...), abro uma conta naquela agência.

    Super aliviada, saí então disposta a rever alguns lugares especiais (os que poderia ver naquela zona onde estava, já que logo tinha hora agendada).

Plaza Mayor


Puerta del Sol

    Almocei uma coisinha rápida numa rede de restaurantes (que mudou bastante desde a última vez que fui). Engraçado foi ver os olhares estranhos das pessoas me julgando porque estava almoçando no horário em que os espanhóis ainda estavam tomando café.

    Logo fui direto para o local do agendamento. Caminhei sem pressa, ainda refletia no meu corpo todo o estresse da parte da manhã. Fiz o trajeto todo rezando para que desse tudo certo. Vai saber o que o Universo tinha reservado pra mim? Sim. Sou desconfiada (e pessimista), fazer o quê?!

    Cheguei um pouco antes do horário agendado, perguntei se poderia entrar. A funcionária de segurança do local super simpática e atenciosa (eu tô acostumada com as burocracias italianas, ué! Estranho quando me tratam bem ... ) confirmou que poderia entrar e esperar sentadinha. Logo me chamaram e em menos de 10 minutos saí do local com o bendito documento em mãos. Quando o funcionário grampeou o comprovante de pagamento no meio de um monte de folha desordenada, morri de vontade de contar pra ele toda a minha saga pela manhã. Mas achei melhor ficar quieta.

    Me deu vontade de chorar de novo ... dessa vez de alívio. Me deu vontade de sair gritando pela rua, exclamar uns quantos "uhuuuullll's" ... ou melhor, como estava na Espanha, exclamar um monte de "¡Toma ya!" num tom bem alto. Mas achei melhor me conter. E resolvi sair caminhando meio sem rumo.

    Foi ali que senti a melhor sensação desses últimos tempos. De estar de volta naquele lugar que estava tão diferente mas que ao mesmo tempo me fazia sentir em casa. Matar saudade dos lugares que haviam ficado na minha memória e sobretudo reconhecer as mudanças.


    Não me importei da Puerta del Sol estar uma bagunça danada e cheia de obras ...


    Não me estressei com o vai e vem da Gran Via.


    Caminhei pra caramba, afinal, agora tinha tempo até o horário do vôo de retorno pra casa. Poderia sim ter ficado alguns dias por Madrid, mas precisava voltar logo com o documento. Assim que o bate e volta era necessário.

    Caminhei quilômetros e quilômetros, alongando meu retorno ao aeroporto. Parei para um café e carregar o celular. Resolvi voltar de metrô,  o que também rendeu um pequeno estresse já que uma das estações estava em obras e precisei sair do metrô, pegar um ônibus até a estação mais próxima pra, logo, seguir viagem de metrô novamente. Mas, como diz aquela música tão conhecida ultimamente: "o que é um arranhão pra quem já tá f*&^&% ?", de resolver pepinos, ao menos naquele dia, estava craque.

    Voltei pra casa tarde, exausta, com a sensação de dever cumprido, orgulhosa de mim, rindo do mico que paguei no banco, aliviada com o documento em mãos e já com frio na barriga pelos pepinos que vinham pela frente ...

    ... mas isso é papo pra outro post.

    


    ¡Gracias, Madrid! Toma ya!

Finalmente o Marcello.

Aproveitamos que Pequeno teve 2 dias de feriadão na escola para irmos visitar a nonna. Com a função de que ele tem aulas aos sábados (todos os sábados ... ha ha ha - risadinha maquiavélica) e como a nonna não mora perto de onde moramos (são umas 7 horas de viagem de carro), não a víamos desde julho.

Assim que resolvemos aproveitar o feriadinho de carnaval e decidimos pegar a estrada.  Esperamos que terminasse a aula do Pequeno e logo seguimos rumo ao Abruzzo (região de nascimento do marido).

Saímos de Monza com um dia lindo de sol e o termômetro marcando 19º. Chegamos na casa da nonna quase às 22h, com 0º e uma nevezinha querendo dar às caras. 

Nosso restinho de final de semana e início de feriado foi em família, curtindo em casa mesmo. Pequeno pode curtir a companhia dos primos, bater papo com os tios e dar risadas com a  nonna. Passou horas no jardim curtindo os resquícios de neve.

Já estava decidido que voltaríamos na terça pela manhã cedinho e na ida mesmo havíamos planejado de, na volta, parar em Firenze (Florença) que fica quase na metade do caminho entre a casa da nonna e a nossa casa. Sem contar que Firenze, por conta da paixão inexplicável do Pequeno pela cidade, ganhou também  nossos corações.

Da última vez que fomos (foi o presente que Pequeno pediu de aniversário - se você perdeu o post clica AQUI), deixamos uma tarefa pendente.

Quem é leitor antigo (bem antigo) do blog, vai lembrar que uma vez contei a história do Marcello. Mas ... vamos lá ... eu conto de novo.

Há muitos anos, quase 30, marido prestou serviço militar obrigatório em Modena (hoje o serviço militar não é mais obrigatório na Itália). Num dos poucos dias de folga, resolveu pegar um trem e ir passear em Firenze, passar o dia por lá. Marido gosta de desenhar e desenha bem (é um dom que ele tem, apesar de não dedicar tempo para isso). Em Firenze existem muitos desenhistas e caricaturistas que ficam pela rua, sobretudo na zona entre a Piazza della Signoria e o Ponte Vecchio. Um dos desenhistas ali presente naquele momento chamou a atenção do marido. Sem grana pra pagar um desenho seu, resolveu sentar e ficar admirando o trabalho do artista. Ele nunca mais esqueceu a fisionomia peculiar do desenhista e do seu nome.

Muitos anos depois, quando estávamos passeando em Firenze com o Pequeno - a primeira vez do Pequeno na cidade que logo seria sua grande paixão - marido me contou essa história. Achei bonitinha a lembrança que ele ainda tinha, fiquei imaginando meu marido com 19 anos sentado ali pelo chão, observando por bons minutos enquanto o outro trabalhava. Cortou meu coração ele falar que ficou com vontade de fazer um desenho mas não tinha dinheiro.

- "Mas agora tem grana! Vamos procurá-lo. Quem sabe ele segue por aqui e agora tu pede pra fazer um desenho teu?"

- "Meu não. Do meu filho."

E como bons turistas com tempo disponível, resolvemos perambular pela zona para ver se o encontrávamos.

Marcello - o artista - seguia basicamente no mesmo local e com o mesmo look descrito pelo marido.

Pequeno,  que ainda era bem pequenino,  até que se comportou bem. Vez que outra espiava os rabiscos do Marcello e tentava, sem êxito, chamar sua atenção: Marcello se demonstrava bastante introvertido e concentrado em suas linhas.

Firenze 2009

Firenze 2009

(Se você não é leitor antigo e ficou curioso com o post sobre nosso encontro com Marcello, clica AQUI. E nos comentários desse post antigo tem um pouco da história do Marcello).

Da última vez que fomos, em setembro,  tentamos reencontrá-lo pois Pequeno queria refazer seu desenho, agora na versão adolescente. O buscamos por alguns dias e não o encontramos. Perguntamos para os artistas que ficam ali por aquela zona e nos disseram que ele seguia trabalhando ali mas estava fora, viajando de férias.

- "Puxa vida! Que azar! Mas ... quem sabe, da próxima vez."

Um bom pretexto e um excelente motivo para retornar à Firenze.

Então resolvemos sair de Capistrello bem cedo para chegarmos em Firenze  na hora do almoço e logo procurarmos por Marcello.

Saiu mais ou menos tudo como o previsto. O que não estava previsto era o frio que fazia em Firenze, na verdade em boa parte da Itália. Bem besta que sou, saí com pouca roupa, coloquei o casaco errado e congelava à cada sombra.

Mudamos um pouquinho os planos: resolvemos primeiro buscar Marcello e depois almoçar num restaurante que já conhecíamos de outrora. A verdade é que, acho, estávamos ansiosos para encontrá-lo e deixamos a fome em segundo plano.

Os olhos embaralharam um pouquinho procurando entre os artistas de rua, já estava quase soltando de novo um "Puxa vida! Que azar" ... quando Marcello 'apareceu' bem na nossa frente, como num passe de mágica.

O mesmo estilo, o mesmo look, seguia não fazendo questão de muito papo. Mas esboçou um singelo, quase tímido sorriso quando marido contou que havíamos buscado por ele no verão passado para refazer um desenho que ele havia feito do nosso Pequeno há anos. Quando mostramos  as fotos antigas um sorrisinho disfarçado de seriedade apareceu.

Firenze 2022

a concentração

pensa numa pessoa feliz ...

Pequeno ficou emocionado e um pouco resignado com seus planos de futuro:

- "Será que dá tempo do Marcello fazer um desenho do meu filho?"

Essa resposta eu não tenho. Se existe uma coisa que não controlamos é o tempo.  E o futuro ... quem sabe dele?

O que eu sim sei é que daqui a alguns anos (e queira o Universo que sejam daqui a muitos!), se realmente tiveres teus filhos (as vezes os planos mudam ...) quando estiveres passeando com eles pelas ruas de Firenze contarás  dentre tantas histórias que tens para contar desta bella città,  uma história em particular que é bem linda, que nossa família viveu em primeira pessoa. E caso eles duvidem, o blog é a prova de tudo. Eu, literalmente, assino embaixo :)

Vida longa ao Marcello! 

Talvez ele nem imagine, mas ele faz parte da nossa história.



Vivência na Posta.

Sexta-feira precisei ir na agência dos correios (Poste Italiane) para fazer um depósito (que não poderia ser feito online). Algo absolutamente arcaico, tão obsoleto que eu já nem lembrava mais como funcionava.

Poderia fazer o pagamento na segunda? Poderia. Até mesmo no sábado pela manhã. Mas como boa ariana prática e imediatista, pensei: por que deixar para amanhã o que pode ser feito agora?

Chamei o Pequeno para me acompanhar. Mais que nada pra fazer companhia e pra bater um papo fora do contexto de pouca conversação típica de adolescente aborrecido com puxões de orelha por conta do estudo :) Os papos em casa são praticamente os mesmos ... simbora trocar o ambiente para ver se o assunto flui. Arianos também gostam de sair da rotina ...

Fomos a pé, uma caminhadinha boa debaixo de um solzinho agradável, numa típica tarde de inverno.

Durante o trajeto trocamos ideias, Pequeno tagarela como sempre contando suas histórias. Quando vimos ... 'Opa! Já chegamos!'.

Peguei a senha de atendimento e logo fui preencher o boleto com os dados do depósito  que precisava efetuar. Há muito tempo, acho que uns 3 anos, logo que cheguei aqui em Monza, precisei ir nessa agência dos correios (a maior da cidade - existem várias mas aquela é a sede central, espaço físico maior e um horário de atendimento mais amplo). Lembro que haviam vários tipos de canhotinhos de depósitos/pagamentos expostos numa espécie de estante. Cada pessoa chegava lá, pegava seu boleto correspondente, preenchia os dados que faltavam e pronto. Dessa primeira vez nem foi esse tipo de serviço que precisei fazer mas me chamou a atenção o "procedimento", digamos assim. Me pareceu nada prático ... mas quem sou eu para julgar as burocracias italianas?

Pois bem. Peguei minha senha e fui logo procurando a estantezinha com os papéis. A estantezinha não existia mais. Beleza! Com certeza algo teria mudado nesses 3 anos que não pisei mais por lá, né?! Havia uma bancada com alguns papéis espalhados. Fui dar uma olhada, não achei o tipo de doc que precisava mas havia um boleto em branco. O peguei, iniciei a preencher os dados ... longos dados do destinatário, valor e meus dados que deveriam ser repetidos por 3 vezes (em 3 partes diferentes do canhoto) que demandaram alguns minutos de caneta. Minutos suficientes para perder a vez: chamaram minha senha porém seguia lá preenchendo os detalhes do pagamento.

tipo isso

Nesse meio tempo, ao meu lado, um senhor esbravejando os maiores palavrões possíveis da língua italiana. Era um "PQP" seguido de um "VTC" misturado com um "VSF" que não dava nem tempo do homem respirar. Achei que fosse ter um piripaque de tanta raiva que exalava daquela criatura.

A raiva só foi aumentando, os palavrões se multplicaram e seu tom de voz passou a assustar. Comecei a ficar nervosa. O primeiro impulso era o de oferecer ajuda mas o homem me pareceu meio estranho e estava tão furioso, mas tão furioso que jurei que ele seria capaz de enfiar a caneta no meu olho caso abrisse minha boca para perguntar se queria ajuda. Fiquei com medo mesmo. (Trágicos. Sim, arianos são trágicos!)

Naquela onda de "não reclama que fica pior", escrevi o valor (por extenso) errado. Pequeno soltou um:

- "Deixa assim! Ninguém vai dar bola ..."

Ah, menino! Logo eu? A rainha (absurda) do perfeccionismo? (Arianos, sabe?!). Rasguei o papelzinho e voltei a escrever tudo novamente.

Terminei de preencher após longos minutos e só então fui retirar uma nova senha. Nesse meio tempo, finalmente, apareceu um funcionário dos correios para oferecer ajuda ao senhor. Enquanto esperava minha nova senha ser chamada, escutei uma senhora perguntar algo sobre um pagamento que achei que fosse o mesmo meu. O mesmo funcionário que havia oferecido ajuda ao senhor estressado deu um papel pra senhora que me deixou com dúvidas. E, na dúvida,  melhor perguntar. O homem me olhou com cara de "sua imbecil, óbvio que não é esse papel", pegou meu boleto que havia demorado longos minutos para preencher, rasgou-o nada delicadamente bem na minha cara e me deu um novo papel.

Voltei pra bancadinha pra analisar minha nova situação e percebi que o novo boleto era exatamente igual ao que tinha preenchido. A única diferença era que naquele os dados que tanto demorei para preencher já vinham digitados. Precisava apenas completar com  meus dados.

Concordei com o funcionário dos correios: "imbecil". Como assim eu não sabia que tinha que pedir por algo que nem sabia que existia? E juro que fiquei tentando achar a diferença do que havia escrito a mão e aquele que o funcionário  me havia dado.

Ao meu lado, Pequeno analisando o papel, disse:

- "Ué ! Mas é igual ao que tu tinha preenchido antes?"

Ah, pois! Melhor ficar quieto e fazer como o homem havia indicado.

O senhor estressado desapareceu. Acho que não conseguiu resolver o seu problema e deve de ter ido esbravejar em outro lugar.

Enquanto esperávamos, Pequeno me chamou a atenção para uma cena cinematográfica que estava acontecendo diante dos nossos olhos: a agência cheia de gente esperando por atendimento e 4 funcionários numa rodinha que me lembrou muito aquelas rodinhas que a gente fazia em tempos de escola elementar, num papo super divertido, contando piadinhas e dando gargalhadas ... como se nada estivesse acontecendo em volta. Pequeno começou a rir e disse que adoraria trabalhar ali.

- "Seria muito divertido viver esse ambiente todos os dias!"

- "Eu, hein?! Menino maluco!"

Alguns minutos depois, um dos bobinhos piadistas da rodinha de escola, vulgo atualmente funcionário dos correios, chamou minha senha. Como ele já estava bem feliz  e risonho, seguiu nesse clima durante o atendimento. Até perdeu seu precioso tempo oferecendo para o Pequeno um serviço de telefonia dos correios que estava em promoção. E ainda teve a cara de pau de dizer:

- "Vou explicar direto pra ele que é um menino esperto e vai entender melhor do que a senhora do que estou falando."

Pronto! Além de imbecil, velha (odeio quando me chamam de senhora) e burra ...

Agradecemos a 'simpatia' e a 'gentileza' e fomos embora.

Ao sair, Pequeno disse:

-Mãe! Tu percebeu que tu já é praticamente uma italiana?"

- "Oi?"

-Mãe! Há algum tempo se tudo que aconteceu agora tivesse acontecido tu teria te estressado muito. Agora tu nem falou nada. Já acostumou ..."

Sabe que tem sentido na observação dele?

Lembrei de logo quando fui morar em Roma, em 2009. Lembrei de todas as vezes em que me estressei e chorei de raiva (e/ou) impotência por todas as situações estressantes e sem sentido que vivi ali. Além da falta de tato das pessoas ... nossa! Foram períodos bem difíceis (*).

Realmente já não dou mais bola, acho graça e quando a situação  exige, respondo à altura. Já não choro mais. No máximo, choro de rir.

Nada como um dia após o outro.

E Pequeno seguiu:

- "Nossa, mãe! Muito obrigada por ter me convidado pra vir contigo nos correios. Que experiência! Da próxima vez que precisar vir, me chama que venho contigo."

Nossa Senhora das Burocracias Italianas! Que eu nunca mais precise voltar por lá ... ou, ao menos, que demore outros 3 anos ... no mínimo! (Exagerados os arianos ... eu sei!)


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(*) se você não é um leitor antigo, tem um pouquinho da nossa vida em Roma (onde moramos de 2009 até  2012) clicando >>>> AQUI

Em Quarentena.

Como comentei no post anterior (se você ainda não o leu, clica AQUI), ao chegar do Brasil tivemos que cumprir uma quarentena.

De acordo com a última ordinanza (norma)  emitida pelo Governo em dezembro passado e com validade até 31 de janeiro de 2022 (se quiser treinar seu italiano e lê-la inteirinha basta clicar AQUI), o Brasil ainda faz parte do elenco E de países com restrições para entrada na Itália (esse elenco vai de A a E). Além de não aconselharem viajar para os países pertencentes à esse elenco, existe uma série de restrições e medidas para quem chega desses locais. Uma delas - simplificando justamente na que nos diz respeito - é a obrigatoriedade de cumprir uma quarentena de 10 dias ao retornar e só ficar livre dela após realizar um novo teste com resultado negativo. Além disso, é preciso que  cheguemos ao nosso destino final (no nosso caso, a nossa residência) em meio de transporte privado (nosso carro havíamos deixado no aeroporto). Nada de trem, bus ou qualquer outro tipo de transporte público.

Ficou alguém lá no aeroporto controlando se estávamos entrando no nosso carro ou pedindo documentação para a galera que pegou trem ou ônibus? Não, não ficou. Mas sobre isso falaremos uns parágrafos mais abaixo.

Em agosto passado quando retornei do Brasil precisei cumprir a mesma quarentena de dez dias. Porém, desta vez está um pouco diferente.

Com o aumento de casos por aqui (para terem uma ideia no dia em que partimos para o Brasil foram um pouco mais de 12 mil novos casos na região de Monza e Brianza e quando retornamos eram 49 mil novos casos diários), os locais onde se realizam os testes simplesmente colapsaram. Eram filas e filas quilométricas pelos drive-thrus montados pela região para a realização dos já conhecidos tampones.

Em agosto precisei fazer um teste um dia após o meu desembarque e outro no último dia de quarentena. A ATS (Agência de Tutela da Saúde) que entrou em contato comigo, via telefone, e eles mesmos que marcaram todos os meus exames. Desta vez entraram logo em contato conosco, nos enviaram nossa comunicação de início de quarentena (nos enviaram o documento via e-mail) mas não marcaram nenhum teste logo após a chegada e o teste de final de quarentena era por nossa responsabilidade. Só que desta vez, não sendo marcado por eles, deveríamos fazê-lo em uma farmácia. Poderíamos fazer em um laboratório qualquer? Até poderíamos, mas precisaríamos de um certificado de final de quarentena que não é emitido em todos os lugares mas nas farmácias sim.

meu aviso de quarentena

Nosso último dia de quarentena teoricamente era dia 16, domingo. Mas não conseguimos agendar exame para esse dia, assim que tivemos que aguentar um dia a mais de clausura e rezar para que a farmácia emitisse logo o bendito certificado, sobretudo para que Pequeno pudesse voltar logo pra escola.

Veio alguém em minha residência controlar se estávamos aqui? Não. Não veio ninguém.

Da outra vez que fiz a quarentena em agosto, também não bateram na minha porta mas me ligaram umas três vezes. Desta vez só ligaram (para o marido - porque viram nos formulários que tivemos  que preencher antes da viagem que eramos uma família) no primeiro dia, enviaram os documentos de aviso de quarentena dos três por e-mail e pronto.

"Ah! Mas então vocês poderiam ter saído pra rua?" ... claro que poderíamos. Não tem nenhum policial nos esperando na porta do prédio. Mas se tem uma coisa que aprendi na minha vida é que entre o poder e o dever existe uma grande diferença. Até porque  poderia sair mas se fosse parada em algum controle pela rua (e esses sim acontecem) pagaria uma multa bem salgada (que vai de 400 até 5000 €uros) com a possibilidade de detenção (dependendo do reato e da ficha criminal). Informações mais completas e detalhadas AQUI.

São 10 dias sem trabalho e sem escola? Não. E isso não é uma norma, conta muito a flexibilidade das empresas e escolas. Temos a "sorte" de que meu marido pode trabalhar desde casa e Pequeno pode fazer lição online. Isso sim: tivemos que apresentar na escola o documento que a ATS nos enviou por e-mail - o aviso de início de quarentena. Ele "só"  poderia retornar após fazer o exame e apresentar o certificado de final de quarentena. "Só" assim entre aspas e o verbo poder conjugado no futuro do pretérito pra enfatizar a incerteza da situação. Na verdade ele não era obrigado a apresentá-lo (por várias questões, entre elas as questões relativas à lei de  privacy - que aqui na Itália contam bastante). Entra novamente em debate aquele discurso que comentei antes: o poder e dever.  Pois é ... 

Bom, encurtando o final da história: Pequeno voltou hoje para as aulas presenciais e não precisou apresentar o tal do certificado, somente o resultado negativo do teste (como ele estava em quarentena por viagem e não por ter positivado foi mais simples).

Não foi fácil ficar trancado dentro de casa, sobretudo quando faziam dias lindos de inverno  lá fora que eu só admirava pela janela. Vontade de passear pelo centro e dar uma olhada nas lojas (ainda mais agora que é período de liquidações - os famosos saldi), ir fazer um aperitivo por aí, matar a saudade do restaurante preferido, ir no parque fazer exercício ... saudade até mesmo de ir ao supermercado (coisa que eu nem gosto).


Ah! Falando em supermercado: marido foi fazer as compras (e somente para isso ele saiu de casa). Quando nos ligaram da ATS ele comentou que eramos sozinhos aqui. Até tentei fazer compra online mas com o aumento de casos, muita gente em casa fazendo quarentena, as empresas não estavam dando conta das entregas. Para terem uma ideia, chegamos numa quinta-feira e a primeira data de entrega disponível era para a terça-feira seguinte.

Pequeno botou o nariz pra fora de casa somente para descer o lixo. Eu, no máximo, saí na sacada para molhar as plantas.

Deu pra perceber que nesta questão de quarentena existe uma certa flexibilidade e uma linha bem tênue entre o pode e não deve?

O que ainda me surpreende são comentários do tipo "marionetes do governo", "bando de ovelhas", "se ninguém controla pra quê fazer essa droga?" ou ainda "eu que não sou idiota, não preciso respeitar essas ordens absurdas".

Absurdo pra mim, sinceramente, à essa altura do campeonato é a falta de percepção de que, depois de tudo o que vivemos, ainda não tenhamos entendido que cada um precisa realmente fazer a sua parte.

Nós fizemos a nossa. E ontem, após 11 longos dias botei meus pés pra fora de casa. Coisa boa poder dar uma caminhadinha pelo centro. Eu e marido aproveitamos para ir ao parque, retomarmos nossa rotina de caminhada pelo meu local favorito de Monza. 

E o Universo conspirou nos brindando com um pôr do sol digno de pintura em quadro e, logo, uma lua linda de encher os olhos, a tal da Lua do Lobo que apareceu ontem. Tive vontade de ficar sentadinha por lá, no meio do mato, só admirando a paisagem. Mas o frio me trouxe de volta à realidade e lembrei que ... entre o poder e o dever ... É! Existe uma grande diferença :)




Final de Ano.

Metade de janeiro de 2022 e apareço por aqui. Feliz Ano Novo, amigos leitores do blog!

Nosso final de ano foi agitado, felizmente agitado.

Fomos para o Brasil, em umas férias vapt-vupt, aproveitando os poucos dias de férias de inverno da escola do Pequeno para passar as festas de final de ano com minha família. Esse já era nosso desejo desde muito tempo e ficou ainda mais forte após tudo o que passamos neste ano que, felizmente, foi embora.

Até o último momento não tínhamos certeza da nossa partida. Por muitos fatores que envolviam - ainda - a nossa realidade em tempos de pandemia.

A empresa onde compramos as passagens - e que não divulgo o nome pra não fazer publicidade, uma vez que não merecem - só passou a refazer vôos diretos Itália x Brasil na metade de dezembro (nossa partida era dia 23, aos "quarenta e cinco do segundo tempo"). Fizemos exame de covid 24hs antes do embarque e, apesar do marido ter pego uns dias a mais de férias pra ficar em casa "resguardado" para a viagem, Pequeno até o dia 22 foi para a escola. Aquele medinho de que "algum dos três" positivasse estava presente.

Com o resultado negativo dos exames passamos para o passo seguinte: preencher o formulário pedido pela Anvisa. Separei todos os documentos, os respectivos exames, comprovantes de vacinações, comprovação de envio do formulário da Anvisa, tudo organizadinho por passageiro (até recebi elogio pela minha organização no controle do aeroporto - e, sendo bem sincera, acho que o povo quando vê que está tudo assim bem organizado nem olha direito os dados daquele monte de folhas).

Não fiquei descansada até o momento do check-in no aeroporto. Haviam relatos de muitas pessoas a respeito de overbooking por parte desta empresa aérea. E, logo eu que sou tipo São Tomé - só acredito vendo - só me tranquilizei quando recebi nossos cartões de embarque.

Resumindo ... a viagem foi um saco! Viajamos de dia (o que dificulta ainda mais meu sono no avião), num avião velho, meu sistema de áudio não funcionou (ou seja, sem entretenimento durante a viagem), não tinha onde carregar celular, comida bem ruim. Fez-se bastante pesada e longa a viagem (12hs de vôo). 

Chegamos em São Paulo e tivemos que sair correndo pra aquela função de pegar mala, passar pela alfândega, fazer novo check-in e logo sair correndo por aquele aeroporto imenso, passar por um novo controle de segurança até chegar no nosso novo portão de embarque para o destino final, Porto Alegre.

Só deu tempo de trocar de roupa (saímos do frio e chegamos no calorão), passar um desodorante nos sovacos (os outros passageiros não eram obrigados a aguentar nossa nhaca de 12hs de vôo), comprar uma água e logo já estávamos embarcando.

Chegamos em Poa era quase uma da madrugada. Muito cansados e sem grande pressa esperamos por nossas malas. Pouco a pouco foram chegando. Saímos da sala de desembarque e tivemos uma grande surpresa.

Eu sempre me emociono pelos aeroportos da vida em dois momentos: nas partidas e nas chegadas. Me emociono com as pessoas se despedindo antes de partirem para o embarque. Aqueles abraços longos e afetuosos, que transmitem ali naquele momento uma saudade imensa que acaba de começar. Talvez pelas minhas experiências de despedidas e por saber o quanto essa saudade dói, me emociono com os abraços alheios. E também me emociono nas chegadas. Quando saio e vejo as famílias esperando pelos seus, com olhinhos brilhantes e cheios de expectativas, com os braços prontos para darem aquele abraço demorado, dessa vez um abraço feliz que em poucos segundos é capaz de suprir toda aquela danada da saudade.

Pois bem. Tínhamos alugado um carro, chegamos de madrugada e sabíamos que ninguém esperaria por nós no aeroporto. Porém, pra nossa surpresa, quando saímos do nosso desembarque reconhecemos logo um cartazão com uma frase bem familiar: uma piadinha interna feita no grupo de whats da família momentos antes do nosso embarque em Milão. O primeiro que reconheci foi o cartaz, ele só poderia ser pra gente. Baixei o olhar e vi que quem o segurava era minha sobrinha. Logo identifiquei minha outra sobrinha, a outra, o marido, meu irmão e, por último, minha mãe, sorridente esperando pela gente. Que grata surpresa que foi essa! Minha primeira reação foi dizer que eram malucos. E eles são mesmo! Obrigada Laura, Beta, Carol, Renan, tio Beto e mamãe por terem feito nossa chegada ser ainda mais especial!

os malucos


vovó e Pequeno

Fomos pegar o carro que havíamos alugado, numa empresa relativamente nova. Nossa Senhora da Enrolação, que coisa mais demorada! Depois de quase uma hora de espera, com um carro que não era muito do nosso agrado, saímos em direção a Osório. Isso sim, no meio do caminho, paradinha estratégica para reencontrar a galera e fazer um lanche num posto de gasolina onde meu pai sempre pedia pra parar: era ele ali presente fazendo questão de nos dar as boas-vindas.

Chegamos em Osório tarde e fomos dormir lá pelas quatro da manhã do dia 24.

Enrolados com a questão do fuso horário, manicure que havia marcado meses antes (mulheres que moram fora do Brasil me entenderão) e sobremesa da ceia por fazer, quando vimos já era noite e estávamos todos reunidos na casa do meu irmão mais novo para celebrarmos o Natal juntos.

Foi um Natal estranho, diferente, triste - porque foi o primeiro sem meu pai, mas o que importa é que estávamos ali todos juntos. Teve também muita bagunça, muita farra e muita risada, típico da minha família. Eu e meus Nicola's estávamos tipo zumbis, virados e cansados da viagem e com uma diferença de fuso de 4hs que nos fizeram ter uma luta particular com nossas pestanhas: elas insistiam em fechar e nós insistíamos em mantê-las abertas.

dizem que esse Papai Noel tinha uma voz
bem parecida com a do meu primo :)

O resto dos dias até o Ano Novo foram de agenda cheia, muitos eventos, comida na casa de um, comida na casa de outro, aniversário da prima, formatura do sobrinho. Haja saúde, energia e a dieta que lutasse!

O Ano Novo foi na casa do outro irmão, o mais velho. Eu e os Nicola's ainda lutávamos contra o sono mas resistimos um pouco mais (não tanto quanto gostaríamos). Foi muito especial ver o quanto Pequeno se divertiu com a família. A farra que fez com os tios, os primos, a dupla incomodativa que ele formou com o Dindo dele, o quanto ele estava mais alto que a Dinda (e boa parte da família) e, sobretudo, o quanto ele aproveitou e curtiu com a vó. Acordavam cedo pra bater papo e ficar mandando piadinha boba no grupo da família no whats, trocavam confidências, comiam besteiras, a vó ficou contando sobre sua vida. Pequeno fez questão de dormir no sofá porque, segundo ele, ainda tinha o cheiro do vô por lá.




Depois do Ano Novo, finalmente, conhecemos a Sosô, minha sobrinha neta que mora no Canadá, tem 3 aninhos e ainda não tínhamos tido a oportunidade de conhecê-la. Pequeno se apaixonou pela priminha e, apesar do pouco tempo, puderam curtir muito a companhia um do outro.

Logo ficamos em função dos preparativos para a nossa volta. Novamente preocupação e estresse com a viagem. A notícia de que alguns vôos estavam sendo cancelados me deixou nervosa. Agendamos nosso retorno com alguns dias de antecedência com respeito ao final das férias (tanto a do marido no trabalho quanto a da escola do Pequeno) mas qualquer imprevisto que acontecesse nos causaria problemas.

Novamente a tensão ao fazer exame (que depois rendeu um vídeo bem engraçado do marido no grupo da família), separa documentos, preenche formulário de entrada na Itália (e que formulariozinho mais complicado, diga-se de passagem), olha no aplicativo da empresa se o vôo está confirmado ... enfim ...

... dia 05 de janeiro nos despedimos da família (alguns nos acompanharam até o aeroporto) e partimos para nossa odisseia de retorno. Em SP foi muito corrido novamente. Pequeno, de última hora (literalmente na hora do embarque) teve que comprar uma calça pra viajar: a criatura cresceu em duas semanas e a calça com que havia viajado na vinda para o Brasil ficou apertada e a criatura não aguentaria 12hs com as pernas (e otras cositas más) esmagadas durante a viagem. Enquanto marido ficou na fila para controle de documentos momentos antes do embarque eu e Pequeno saímos procurando uma calça confortável pelas lojas caras (e bem caras) do embarque internacional.


Subimos no avião com a sensação de que todo o esforço, estresse e cansaço tinha valido a pena. Conseguimos resolver algumas burocracias pendentes e, fora isso, não tiramos nosso pé de Osório. Praticamente todo o tempo foi dedicado à minha mãe e nossa família. Não reencontrei nenhum dos meus amigos, infelizmente não deu. O tempo e as circunstâncias que estamos vivendo não permitiram esses reencontros, mas espero que eles aconteçam em breve. Voltei com as energias recarregadas, com o coração mais leve e muito feliz por todos os momentos que vivemos, dos mais simples aos mais intensos.

O avião que voltamos era o mesmo velho da ida (que azar!) mas desta vez meu áudio funcionou, a comida estava um pouco melhor e descobri que abaixo do assento (bem abaixo) havia uma espécie de tomada onde poderia carregar o celular (sim, você leu bem: tomada).


gambiarra que fiz para meu fone funcionar.
Dizem que mulheres com bandaid na bolsa são capazes de fazer milagres :)

A viagem fez-se longa novamente e apesar de desta vez ter sido noturna, foi bem cansativa. Pegamos um "engarrafamento de aviões em posição de decolagem" e ficamos mais de uma hora esperando que o pessoal desse autorização para decolarmos em Guarulhos. São Paulo e seus trânsitos caóticos ...

Chegamos em Milão com 1 hora de atraso, nossas malas demoraram pra sair nas esteiras de bagagem e corremos para pegar nosso carro no estacionamento.

Finalmente em casa, cansados, com toda aquela bagunça pós viagem iniciamos uma nova fase dessa função de viajar em tempos de pandemia: a quarentena. Mas sobre ela falo no próximo post :)

Aguardem.




¡Hola, Madrid!

     Semana passada precisei fazer um bate e volta na Espanha. A Europa tem dessas facilidades: em questão de poucas horas, basicamente o me...