O maior dos medos.

    Quando eu era criança, lá pelos meus 10/11 anos, naquela fase em que a gente começa a querer entender algumas coisas sobre a vida, onde a gente começa a descobrir que nem tudo é sempre feliz ou perfeito, lembro de algumas noites, quando ia dormir, naquele momento em que a casa inteira fica às escuras, silêncio quase  perturbador no ar, naqueles momentos em que a gente tem certeza de que deveria estar dormindo mas o sono não vem, momentos em que a cabeça começa a pensar mil e uma coisas - e quase nenhuma com um certo sentido ou nexo - lembro que muitas vezes ficava pensando: "o que vai ser de mim quando meus pais morrerem?".

    Eu era filha caçula, nessa idade todos os meus irmãos já estavam fora de casa, tinham suas famílias, suas vidas, eram todos adultos.

    Eu lembro que imediatamente após meu questionamento, era invadida por uma dor no estômago que se misturava com uma dor no peito, uma sensação muito ruim de angústia e medo. Chorei muitas vezes baixinho, em silêncio, quase sufocando com a coberta no rosto, tendo todo o cuidado do mundo para não fazer nenhum ruído. Imagina o pai e a mãe acordarem, me pegarem chorando desesperada e eu tendo que explicar o motivo? Tutufum! Diria minha mãe.

    Lembro até de sentir ciúmes de meus irmãos. Eu pensava: "Que raiva! Por que eles nasceram antes? Eles vão viver muito mais tempo com o pai e a mãe do que eu!". Ciúmes, birra, doidice típica de pirralha mimada sem noção. Ou apenas uma criança que começava a descobrir a vida ...

    Esse medo todo logo passou. Veio a adolescência, aquela fase de vida em que a gente quer viver somente o presente, sem se preocupar muito com o futuro, onde a gente acha que tudo dura pra sempre: o primeiro amor, as amizades, os pais.

    Pulemos, então, lá para os meus 20 e poucos anos, quando fui embora de casa. A distância passou a ser enorme, meus pais estavam mais velhos e eu já era adulta e sabia que a vida não seria sempre encantadora, feliz e perfeita. Que momentos difíceis fariam parte da minha história também e que eu deveria aprender a lidar com eles.

Optei por morar longe e sabia que nessa minha bagagem teria bônus e ônus. O meu maior ônus sempre foi a preocupação de se acontecesse algo com meus pais e não pudesse me despedir deles, estar junto com meus irmãos. A gente sabe que não muda nada da história e do destino, mas é questão de conforto, de apoio, de família, de simplesmente estar junto.

Dia 15/7 o maior dos meus pesadelos se tornou realidade. Meu pai faleceu.

Dói muito ainda falar sobre isso,  somente ler aqui que meu pai se foi reaviva aquela dor no peito de quando eu era criança. O medo da perda virou realidade. E como é difícil lidar com os medos quando eles se tornam reais.

Tudo o que queria agora era pegar no sono, acordar com o barulho dele pela manhã e respirar aliviada sabendo que havia sido apenas bobeira da minha cabeça. 

Sei que meu pai não iria gostar de me ver triste. Aliás, se tem uma coisa que não combina(va) com ele é a tristeza. 

Estou há dois anos esperando pelo nosso reencontro. 2 anos vendo meus pais por uma tela de celular. Foi através da tela do celular que vi meu pai pela última vez. Ele estava feliz, brincalhão e bonito (que velhinho bonitinho que meu pai é (era)!). Ele estava internado num hospital, mas naquele dia era como se estivesse em casa. Estava diferente dos outros dias em que se percebia o seu cansaço, o tédio pelo ambiente hospitalar e a saudade da mãe.

Eu só fui entender depois o recado: é (era) assim que ele quer (ia) que me lembre (asse) dele. Feliz, brincalhão e bonito.

Como é difícil falar dele no passado! Meu pai tinha tanta vida, tanta história, tantas anedotas, tanta vontade de viver. Quantas lutas meu garoto superou!

Faz dias que tento escrever algo por aqui. Mas o olho fica cheio de lágrimas, a garganta engasga, o peito dói e a tristeza me invade.

É uma tristeza que dói de verdade. E é uma dor que vai pra alma que não tenho nem como explicar.

Ainda preciso do meu tempo, preciso entender ainda o que estou sentindo para poder seguir adiante. Eu sei que essa dor não vai embora e que eu precisarei aprender a conviver com ela.

Em dezembro iríamos nos reencontrar. Mas Papai do Céu (como eu preciso creer Nele!) tinha planos melhores para meu velhinho.

Agora estou aqui, sentada num aeroporto desses do mundo afora, aguardando por um vôo que tanto temi: sozinha, sem meus Nicola's, morrendo de medo de voar (a primeira vez depois da pandemia) e muito triste em saber que não receberei o abraço gostoso dele, o sorriso emocionado, o olhinho cheio de lágrima dizendo: "que saudade que eu tava de vocês".

Vai ser duro, vai ser difícil, vai ser triste, vai ser estranho mas é necessário. Minha véia está me esperando, meus irmãos, minha irmã, minha família gigante. O melhor que meu pai poderia ter me deixado.

Esse processo de perda ainda está incompleto. Falta uma parte de mim que está por lá. 

Tempo. Esse mesmo tempo que está demorando a chegar por aqui (nunca seis horas de espera num aeroporto demoraram tanto) será o mesmo tempo que se encarregará de colocar minhas dores nos lugares correspondentes, minhas lembranças serão guardadas com carinho e a saudade será minha companhia para o resto dos dias. Eu já estava acostumada a sentir saudade, mas não essa.

Pequeno partiu meu coração quando em prantos disse: "Meu Deus! E agora para ver meu vô só quando eu morrer?".

Quisera eu, Pequeno, ter essa tua certeza do reencontro. Que delícia de abraço eu daria nele. Iria apertar suas bochechas fofinhas, lhe contaria sobre a falta que ele me fez e diria com o coração cheio de felicidade: que bom ser tua filha!

Olha eu de novo sentindo inveja dos meus irmãos ... 60 e tantos anos que viveram com ele ... 

E hoje nem preciso de coberta. O medo se fez realidade e a  máscara esconde a dor que brota dos olhos.

4 comentários:

  1. Acho que nunca estamos prontos para esse momento, não tem como estarmos. Mas, uma coisa é certa, esse véio viveu a vida como quis, desfrutou cada segundo, cada olhar, cada sorriso. Ele aproveitou a vida até o último momento. E sim, eu acredito muito que aquele último dia foi uma despedida feliz. Ele quer essa lembrança, de alegria!
    Vem, minha xexelenta, tem todo amor do mundo aqui te esperando!!!
    Eu, assim como o Nicolinha, acredito no reencontro. Então, vamos deixar o tempo cuidar do que deve ser cuidado e vamos seguir o exemplo do nosso véio, vamos desfrutar todos os momentos!
    Te amo!

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  2. Não sei pq não foi com meu nome! Mas, esse comentário aí de cima é da cumadi-irmã-melhor-amiga-pau-pra-toda-obra Carol! :)

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  3. Querida Tati, sinto muito por essa perda. Realmente é o maior pesadelo para quem mora longe. Receba meu abraço carinhoso e força para passar por esse luto tão difícil. 😘 Anlene

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  4. Estamos juntos, em tudo do teu texto...❤🙏❤🙏❤
    Renato Fraga
    OIM - OMB

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