O maior dos medos.

    Quando eu era criança, lá pelos meus 10/11 anos, naquela fase em que a gente começa a querer entender algumas coisas sobre a vida, onde a gente começa a descobrir que nem tudo é sempre feliz ou perfeito, lembro de algumas noites, quando ia dormir, naquele momento em que a casa inteira fica às escuras, silêncio quase  perturbador no ar, naqueles momentos em que a gente tem certeza de que deveria estar dormindo mas o sono não vem, momentos em que a cabeça começa a pensar mil e uma coisas - e quase nenhuma com um certo sentido ou nexo - lembro que muitas vezes ficava pensando: "o que vai ser de mim quando meus pais morrerem?".

    Eu era filha caçula, nessa idade todos os meus irmãos já estavam fora de casa, tinham suas famílias, suas vidas, eram todos adultos.

    Eu lembro que imediatamente após meu questionamento, era invadida por uma dor no estômago que se misturava com uma dor no peito, uma sensação muito ruim de angústia e medo. Chorei muitas vezes baixinho, em silêncio, quase sufocando com a coberta no rosto, tendo todo o cuidado do mundo para não fazer nenhum ruído. Imagina o pai e a mãe acordarem, me pegarem chorando desesperada e eu tendo que explicar o motivo? Tutufum! Diria minha mãe.

    Lembro até de sentir ciúmes de meus irmãos. Eu pensava: "Que raiva! Por que eles nasceram antes? Eles vão viver muito mais tempo com o pai e a mãe do que eu!". Ciúmes, birra, doidice típica de pirralha mimada sem noção. Ou apenas uma criança que começava a descobrir a vida ...

    Esse medo todo logo passou. Veio a adolescência, aquela fase de vida em que a gente quer viver somente o presente, sem se preocupar muito com o futuro, onde a gente acha que tudo dura pra sempre: o primeiro amor, as amizades, os pais.

    Pulemos, então, lá para os meus 20 e poucos anos, quando fui embora de casa. A distância passou a ser enorme, meus pais estavam mais velhos e eu já era adulta e sabia que a vida não seria sempre encantadora, feliz e perfeita. Que momentos difíceis fariam parte da minha história também e que eu deveria aprender a lidar com eles.

Optei por morar longe e sabia que nessa minha bagagem teria bônus e ônus. O meu maior ônus sempre foi a preocupação de se acontecesse algo com meus pais e não pudesse me despedir deles, estar junto com meus irmãos. A gente sabe que não muda nada da história e do destino, mas é questão de conforto, de apoio, de família, de simplesmente estar junto.

Dia 15/7 o maior dos meus pesadelos se tornou realidade. Meu pai faleceu.

Dói muito ainda falar sobre isso,  somente ler aqui que meu pai se foi reaviva aquela dor no peito de quando eu era criança. O medo da perda virou realidade. E como é difícil lidar com os medos quando eles se tornam reais.

Tudo o que queria agora era pegar no sono, acordar com o barulho dele pela manhã e respirar aliviada sabendo que havia sido apenas bobeira da minha cabeça. 

Sei que meu pai não iria gostar de me ver triste. Aliás, se tem uma coisa que não combina(va) com ele é a tristeza. 

Estou há dois anos esperando pelo nosso reencontro. 2 anos vendo meus pais por uma tela de celular. Foi através da tela do celular que vi meu pai pela última vez. Ele estava feliz, brincalhão e bonito (que velhinho bonitinho que meu pai é (era)!). Ele estava internado num hospital, mas naquele dia era como se estivesse em casa. Estava diferente dos outros dias em que se percebia o seu cansaço, o tédio pelo ambiente hospitalar e a saudade da mãe.

Eu só fui entender depois o recado: é (era) assim que ele quer (ia) que me lembre (asse) dele. Feliz, brincalhão e bonito.

Como é difícil falar dele no passado! Meu pai tinha tanta vida, tanta história, tantas anedotas, tanta vontade de viver. Quantas lutas meu garoto superou!

Faz dias que tento escrever algo por aqui. Mas o olho fica cheio de lágrimas, a garganta engasga, o peito dói e a tristeza me invade.

É uma tristeza que dói de verdade. E é uma dor que vai pra alma que não tenho nem como explicar.

Ainda preciso do meu tempo, preciso entender ainda o que estou sentindo para poder seguir adiante. Eu sei que essa dor não vai embora e que eu precisarei aprender a conviver com ela.

Em dezembro iríamos nos reencontrar. Mas Papai do Céu (como eu preciso creer Nele!) tinha planos melhores para meu velhinho.

Agora estou aqui, sentada num aeroporto desses do mundo afora, aguardando por um vôo que tanto temi: sozinha, sem meus Nicola's, morrendo de medo de voar (a primeira vez depois da pandemia) e muito triste em saber que não receberei o abraço gostoso dele, o sorriso emocionado, o olhinho cheio de lágrima dizendo: "que saudade que eu tava de vocês".

Vai ser duro, vai ser difícil, vai ser triste, vai ser estranho mas é necessário. Minha véia está me esperando, meus irmãos, minha irmã, minha família gigante. O melhor que meu pai poderia ter me deixado.

Esse processo de perda ainda está incompleto. Falta uma parte de mim que está por lá. 

Tempo. Esse mesmo tempo que está demorando a chegar por aqui (nunca seis horas de espera num aeroporto demoraram tanto) será o mesmo tempo que se encarregará de colocar minhas dores nos lugares correspondentes, minhas lembranças serão guardadas com carinho e a saudade será minha companhia para o resto dos dias. Eu já estava acostumada a sentir saudade, mas não essa.

Pequeno partiu meu coração quando em prantos disse: "Meu Deus! E agora para ver meu vô só quando eu morrer?".

Quisera eu, Pequeno, ter essa tua certeza do reencontro. Que delícia de abraço eu daria nele. Iria apertar suas bochechas fofinhas, lhe contaria sobre a falta que ele me fez e diria com o coração cheio de felicidade: que bom ser tua filha!

Olha eu de novo sentindo inveja dos meus irmãos ... 60 e tantos anos que viveram com ele ... 

E hoje nem preciso de coberta. O medo se fez realidade e a  máscara esconde a dor que brota dos olhos.

Mais um ciclo que se fecha.

    Uma das coisas que mais me preocupava quando decidimos nos mudar (de novo ...outra vez) de volta para a Itália era com relação ao quanto isso afetaria negativamente ao Pequeno. Sim. Porque apesar de estarmos acostumados com nossa vida meio nômade (tá bom ... nem tanto, ao menos não tanto quanto realmente gostaríamos) nem tudo é positivo sempre.

    Pequeno já havia estudado na Itália na época em que moramos em Roma. Mas iniciou a estudar mesmo (quando o negócio começa pra valer) no Brasil. Lá ele foi alfabetizado e fez toda a primeira parte do ensino fundamental (Fundamental I) no Rio de Janeiro. Apesar da língua italiana ter estado sempre presente (as primeiras palavras dele foram em italiano, a comunicação diária com a família paterna - especialmente com a nonna - e a língua que o pai sempre utilizou para se comunicar com ele, era italiano) as referências de estudo, de aprendizagem, de alfabetização, haviam sido - até então - em português.

    Bom, a saga do início de estudos por aqui (tendo caído de paraquedas no meio do ano escolar) está aqui pelo blog.  Quem lembra do "mico" do primeiro dia? Quem não lembra pode reler aqui

    No segundo ano escolar as coisas prometiam ser melhores e mais tranquilas. Até que final de fevereiro veio uma pandemia e fez com que o menino se adaptasse à uma nova realidade: a já tão conhecida DAD. Sobre essa nova fase falamos aquiA Seconda Media também acabou com resultados excelentes, apesar de todos os pesares.

    E então iniciamos o último ano da Scuola Media. Mas, como assim? Último ano do fundamental? Significa que ele adiantou um ano com relação ao Brasil? Não. Acontece que o Ensino Fundamental aqui tem  um ciclo de 8 anos (um a menos que no Brasil). Porém o ciclo do Ensino Médio aqui  é de 5 anos (dois a mais se comparado com o do Brasil). Ou seja, no final, aqui se estuda um ano a mais.

    Além de ser o ano mais puxado, por ser o último, aqui eles precisam fazer algumas provas  (de avaliação pessoal e coletiva), além da tesina (uma pequena tese).

    Por conta da pandemia, algumas das provas escritas foram canceladas. Fizeram a prova Invalsi. Essa prova foi criada em 2007 e  se trata de  uma avaliação do grau de preparação dos alunos do ensino fundamental ( grau de conhecimento, modo de ensino, etc). 

Normalmente no final do ano escolar eles fazem outras provas (esame di terza media) mas no ano passado e neste ano, se livraram das provas escritas  e fizeram somente a prova oral (tesina).

[Atenção! Estou relatando a realidade do Pequeno, na escola que ele frequentou. Não sei dizer se nas outras escolas funcionou da mesma maneira.]

    A tesina consiste em escolher um tema, desenvolver o argumento, tentar ligá-lo ao maior numero de disciplinas possíveis e apresentá-lo oralmente e com apresentação em Power Point durante um tempo determinado. No caso da turma do Pequeno o tempo era de 30 minutos de apresentação para uma comissão (que costuma ser externa à escola mas nestes dois últimos anos a comissão foi interna - todos os professores deles estavam presentes, de todas as disciplinas).

    Para muitos colegas foi um desespero argumentar, apresentar e falar durante 30 minutos. O problema do Pequeno foi justamente o contrário: 30 minutos era pouco tempo para meu tagarela.

    Ele também poderia ter escolhido qualquer tema para apresentar. Alguns dos temas escolhidos pelos colegas: Ferrari, Titanic (o filme), anime, cantor famoso, etc. Minha criatura escolheu como tema: Dante e a Liberdade. Dante, nada mais nada menos do que um dos maiores poetas italianos e um dos pais da língua italiana. E a liberdade, 'teminha' bem simples de argumentar. Além disso juntar esse tema com disciplinas como Inglês, Matemática, Espanhol, Ciências ... "bem facinho", né?!

    O tema foi escolhido por sua conta e risco. Eu e o pai dele até demos alguns palpites de possíveis temas. Mas, nada feito. Ele queria falar sobre isso. E sobre isso falou. Não teve pai, mãe, professor e nem Santo capaz de fazer o menino mudar de ideia.

    Fez um trabalho duro de pesquisa. Incrível como ele se esforça com o que realmente o importa (eu sei que com quase todo mundo funciona assim, mas Pequeno vai além com temas de seu interesse e faz pouco caso - leia-se menos esforço - com o que não é de seu interesse). Óbvio que contou com a ajuda dos professores, que deram quinhentos mil pitacos (alguns o tiraram do sério!) e foram orientando de acordo com o que ele ia sugerindo, mas eu e o marido só entramos em jogo no final, quando já estava tudo feito, inclusive a apresentação, e somente precisava cronometrar o tempo de exposição.

   Lembra que era um tempo de 30 minutos? Pois bem. Eu e marido viramos figurantes de participantes da comissão e ficamos responsáveis por cronometrar o tempo. No primeiro teste de cronômetro deu uns 45 minutos ... para desespero do Pequeno. Depois disso foram umas quantas noites de novos testes com o relógio. Fiquei sabendo de cor e salteado cada detalhe da apresentação e, pra ser bem sincera, no final não aguentava mais ouvir falar do Dante. Ignorância (minha) à parte, aprendi muita coisa com Pequeno e seu tema.

    Acabou que chegou o dia da apresentação e entre tanta lábia do Pequeno e muita curiosidade por parte dos profe's a apresentação da criatura demorou 1 hora (e eu e o pai dele sentados esperando-o fora da escola - aquele apoio psicológico que para ele nem era necessário mas para nós era importante).

    Bom, isso foi lá pela primeira semana de junho. O resultado final saiu semana passada. Pequeno tirou 10 (dez!!!) -  (sentiram meu tom de orgulho?) - e ficou com uma média geral final de curso de 9.

    Fazia tempo que queria postar sobre essa função de final de curso escolar. Por muitos motivos mas, sobretudo, porque nosso blog é meu registro - minha herança de vida pra ele, como costumo dizer - e, apesar da preguiça e falta de ânimo que vem prevalecendo, queria deixar registrado aqui esse momento vivido por ele. Para que, num furturo, quem sabe, quando ele 'se reler' por aqui e estiver num momento meio pra baixo, de incógnitas ou medos, lembre do quanto ele foi forte, capaz e do quanto se empenhou.

    Que lembre da loucura que foi mudar de país, chegar no meio de um ano escolar (super puxado e diferente do que ele estava acostumado) e 2 anos e meio depois acabar esse ciclo com uma nota final de 9 de média. E do quanto ele arrasou falando sobre Dante - que ousado que você foi, meu filho!

    Então ... se algum dia você esquecer, faço questão de deixar aqui registrado para te lembrar de que esforço, empenho, metas e sonhos valem a pena. E de que, se você estiver certo do que realmente deseja, que ninguém te faça mudar de ideia e que sigas em frente, com o teu objetivo sempre em mente.

    Eu e seu pai estaremos sempre prontos para te ajudar no que for preciso, te dar o apoio (e as críticas e puxões de orelha também) necessários. Mas, sobretudo, assim como ficamos durante 1 hora debaixo do sol sentados na rua, estaremos torcendo pelo teu sucesso e prontos para celebrar cada uma das tuas conquistas. Que, tenho certeza, serão muitas!

    Parabéns, meu Pequeno! Agora vem o tão temido Liceo Classico ... mas sobre isso, falo um pouquinho mais pra frente :)


ultima foto na escola


 

O Nosso Primeiro Beijo.

8 de junho de 2003. 18 anos do nosso primeiro beijo.

Esperei tanto por aquele dia ... e que medo que eu tinha de perder o meu amigo. Sim! Porque nos conhecemos e viramos amigos. Saímos, fomos à bares, jantar fora, ficávamos até as tantas da manhã pelas ruas e praças de Madri batendo papo, contando de nossas vidas e trocando confidências. 

Teve um momento em que me toquei que estava gostando dele. Bom, na verdade, foi a Carol, dinda do Pequeno, minha irmã de coração, amiga, parceira, cúmplice e - um leve detalhe - minha sobrinha, quem me alertou:

- "Hum! Tu tá gostando dele ... ui ui ui ...".

Mas me comportei como uma "mocinha sem segundas intenções". Tudo o que não queria era dar um passo a mais e assustar o moço.

Como tudo nessa vida, as coisas aconteceram como deveriam acontecer. No tempo justo.

Foi então que no dia 08 de junho de 2003, num domingo, marcamos de nos encontrar para irmos ao cinema.

Ansiosa que eu estava (lembra que falei que não tinha segundas intenções? Pois é. Menti.), cheguei mais cedo junto da Carol e fomos tomar um café no Mc Donalds. Eu não sei o que aconteceu, não sei se foi bocabertice ou nervosismo, mas no primeiro gole de um copão  repleto de café, o virei todinho por cima. Detalhe 1: a blusa havia pego emprestada da minha cunhada. Detalhe 2: o moço estava quase chegando.

Fui correndo para o banheiro para lavar a blusa. Fiquei semi-peladona no banheiro do restaurante, passei sabonete e esfreguei como pude. Depois, enfiei a blusa debaixo do secador de mãos, rezando para que secasse logo.

De repente Carol entrou no banheiro. Primeiro riu da cena e logo disse:

- "Tati! Ele chegou."

Sequei mais um pouco, o mínimo para não sair molhada e apareci meio envergonhada contando o pequeno percance que havia sofrido.

Óbvio que segui fedendo a café. A blusa seguiu manchada e com um plus de molhada.

O moço passou o filme todo cochichando no meu ouvido (se estava entendendo o filme, se havia visto tal detalhe). Me esquivava o que podia porque estava com vergonha do meu cheirinho de café. E também ficava pensando que era coisa da minha cabeça que ele não  estava me dando mole.

O filme era "Ejecutivo Agressivo" (em italiano: Terapia d'urto;  em português: Tratamento de Choque).

Eu não lembro se quando acabou o filme fomos comer alguma coisa. Mas lembro que seguimos pro estacionamento, pois o moço nos levaria em casa.

E foi então que num domingo à noite, no estacionamento do Centro Comercial Equinocio, em Majadahonda, depois de ir ao cinema, com uma blusa emprestada  que  deixei fedendo a café  ... assim, com todo esse panorama "super romântico", que rolou o nosso primeiro beijo.

Meu coração se acalmou, o moço não assustou (até porque foi ele quem deu o primeiro passo ... sou difícil, ué?! - e sim, ele me deu mole durante o filme inteirinho) e nunca mais nos largamos.

Porém, faz muito tempo que não celebramos mais esse dia. Por essas coincidências estranhas do destino, dia 8 de junho de quatro anos depois, meu sogro faleceu. 3 meses antes do Pequeno nascer.

Com o tempo a gente vai aprendendo que a vida é assim mesmo, dias bons e outros ruins; dias felizes e dias tristes. Às vezes os dois sentimentos num mesmo dia, como é o caso do nosso 8 de junho: vivemos um dos dias mais felizes das nossas vidas e, também, um dos nossos dias mais tristes.

Mas hoje, quando completamos a maioridade, resolvi compartilhar esse momento por aqui. Pequeno já conhece toda a história. Aliás, ele dá muitas gargalhadas e conforme o tempo vai passando, sua curiosidade para os detalhes vai aumentando. Mas queria deixar registrado aqui no blog também, para ele reler num futuro. Vai que esquece ...

Dia 8 de junho segue sendo especial para mim. Lembro até hoje do friozinho no estômago (e também do cheiro de café).

Eu tenho certeza que de onde estiver, meu sogro estará orgulhosíssimo de ver a história que seguimos construindo, estará orgulhosíssimo de ver a pessoa, o ser humano que seu filho é, o marido e companheiro de vida maravilhoso que eu tenho e o pai tão atencioso, amoroso, carinhoso, responsável e dedicado que o neto dele tem.

Psiu! O moço: Ti Amo, Amore!



Mãe de Adolescente.

É engraçado e interessante (não sei ainda muito bem definir qual a melhor ordem) vivenciar a fase da adolescência desde o outro lado da história.

Não tem sido fácil. É uma mistura de incongruências, divergências, espantos. De repente aparece uma pitada de felicidade, de orgulho e de amor. Cinco segundos depois, explode uma guerra que não se sabe muito bem nem quando e nem porquê. É uma bipolaridade que eu quase não sei explicar. Não existe aquela história de "é oito ou é oitenta". Nada! Pode ser oito, oitenta, zero e vinte e cinco, tudo junto e misturado.

Fico observando Pequeno e pensando: "Caramba! Era assim que meus pais me viam?" ou "Putz! Que ingênua que eu era!". Ou então: "Eita! Eles sabiam de tudo, só fizeram de conta de que não ...". Passam-se 30 minutos e vejo naquela carinha emburrada e naquele olhar fuzilante a minha versão adolescente. 

Sou espectadora de seus chiliques impulsivos, seus argumentos cheios de razão (para ele), suas críticas alheias. Ouço com uma pitada de orgulho seus planos para mudar o mundo, suas soluções ingênuas para conflitos históricos e suas dúvidas existenciais.

Vejo, um pouco aflita, meu Pequeno que vai descobrindo o mundo, que vai se transformando fisicamente na velocidade da luz.

- "Como assim esse teu nariz cresceu de ontem pra hoje?"

Tenho tentado - como nunca - ser uma mãe mais paciente. Mas eu juro que não é que não tem sido fácil, o que tem sido é que é bem difícil. Precisa de muita paciência (pedindo isso logo pra mim, Papai do Céu?!). Sobretudo se  queremos ser pais participativos, argumentativos, esclarecedores e amigos. E quando digo amigos, não no sentido de que seremos melhores amigos. Esse nunca foi o meu objetivo. Pais são pais, amigos são amigos. Cada um com seu papel e sua importância. Mas quando digo "pais amigos" é no sentido de ele ter a confiança de nos contar algum segredo (eu não quero saber todos), a tranquilidade de desabafar algum problema e o conforto de saber que pode contar conosco. E, sobretudo, zero mentiras. Pois se tem uma coisa que eu odeio nessa vida é mentira. E olha que 'odiar' é uma palavra que reluto em usar.

Seria tudo perfeito se não tivéssemos a obrigação, também, de educá-lo. E eu encaro exatamente assim,  como um dever. Sempre digo aquela frase: "Não quero deixar um mundo melhor para meu filho mas um filho melhor para o mundo". Esse é o meu papel, o papel que eu escolhi e assumi.

São tantas as vezes em que penso: "Desisto! Vai pro teu quarto, se tranca por lá e só sai daqui uns 20 anos ...".

Mas é justamente isso o que eu não quero. Eu quero que daqui uns 5 anos ele deseje conhecer o mundo e que vá ... go Forrest, go!. Quero que ele saiba que ele pode ser e fazer o que ele quiser. Eu quero que ele saiba controlar seus momentos de conflitos (internos e externos). Quero que ele saiba distinguir o momento em que será preciso parar e fazer escolhas. E que tenha sabedoria e maturidade suficientes para arcar com as consequências dessas escolhas (sejam elas positivas ou negativas). Quero que ele entenda que da porta de casa pra fora, daqui a algum tempo, o menor dos seus problemas será lidar com a falta de paciência da professora de Inglês ou com o coleguinha que pediu a matéria e depois não foi capaz de enviar a página do dever de casa. Quero que ele aprenda a lidar da melhor maneira possível com as decepções. E que algum dia ele vai sentir saudade dessa mãe chata e que essa casa era tudo, menos um 'inferno'. (adolescentes: atualizem seus vocabulários)

Pequeno carrega consigo tanta coisa minha que me vejo muitas vezes nele. Papai do Céu me deu de presente minha versão masculina. Ao mesmo tempo vejo tanto do pai dele: a curiosidade, a capacidade de argumento e a facilidade em rir de qualquer besteira ainda bem que foram herdadas dos genes paternos. A boquinha quando dorme também é igual a do pai. E o raio do nariz que  crescendo também!  Sacanagem! Podia ter herdado a cor dos olhos, né?! (brincadeira, amore!)

Mas o mais interessante é que nessa mistura de nós dois, vejo um ser humano com qualidades, defeitos e caracteristicas próprias. Alguém que assim como me tira do sério tem a mesma capacidade para me encher de orgulho. Alguém que em muitos momentos (ultimamente) tem me feito pensar "quem mandou ter filho?" mas que logo depois me faz acender a plaquinha do "foi eu quem fez" cheia de corações voadores em volta.

Eu sei que ainda nos esperam longas batalhas. Ainda teremos muitos dias de guerras e conflitos. Muitos serão os dias em que ele não se sentirá compreendido e que precisarei controlar meu impulso para o grito, o castigo e a soberba característica dos pais autoritários.

Eu sei que preciso e ainda precisarei controlar o meu impulso de compará-lo comigo. Vivemos a adolescência em épocas, momentos, pais  e vidas diferentes (só o fato de dizer "no século passado quando eu era adolescente ..." já dá urticária!).

Pequeno ainda tem muito o que aprender com a vida. E eu? Ah! Cara mãe de adolescente ... isso está apenas começando. 

Oremos.



Giò & Giulia

Vos apresento Giò e Giulia.

Provavelmente neste exato momento estarão pensando: "Ok! Muito prazer! Mas quem raios são Giò e Giulia?"

Pois bem. Preciso, então, retornar há uns dois dias, quando ambos foram apresentados ao Pequeno.

Durante uma das tantas aulas (que seguem online) uma das profes comentou durante a lição sobre a existência desses dois moradores ilustres de Milão.

Giò e Giulia moram nada mais e nada menos que no arranha-céu mais emblemático da cidade, conhecido como Pirellone.

Giò e Giulia são um casal de falcões peregrinos que desde alguns anos, entre final de fevereiro e início de março, aparecem pelo Pirellone para se reproduzirem.

imagem pega daqui

Não se sabe exatamente desde quando ambos escolheram o arranha-céu para depositarem seus ovos e aguardarem seus filhotes nascerem. Mas a primeira vez que os viram foi em 2014, quando alguns funcionários faziam trabalho de manutenção no teto do edifício.

Algum tempo depois foi construído um ninho artificial para acolher os ovinhos da dupla e muito próximo  ao ninho foram instaladas câmeras para observarem a vida cotidiana do casal de aves.

A profe comentou com os alunos que poderiam ver em direto o momento da eclosão dos filhotes (que deve acontecer a qualquer momento).

Desde então, todos os eletrônicos do Pequeno estão conectados diretamente com as câmeras do Pirellone. Quem quiser assistir em direto, basta clicar aqui ou aqui.


Pequeno estuda com um dos monitores conectados nas aves. Almoça com o celular ao lado conectado na webcam do Pirellone. Inclusive joga com o pc conectado nos bichanos. Ele gamou na história das aves e espera ansioso ver os bichinhos nascendo (são 3 ovinhos neste ano).




Os nomes são uma homenagem ao arquiteto que projetou o edifício (Giò) e sua esposa (Giulia).

A fêmea passa a maior parte do tempo chocando os ovinhos (mães sempre se ralam!), mas eles fazem trocas de turnos e o papai falcão também participa da tarefa.

Confesso que no início, quando entrei no quarto do Pequeno e vi a tv/monitor conectado a um tempão no vídeo  em direto dos bichanos, exclamei um:

- "Não acredito que tu vai ficar vendo isso ..."

Hoje ele completa dois dias de monitoramento e ei de reconhecer que me apeguei aos bichinhos também. Tão bonito ver a mamãe  falcão cuidando dos ovinhos e fazendo ruídos (numa das cameras tem som em direto) sempre que o papai falcão aparece por perto, algo do tipo: "Vem que os filhos também são teus!

Estou ansiosa, assim como Pequeno,  para ver o momento em  que os falcõezinhos irão nascer.

Em tempos de "não se tem quase nada pra fazer", admirar e observar a beleza da natureza pode ser uma boa pedida.



O maior dos medos.

     Quando eu era criança, lá pelos meus 10/11 anos, naquela fase em que a gente começa a querer entender algumas coisas sobre a vida, onde...