A Escola.

Finalmente a vida está tomando jeito. 

Dia 08 (ontem) fez 1 mês que chegamos aqui. A verdade é que tenho a sensação de que já estou aqui bem mais tempo. As horas passam voando, os dias não rendem tudo o que preciso fazer render, talvez por isso essa sensação.

Estamos numa mistura de "aliviados", por termos conseguido organizar quase toda a vida em tempo recorde (por "organizar quase toda a vida" entenda-se: ter conseguido casa, escola para Pequeno, comprar móveis básicos e dar entrada em alguns dos meus papéis) e "correria total", pois ainda falta muita coisa para finalmente colocar os pés em cima do sofá e relaxar, sem ficar pensando "o que falta" ou "putz, tenho que fazer isso".

Mas quero pular algumas etapas, desde a última vez que estive por aqui escrevendo. Entre aquele dia e hoje, óbvio, aconteceu muita coisa. Mas, se der, escrevo sobre isso depois. Hoje quero contar sobre a função da escola do Pequeno.

Aqui é tudo diferente do que estava acostumada. Pequeno estudou já na Itália, quando moramos em Roma (fez a escola materna). Mas, digamos, toda sua real vida acadêmica foi no Brasil, nos moldes burocráticos da educação de lá (do Rio de Janeiro).

Aqui ele está frequentando uma escola pública. (Ufa! Dá um alívio no bolso que vocês nem imaginam ...). O processo para inscrevê-lo na escola foi até bem simples. Visitamos uma primeira escola, mais próxima de casa e a que gostaríamos que ele tivesse ido. Mas não deu. Por conta da divisão de distritos, aquela escola não correspondia ao nosso bairro. Como chegamos fora do período de inscrições, apenas a escola correspondente ao nosso endereço era "obrigada" em aceitá-lo. A primeira escola, digamos, também não agradou muito ao Pequeno (a escola não tinha quadra de futebol - sim, foi só por isso).

Assim que nossa segunda opção foi ir direto na escola correspondente. Tivemos que nos organizar de acordo com o restrito horário de funcionamento da secretaria. Aqui é tudo muito difícil ou, digamos, diferente do que estava acostumada: muita burocracia, os horários são restritos e se você chegar fora de hora ninguém sabe te dizer nada. (atenção! Experiência minha, ok? Não generalizo, porque não sei como funciona em outros lugares daqui).

Retornamos para fazer a inscrição, com toda a documentação que tínhamos. Inclusive a documentação da escola que preparamos no Brasil (pegamos histórico, atestado da escola dizendo que ele estava apto a frequentar a série seguinte, tudo devidamente reconhecido em cartório, apostilado, traduzido e reconhecido no Consulado da Itália no Rio de Janeiro).

No Rio, Pequeno havia concluído o 5. ano, estando apto a frequentar o 6. ano ou, aqui na Itália, la prima media (o primeiro ano da escola média). Como o ano letivo aqui iniciou em setembro, estava um pouco apreensiva, sobretudo com a possibilidade de o menino ter que repetir novamente o quinto ano. Não é o fim do mundo, mas seria uma sacanagem com o menino, sobretudo porque ele havia estudado muito para ser aprovado, tinha uma rotina na escola bem dura e em casa as exigências eram muitas.

Na primeira escola que visitamos, a secretária (não muito simpática, deixando claro), nos disse que ele teria que repetir o ano, mas que ela não tinha certeza disso e que não era ela quem decidia (felizmente, pensei). Na segunda escola, naquela que era "obrigada" a aceitá-lo, nem mensionaram nada a respeito quando fomos fazer a inscrição. O inseriram direto no ano que lhe correspondia, apesar de já estar em andamento. Basicamente, ele que se vire. Já esperávamos por isso e assim será. Ele vai se virar mesmo.

Ah! Dessa segunda escola ele gostou.

Por sorte (ou azar), quando o inscrevemos não estávamos morando no nosso apartamento. Ainda não haviam ligado a luz e nem o gás. Quando fizemos nossa mudança definitiva de Milão para Monza, a escola entraria de recesso (uma pequena pausa para férias no período entre Natal, Ano Novo e a Befana, dia 6 de janeiro), retornando às atividades somente no dia 07 de janeiro. Assim que Pequeno teve mais alguns dias de férias e nós tivemos tempo para comprar livros e material escolar.

Livros, diga-se de passagem, foram muitos. Muitos mesmo. Pequeno até fez uma mistura de cara de espanto com tristeza quando viu a enorme pilha de livros. E material foi um pouco menos do que estávamos acostumados em comprar no Brasil.

O primeiro dia de aula foi tenso. Para mim. Pequeno estava feliz, por finalmente conhecer gente de sua idade e por ir para a escola. Estava ansioso para conhecer os colegas e ver como funcionava tudo. Mas eu fiquei agoniada.

Pequeno achou o máximo sair super cedo de casa, com o céu ainda escuro, por conta do inverno, com um frio danado. Ele ria, somente ria. Talvez, também, por conta do nervosismo.



Tentei disfarçar o máximo que pude, procurando animá-lo e lembrando de todas as coisas que deveria perguntar. Sobretudo, que prestasse atenção de uma maneira geral, para conseguir se adequar o mais rápido possível.

Por sorte o marido estava comigo. Havia pego o dia de folga, pois teríamos o dia cheio com pessoas em casa montando móveis, instalando internet. Tinha horário para buscar Pequeno na escola e não queria deixar ninguém estranho em casa.

Pequeno morreu de vergonha, pois era a única criança na entrada da escola que estava acompanhada de pai ou mãe (ele, no caso, estava companhado dos dois ... olha o mico!). Quanto tocou o sinal, ele entrou ainda meio perdido, mas logo puxou papo com alguém que foi lhe indicando o caminho (não. Ninguém veio recebê-lo e não havia nenhum inspetor ou alguém da escola para indicar onde deveria ir - se vira, menino!).



Quando viramos as costas e seguimos - eu e marido - o caminho de casa, não aguentei e chorei. Acho que em todo esse nosso processo de mudança, foi a primeira vez que chorei porque me bateu um desespero. Senti medo, senti tristeza, senti angústia e senti pena. Pena do Pequeno. Judiaria! Tinha a vidinha dele toda organizada, amigos, escola, estava acostumado com tudo ... de repente se encontrava naquela situação. Não sabia nem por onde ir, não conhecia ninguém e teria que se virar num ano letivo já em andamento.

Confesso que só parei de chorar porque o frio era tanto que estava congelando minhas lágrimas. E, também, porque 5 minutos depois aquela sensação ruim passou. Ora bolas! Que bom que ele estava vivendo aquela experiência, tendo essa oportunidade, conhecendo gente nova e aprendendo a se virar sozinho, como tem que ser.

Naquela manhã agilizamos muitas papeladas que precisavam ser feitas, o tempo rendeu, o moço chegou para instalar internet - finalmente -  em casa. Mas a verdade é que não parava de pensar no Pequeno. Fiquei tão ansiosa que cheguei na escola uns 20 minutos antes do horário de saída. Fiquei mais aliviada quando vi algumas poucas mães buscando os filhos. Não seria a única e dessa vez seria apenas um miquinho pra ele.

Resumindo: ele amou a escola, ficou muito feliz. Segundo suas próprias palavras: "foi melhor do que esperava". Gostou dos professores e as matérias foram tranquilas. Sabia que ainda precisava criar o hábito para algumas coisas novas, mas em geral estava muito feliz.

No segundo dia, fui quase obrigada a deixá-lo na esquina da escola. Ai de mim se me aproximasse um pouquinho mais. "Que vergonha, mãe!" ...  Aqui as crianças da idade dele já vão sozinhas para a escola. Agora vai mentalizar isso ... uma mãe recém chegada do Rio de Janeiro, morrendo de medo de assalto, sequestro, bala perdida, vai que cruza com algum doido? Óbvio que o deixei na esquina e fiquei espiando. Mas, para complicar meu desespero, tinha muita neblina e logo o menino desapareceu nela.



Novamente fui buscá-lo e estraguei seus planos de vir embora com colegas até a metade do caminho. Não sabia ... fazer o quê?!

Hoje o levei até a metade do caminho. Apesar do trajeto ser tranquilo, basicamente em linha reta, ele precisa atravessar umas 3 ruas mais movimentadas. Morro de medo ... não tem semáforo, apenas faixa de pedestre. A maioria dos condutores para e respeita a passagem dos pedestres ... mas estamos na Itália ... alguns poucos mal educados são capazes de passar por cima.

Prometi que hoje não irei buscá-lo. E jurei (porque ele me fez jurar!) que amanhã irá sozinho.

Definitivamente, está sendo muito mais leve pra ele do que pra mim ... ainda bem!

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